segunda-feira, 5 de abril de 2010

ATACADO POR MORCEGOS, ABELHAS, MOSQUITOS E DUAS ÁRVORES

Jefferson Magno Costa

     (Carta escrita a pedido de um amigo meu, obreiro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, sobre um caso real acontecido com ele. Coloquei-me no lugar do meu amigo e escrevi a carta. A situação era muito séria, mas tratei-a literariamente, no intuito de descontrair o meu amigo e chamar a atenção do diretor. Segundo ambos, consegui).


     Prezado Senhor Diretor da Secretaria de Parques e Jardins:


     Sou um apreciador da natureza, antigo morador do bairro da Penha. Amo as árvores, protejo os animais, gosto de ouvir o canto dos pássaros ao acordar pela manhã, e quando me sobra tempo após meus inúmeros afazeres, gosto de contemplar um belo pôr do sol, e os meus olhos ainda conseguem ver o quanto uma noite de lua cheia é bela e inspirativa.
     Sou também a favor do movimento contra o aquecimento global, apoio o desenvolvimento sustentável, a preservação da biodiversidade, a onda verde, e apoiarei qualquer outro que me apresentarem, mesmo que seja para defender uma única ruga desse nosso velho e judiado planeta.
     Porém, Sr. Diretor, acontece que duas árvores existentes no meu quintal estão levando-me a mudar os meus conceitos ecológicos, e ameaçando sufocar todo o meu romantismo e zelo pela natureza. 
     Sem a mínima atitude de civilidade e respeito pelos direitos do próximo, elas invadiram o quintal do vizinho, racharam o cimento, e com braços e garras de tiranossauros, ameaçam eclodir furiosamente suas raízes em vários pontos do meu quintal.
     Atualmente, Sr. Diretor, em lugar do canto e do voo dos pássaros, o que nós ouvimos e vemos é o silvo amedrontador dos morcegos, e o riscar cinzento e ameaçador de suas asas sobre as nossas cabeças. Eles moram nas duas árvores desordeiras, e estão certamente mancomunados com elas para nos expulsarem da nossa casa.
     Já não posso ficar no quintal à noite com minha esposa e meus filhos, pois os dentuços e mal encarados animalzinhos não permitem e nos expulsam. Adeus, pôr do sol!; adeus, noites enluaradas!
     As árvores também têm outros inquilinos zumbidores e ameaçadores, as abelhas, e se juntaram com alguns amiguinhos de desordem (aliás, alguns não: uma nuvem deles!), os mosquitos, amigos de ataques e picadas terríveis, e à noite não nos deixam ficar na sala assistindo televisão ou conversando, e nos caçam em todos os cômodos da nossa casa.
     Portanto, Senhor Diretor, diante dessa situação extremamente desconfortável para todos nós, situação causada por duas árvores antes tão amigas, e agora descontroladamente hostis e perigosas, solicitamos a essa digníssima instituição a autorização para cortá-las.
     Se não fosse o caso de colocar em risco a integridade física dos meus vizinhos e da minha família, eu pediria ao senhor que implodisse essas duas torres gêmeas. Como vingança, deixaríamos desabrigados, sem aeroporto e sem hangar, uma “frota” de milhares de morcegos, abelhas e mosquitos sanguinários.
     Enquanto escrevo esta carta escondido no meu quarto, posso ver pela vidraça da janela que dá para o quintal, o brilho de olhos ameaçadores ocultos no escuro das folhas das duas árvores delinquentes, olhos que bem podem ser de morcegos, de abelhas ou de mosquitos.
     Também tenho a impressão de que alguns galhos das árvores estão estranhamente contorcidos, parecendo garras. Tenho medo de ir até a sala e encontrar morcegos sentados na minha poltrona, assistindo televisão, abelhas transformando a casa de bonecas de minha filha em colméia, e mosquitos preparando-se para dar voos agudos e rasantes sobre minha cabeça (como se não bastasse, sou careca), em treinamento de pontaria.
     Na confiança de sua compreensão, e aguardando o seu socorro urgente, subscrevo-me.
     Com muita gratidão e respeito, sou...
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