domingo, 2 de maio de 2010

OS PRIMEIROS GRANDES TEÓLOGOS DO CRISTIANISMO DÃO SEU TESTEMUNHO SOBRE SUA FÉ NA EXISTÊNCIA DE DEUS

Se quiséssemos enumerar todos os teólogos que dedicaram seu tempo e sua vida na busca de um conhecimento maior acerca de Deus, seria necessário escrevermos vários livros. Na verdade, cada teólogo tem sido um filósofo a serviço do pensa­mento cristão. Imaginemos uma reunião desses homens, onde cada um deles expusesse suas descobertas acerca de Deus. O que ouviríamos? Para reproduzirmos a voz de alguns desses mais antigos teólogos, cujas palavras acerca do Criador foram proferidas dezenas e centenas de anos após a morte do apóstolo Paulo, tomaremos como base alguns dos livros escritos por eles, especialmente a excelente História da Filosofia Cristã, escrita por Philotheus Boehner e Etienne Gilson, que reúne excelentes estudos sobre esses teólogos.


CLEMENTE DE ALEXANDRIA

O mais antigo desses teólogos é Clemente de Alexandria (150-217 d.C), nascido em Atenas, filho de pais gentios, e conver­tido ao cristianismo ainda jovem. Ele ensinava que "é impossível qualquer conhecimento sem a fé. Esta é o fundamento da verda­de". Clemente insistia muito com os cristãos de sua época para que eles se empenhassem, através da busca constante do conhecimen­to, em fortalecer cada vez mais a fé. "A medida em que vamos crescendo na graça, devemos empenhar-nos em obter um conhe­cimento sempre mais perfeito de Deus". Sua contribuição a esse conhecimento está resumida nestas palavras:

"Não sabemos o que Deus é; podemos saber, contudo, o que ele não é. É impossível conhecê-lo por meio de argu­mentos baseados em princípios inferiores a ele; pois Deus não tem causa, senão que, ao contrário, ele próprio é a razão e a causa de todas as outras coisas. Não foi sem razão que Paulo pregou, em Atenas, o 'Deus desconhecido', pois a sua essência permanece incognoscível (não pode ser conhecida) à razão natural". (Philoteus Boehner e Etienne Gilson: História da Filosofia Cristã. Tradução de Raimundo Viera. 3a. edição. Petrópolis, Vozes, 1985, p. 44)


ORÍGENES

Filho de Leônidas, que morreu como um dos mártires do Cristianismo, Orígenes nasceu no Egito no ano 185. Foi um dos maiores teólogos da Igreja Primitiva, tão apaixonado pelo estudo e divulgação da teologia, que chegou a castrar-se, num excesso de zelo pela utilização de todo o seu tempo nesses estudos.

Para Orígenes era impossível existir vários deuses, pois a harmonia do universo é a grande prova de que só um Arquiteto todo-poderoso poderia criá-la e mantê-la. "E impossível que a unidade e a ordem cósmicas se originem de uma multidão de espíritos, ou dos supostos deuses das esferas". Ele insistia também em mostrar que "Deus é inacessível a todo entendi­mento humano", havendo, porém, um meio de o homem natural obter provas de sua existência: através da observação do uni­verso e das criaturas. Eis como, resumidamente, Orígenes conceitua Deus:

"Deus é Espírito, mas está ainda mais além do espírito; é o Pai da Verdade, mas é mais que a verdade, e maior do que ela; é o Pai da sabedoria, mas é melhor que a sabedo­ria. Deus é Vida, mas é maior que a vida. Deus é ser, mas está além do ser."


GREGÓRIO NAZIANZENO

Nasceu no ano 330, próximo à cidade de Nazianzo. Assim como Orígenes, Gregório também afirmou que a Criação é a maior testemunha da existência de um Criador. Seu pensa­mento pode ser resumido nos seguintes termos:

"Um simples olhar para a Criação nos convencerá de que não é nela mesma, e sim em algo transcendente que devemos buscar-lhe a razão de ser. Quem é o autor desta ordem determinada e concreta que reina nos corpos celes­tes e terrestres, bem como em todos os seres que povoam os ares e as águas? O acaso? Não. E Deus!"


AGOSTINHO E SUA GRANDIOSA BUSCA DE DEUS

Enfoquemos agora o pensamento do maior teólogo da Igreja Primitiva. Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, país da África, em 354. Foi um dos maiores gênios da teologia e filosofia cristãs de todos os tempos. Sua herança literária compõe-se de 1.030 obras, entre tratados, sermões e cartas. O conceito fundamental da existência de Deus pareceu a Agosti­nho tão fácil e evidente, que o ateísmo deveria ser considerado loucura de poucas pessoas, devido mais à corrupção do coração do que a uma verdadeira convicção do espírito.

Logo após sua conversão ao cristianismo, Agostinho decla­rou que estava decidido a pesquisar com todo o empenho os mistérios de Deus: "Estou decidido a possuir a Verdade não só pela fé, senão também pela inteligência." Lendo e meditando profundamente as Escrituras Sagradas, Agostinho teceu ri­quíssimos comentários sobre as dificuldades que o espírito humano encontra em sua marcha até Deus.

Comentou o grande teólogo que em nosso estado presente, nossos olhos físicos não estão organizados para contemplar o sol visível, porém só para olhar o mundo sob a luz desse sol. Os olhos não suportarão olhar a fonte da luz e sim os objetos iluminados pelos raios dessa fonte. Este fato está cheio de uma profunda significação. Ocorre o mesmo com a nossa alma.

No estado natural do homem, nesse estado em que nascemos, nossa alma não é capaz de ver a Deus tal qual ele é pessoal­mente, mas é capaz de contemplar a luz que ele lança sobre a alma e sobre o Universo. Para ver a Deus é necessário, portan­to, uma mudança de natureza. Baseando seus argumentos no capítulo três do Evangelho de João, Agostinho mostra que esse nascer de novo — condição indispensável para se ver a Deus — o homem não pode dar-se a si mesmo; só Deus que o criou.

"Como conhecer a Deus?" — pergunta Agostinho. "Qual é o itinerário da razão desde a cegueira e a ignorância em que nascemos, até a visão de Deus? Embora caído, o ser humano não está definitivamente separado da fonte eterna. Deus abriu-lhe uma porta de regresso a ele mesmo: Jesus Cristo. Todos, consciente ou inconscientemente, buscam esse reencontro com Deus."

No seu livro Confissões, Agostinho relata sua própria expe­riência, quando ele ardentemente buscava ter um encontro com o seu Criador: "Será possível, Senhor meu Deus, que se oculte em mim alguma coisa que vos possa conter?", — perguntava ele, tateando nas trevas. Para Agostinho, o mundo visível era um degrau, um ponto de apoio que o ajudava a elevar-se mais:

"Subirei mais alto ainda que essa força existente em mim, e a tomarei como um degrau para subir Àquele que me criou. Vejamos até onde pode ir a razão elevando-se do visível ao invisível, do passageiro ao eterno. Não contemplarei em vão toda essa beleza do céu, o curso regular dos astros... Não os contemplarei para excitar uma inútil curiosidade, senão que me servirei deles como de degraus para elevar-me ao Imortal, ao Imutável."

Para Agostinho, as maravilhas na terra e nos céus realmen­te testemunhavam a glória e a existência de Deus, e eram como uma escada que o fazia subir ao reconhecimento da existência do Criador.

As palavras com que esse grande pesquisador dos mistérios de Deus registrou o esforço de sua busca são dignas de ser integralmente reproduzidas aqui:

"Quando eu busco a meu Deus, não busco forma de corpo, nem formosura transitória, nem brancura de luz, nem melodia de canto, nem perfume de flores, nem unguentos aromáticos, nem mel, nem maná deleitável ao paladar, nem outra coisa que possa ser tocada ou abraçada; nada disso busco, quando busco a meu Deus. Porém, acima de tudo isto, quando busco a meu Deus, busco uma luz sobre toda luz, que os olhos não veem, e uma voz sobre toda voz, que os ouvidos não ouvem, e um perfume sobre todo perfume, que o nariz não sente, e uma doçura sobre toda doçura, que o paladar não conhece, e um abraço sobre todos os abraços, que o tato não alcança, porque esta luz resplandece onde não há lugar, e esta voz soa onde o ar não a leva, e este perfume é sentido onde o vento não derrama, e este sabor deleita onde não há paladar, e este abraço é recebido onde nunca será desfeito."


ANSELMO: É IMPOSSIVEL PENSARMOS EM ALGUÉM MAIOR QUE DEUS

Anselmo de Cantuária (1033-1109) é, depois de Agostinho, o teólogo que mais conseguiu acrescentar algo de considerável ao conhecimento que os demais teólogos, através de suas me­ditações, tinham conseguido sobre Deus. Anselmo era italiano. Como teólogo e filósofo cristão, ele tornou-se famoso ao escrever dois livros: o Monológio e o Proslógio, onde tenta demonstrar a existência de Deus sem recorrer à autoridade das Sagradas Escrituras, com o intuito de provar que existem também evi­dências extra-bíblicas da existência do Criador.

E no Proslógio que Anselmo chega à seguinte conclusão:

"Tenho dentro de mim a idéia de um Ser tal que não se pode imaginar nada maior, isto é, um Ser infinito; logo, esse Ser existe, pois eu o vejo em certo sentido, desde o momento em que penso nele. O que está na realidade, além de estar no pensamento, é mais perfeito que o que só está no pensamento: portanto, Deus é real, porque se não existisse, não seria tal que não se pode pensar em outro maior."

Esta famosa prova da existência de Deus passou a ser conhecida como argumento ontológico.


TOMÁS DE AQUINO: A FÉ E A RAZÃO  — DOIS CAMINHOS PARA DEUS

Neste admirável concerto de vozes ilustres que nos ensinam que é possível obterem-se provas da existência de Deus através da razão, destaca-se Tomás de Aquino. O que disse sobre a existência de Deus esse teólogo italiano, nascido em 1225, é digno de ser conhecido por todos nós, apologistas do cristianis­mo.

Aquino afirmou que os meios de se conhecer a Deus são dados aos seres humanos em todos os lugares e sempre, em nós e fora de nós. Em nós, o próprio Deus nos ilumina através da fé; fora de nós, ele nos ilumina também, dando-nos um livro que é sua obra, o mundo. Por que os homens não lêem esse livro? Seus pecados os impedem; este é o obstáculo real, diz Aquino. O homem é um ser pensante; através de sua capacidade de raciocinar (que nos distingue dos animais irracionais), através da simples observação da natureza, ele se depara com provas da existência de Deus. Portanto, tanto a fé como a razão conduzem o homem ao reconhecimento da existência do Cria­dor. Porém, "os olhos da alma, enfermos pelo pecado, não podem fixar essa Luz sublime se não forem purificados pela justiça da fé".

Usando a luz como ilustração para exemplificar como a razão e a fé conduzem o ser humano ao conhecimento da existência de Deus, Aquino diz que durante nossa viagem terrestre, a luz do sol brilha sobre nós de duas maneiras: Algumas vezes, como uma débil claridade: é a luz da nossa inteligência natural; é uma partícula da luz eterna, porém distanciada, defeituosa, comparável a uma sombra com um pouco de luz. Outras vezes a luz brilha em um grau mais alto, com uma claridade mais abundante, e nos põe como que em presença do próprio sol. Nessa ocasião nosso olhar estará deslumbrado, porque contempla o que está acima de nós, acima dos sentidos humanos — essa é a luz da fé.

Comentando 1 Coríntios 13.12: "Porque agora vemos em espelho, obscuramente, então veremos face a face; agora conhe­ço em parte, então conhecerei como sou conhecido" (ARA), Aquino diz que para o homem natural, a criação inteira é um espelho. "A ordem, a beleza, a grandeza que Deus espalhou sobre suas obras nos fazem conhecer sua sabedoria, sua verda­de e sua divina infinitude. Esse é o conhecimento que se tem chamado visão em um espelho." O que é, portanto, a visão face a face? Aquino responde:

"Quando vemos em um espelho, não vemos a própria coisa, senão sua imagem. Mas quando vemos face a face, vemos a própria coisa tal como ela é. Quando o apóstolo diz que na Pátria veremos a Deus face a face, quer dizer que veremos a essência de Deus. Do mesmo modo como Deus conhece a minha essência, conhecerei também a Deus em sua essência."

Poderíamos citar aqui a frase de Platão a respeito da seme­lhança de conclusões a que chegaram os maiores filósofos sobre Deus: "Todos eles têm a mesma linguagem". O mesmo ocorre com os teólogos antigos e modernos: eles depositaram suas vidas e inteligências aos pés daquele a quem deviam tudo — Deus. Veremos, a seguir, que não só filósofos e teólogos fazem parte desse coral de vozes ilustres que proclamam a existência de Deus: os cientistas também deixaram os seus testemunhos.

Jefferson Magno Costa




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