terça-feira, 14 de julho de 2015

JONAS, O EVANGELISTA QUE TENTOU FUGIR DE DEUS


Jefferson Magno Costa
Leitura bíblica: Jn 3.1,3
     De acordo com o que Jesus ensinou na parábola do semeador, em Mateus capítulo 13, toda mensagem evangélica conta com quatro elementos: o pregador (o semeador), a mensagem (a semente), o ouvinte (os terrenos onde a semente é semeada) e Deus, que trabalha sobre o pregador, a mensagem e o ouvinte.
Vejamos como esses quatro elementos se revelam dentro do livro do profeta Jonas.
O livro de Jonas é composto de quatro capítulos. O 1º. narra o seu chamado e sua fuga. O 2º. narra sua oração no ventre do peixe e sua reconciliação com Deus. O 3º. narra sua segunda chance. O 4º. narra a reação de Jonas ao ver o efeito de sua pregação.
     Em primeiro lugar, vejamos quem era o pregador Jonas.  
I- O PREGADOR

CAPÍTULO 1: FUGA E ORAÇÃO NO VENTRE DO PEIXE
O nome Jonas significa “pomba”. Na Bíblia, essa ave simboliza:
1º. O Espírito Santo, aquele que opera o avivamento.
2º. A ave que conduziu o símbolo da esperança, representada pelo ramo de oliveira que a pomba que Noé soltou da arca trouxe para ele, após as águas do dilúvio abaixarem.
1- O missionário, o pregador, o evangelista Jonas foi convocado, como a pomba do Espírito Santo, a levar o avivamento a Nínive: “Levanta-te, vai e prega” (Jn 3.1). Todos nós temos compromisso com a grande comissão. E toda convocação para cumprirmos a grande comissão começa com essa cobrança de atitude: Levantar-se, ir e pregar.
2- Todos nós temos uma cidade de Nínive aonde Deus nos manda pregar, e para onde muitas vezes não queremos ir. Ir pregar em Nínive significa muitas vezes termos que da nossa zona de conforto para enfrentar situações difíceis e pessoas de coração ruim.
3- Nínive, para muitos de nós, fica logo ali ao lado. Muitas vezes é a casa de vizinhos macumbeiros, que já amanhecem o dia invocando demônios através de músicas de macumba, e quase toda a noite alguns deles ficam possessos e dando berros pelo quintal. A Nínive de outros crentes pode ser o seu local de trabalho, a casa de algum parente ou de algum amigo, o colégio, a faculdade, ou qualquer outro lugar que o crente sinta dificuldade de evangelizar. E nessas horas muitos de nós nos tornamos Jonas.  
4- O Jonas da Bíblia, ao ser convocado por Deus, em vez de agir como uma pomba, conforme o seu nome significava, e ir para Nínive levando nos lábios a mensagem de salvação e avivamento, preferiu comportar-se como um corvo, uma coruja: Fugiu e foi esconder-se no porão escuro e malcheiroso de um navio. E lá ele adormeceu. Não orou. Teve a última chance de falar com o Senhor, mas não o fez.
5- Quem não ora antes da tempestade, vai ter que orar dentro do ventre da tribulação que nos cerca e muitas vezes nos engole, vai ter que orar no abismo da angústia.
6- E quem foge da presença de Deus, paga um alto preço, e desce. Jonas pagou até passagem para fugir, e desceu seis degraus. Desceu para desceu de sua cidade para o porto de Jope, depois desceu para o navio, depois desceu para o porão do navio, depois desceu para o meio das ondas, depois desceu para o ventre do peixe, e finalmente desceu para o fundo do mar. 
7- Jonas desceu todos os degraus possíveis para ficar mais e mais longe de Deus. Ele queria ocultar-se da presença do Senhor. Queria esconder-se no porão da solidão, do isolamento, da fuga de Deus. Mas não esperava que fosse ficar tão escondido daquela maneira, no ventre de um peixe.
8- Quem foge para não fazer a vontade de Deus, termina caindo no poço da depressão. Talvez Jonas tenha pensado que fugindo da terra de Israel, onde a presença de Deus era tão viva e constante, pudesse escapar de seu controle. Esqueceu do que está escrito no salmo 139.7-10.
9- Jonas fugiu movido pelo preconceito. Preconceito racial (Jonas disse: são estrangeiros ninivitas, não são israelitas, merecem o meu desprezo), preconceito social (Jonas pensou: não passam de uma nação de bandidos e assassinos. Merecem é cadeia e pelotão de fuzilamento) e preconceito religioso (adoram a outros deuses, não conhecem ao Senhor. São idólatras, macumbeiros e satanistas. Merecem ser destruídos pelo fogo de Deus).
10- Jonas procurou fugir para a cidade mais distante de Nínive. “Onde não for Nínive, é para lá que eu vou; onde ninguém nunca ouviu falar de Nínive, é para lá que eu vou”. Tarsis ficava a oeste, a 4.800 quilômetros de distância de Nínive, a sudeste da Espanha. Deus mandou o missionário para leste, mas ele resolveu não ouvir a voz de Deus e foi para oeste. Resolveu ele mesmo traçar sua trajetória, assumir o controle de suas prioridades, decidir sobre a direção que tomaria a sua vida ministerial.
11- Quem foge da vontade de Deus, torna-se insensível. O missionário fujão deitou-se e adormeceu. Assim que o navio saiu do porto, Deus mandou uma tempestade. O navio estava quase se partindo, a vida de todos estava em perigo, e o profeta Jonas continuava dormindo o sono do egoísmo e da indiferença.
12- Quem foge da vontade de Deus, atrai problemas para si e para quem está ao seu redor. Os marinheiros, mesmo sendo experientes, sentiram muito medo, pois perceberam que aquela tempestade tinha algo de diferente de todas as outras que eles haviam enfrentado.
13- Quem foge da vontade de Deus, não consegue se esconder durante muito tempo. O mestre do navio o encontrou, e após chamá-lo de dormente, de dorminhoco, levou-o para o convés do navio.
14- A marujada já havia apelado cada um para o seu deus. Eles tinham mais temor aos ídolos deles do que Jonas tinha ao verdadeiro Deus. Tiraram a sorte para saber quem era que estava atraindo aquela tempestade. A sorte caiu sobre Jonas. O missionário fujão foi desmascarado. É no meio das lutas e da tempestade que o mundo fica sabendo quem nós somos: Se somos um crente fiel, ou se somos um crente infiel.
15- Jonas disse que era hebreu, e que temia ao Senhor (ao que os marinheiros devem ter dito: ”me engana que eu gosto”), e que era a causa daquela tempestade, pois fugira para não cumprir a missão que o seu Deus lhe dera. Para acalmar o mar, era só lançá-lo nas ondas.
15- Ao contrário de Jonas, que não se importara com a vida de mais de 120.000 ninivitas, os marinheiros se importaram com a vida do profeta, e não concordaram em lançá-lo no mar. Ainda remaram esforçadamente, tentando alcançar a terra. Viram que era inútil, e lançaram Jonas no meio das ondas. O mar se acalmou imediatamente. Os marinheiros pagãos continuaram demonstrando que eram mais tementes ao Deus de Jonas do que o próprio Jonas, porque pediram perdão a Deus antes de jogarem o profeta rebelde no mar, e em seguida ofereceram-lhe sacrifícios e fizeram votos (v. 16). 
CAPÍTULO 2: A ORAÇÃO E A RECONCILIAÇÃO COM DEUS
1- No capítulo 2, já no ventre do grande peixe, Jonas ora e restaura sua comunhão com Deus. Jonas sentiu que desceu ao coração dos mares, às profundezas do oceano, ao “ventre do inferno”, como ele mesmo se expressou, para só ali abrir o seu coração e falar com Deus.
2- No v. 5 ele falou em três coisas: em águas, que representam a morte (“as águas me cercaram até à alma”); em abismo, que representa o destino dos desobedientes (“o abismo me rodeou”), e em algas, que representam aqui a interferência do Espírito Santo em nosso socorro. Algas no estômago dos peixes irritam e provocam náuseas, levando o peixe a vomitar. Quem foge da vontade de Deus, vira vômito de baleia.
II- A PREGAÇÃO
CAPÍTULO 3: A SEGUNDA CHANCE DE JONAS
1- Jn 3.1-3: “E veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas, dizendo: Levanta-te, e vai à grande cidade de Nínive, e prega contra ela a pregação que eu te disse. E levantou-se Jonas e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor”
2- Nem todo pastor, nem todo profeta, nem todo missionário, nem evangelista recebe de Deus uma segunda chance, como Jonas recebeu.
3- Após ter passado pela escola do estômago da baleia, Jonas finalmente levantou-se e foi cumprir a grande comissão que Deus lhe dera.
4- Mas que semente Jonas usou? Era de se esperar que o profeta pregasse o mais substancioso e eloquente sermão que um profeta judeu já prega em toda a história de Israel. Mas qual foi mesmo o sermão que Jonas pregou?
5- “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida (ou destruída)”. O pregador foi curto e grosso. Sua pregação foi composta de 38 letras, que juntas formaram somente sete palavras. Humanamente falando, e de acordo com as leis da Retórica, da Eloquência e da Homilética, com esse sermão não dava para Jonas converter o beberrão mais bobo da birosca mais pobre de Nínive.

III- O OUVINTE

1- Mas quando Deus resolve salvar o pecador, ele transforma a mensagem mais simples em um poderoso instrumento de conversão. Essa curtíssima mensagem de Jonas teve um resultado que nem pregadores como Spurgeon, Jimmi Swagart ou Billy Graham conheceram no auge de seus ministérios. Levou o rei de Nínive a decretar um jejum que envolveu toda a população de mais de 120 mil habitantes, e até os animais. A cidade inteira se arrependeu dos seus pecados, e Deus a perdoou.

IV- A PEDAGOGIA DE DEUS

CAPÍTULO 4: A REAÇÃO DO PREGADOR AO VER O EFEITO DA SUA MENSAGEM
1- Durante todo o tempo em que pregou em Nínive, Jonas apostou que os ninivitas não se converteriam. Ele mesmo não acreditava em sua pregação. Jonas pregou forçado, empurrado. Mas quando ele viu que apesar de sua má vontade, toda a cidade havia se arrependido de seus pecados, jejuado e alcançado o perdão de Deus, ficou emburrado e voltou a ser o mesmo Jonas de antes da experiência no ventre da baleia.
2- Achou que o Senhor não tinha sido justo em aceitar o arrependimento daquele povo sanguinário, que já causara muito sofrimento a Israel. Jonas se achou mais justo que o próprio Deus da justiça. Ele era do tipo do crente que se acha mais cristão que o próprio Cristo.
       3- Jonas deve ter falado em off para si mesmo, depois que viu a cidade de Nínive arrependida e perdoada: “Eu sabia, eu sabia que essa tragédia ia acontecer! O arrependimento e o perdão desse povo terrível são as únicas coisas que eu nunca gostaria de ver na minha vida!” E depois disse diretamente para o Senhor: “O Senhor está vendo agora por que eu não queria pregar para esse povo? Reconhece agora que eu tinha razão quando tentei fugir para Tarsis? O culpado de tudo isso é o Senhor mesmo, por ser um “Deus piedoso e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que se arrepende do mal” (Jn 4.2).
4- E em seguida pediu para que Deus tirasse a sua vida, pois para ele era insuportável olhar para a cidade de Nínive e não ver labaredas de fogo subindo no horizonte e consumindo todos os prédios, as casas, os homens, as mulheres, as crianças e os animais.
5- A inveja que ele sentia ao ver os ninivitas sorridentes e perdoados colocava-o à beira de sofrer um ataque cardíaco. Então, acalentando no seu coração duro de profeta velho a última esperança de ver Deus arrepender-se de ter perdoado os ninivitas, e torcendo para que o Senhor fizesse cair fogo do céu sobre a cidade, como fizera com Sodoma e Gomorra, Jonas resolveu construir uma cabana, uma espécie de arquibancada, para dali poder assistir a destruição dos ninivitas. Era um espetáculo que ele não queria perder. Afinal, ainda não se haviam passado os quarenta fatídicos dias que ele estabelecera na sua minúscula pregação, e nesse ínterim Deus poderia muito bem mudar de ideia.
6- O calor naquela região era insuportável, e estava quase cozinhando os miolos do profeta, mas calor mesmo iam sentir os ninivitas quando as labaredas de fogo caíssem do céu e transformassem aquela cidade odiosa em um monte de escombros e cinzas. Assim pensava Jonas.
7- Enquanto o “bondoso e misericordioso” profeta enfrentava pacientemente, dia após dia e “por uma boa causa”, o sol escaldante da Mesopotâmia, o Senhor fez nascer uma aboboreira sobre sua cabana, cujas folhas subiram e se amontoaram no teto, trazendo frescor e alívio à sua cabeça, e certamente levando o profeta a pensar com mais lucidez.
8- Alegre por sentir a sombra da aboboreira sobre a sua nobre, justa e merecedora pessoa, o profeta certamente reconsiderou suas expectativas com relação à cidade, e achou que além de fazer cair fogo do céu sobre Nínive, o Senhor poderia muito bem abrir uma imensa fenda de um extremo a outro da cidade, fazendo com que o abismo a engolisse e a fizesse desaparecer para sempre da face da terra. Feliz com suas ideias humanitárias e benéficas à saúde pública, o profeta adormeceu.
9- Mas antes mesmo que o sol surgisse implacavelmente no horizonte, o Senhor enviou um bicho, uma lagarta, que atacou as folhas da aboboreira, levando a planta a murchar e secar. Jonas foi despertado dos seus doces e bondosos sonhos com os fortes e dardejantes raios do sol incidindo sobre sua cabeça, a ponto de desmaiá-lo.
10- Quando voltou a si, o profeta desejou outra vez a morte. Achou que o fato de aquela aboboreira haver murchado tinha representado um desconforto para a humanidade (representada ali unicamente por ele, é claro) só equivalente à perda do jardim do Éden, e um desastre ecológico de proporções tão graves quanto o dilúvio de Noé. E adivinhem sobre em quem ele lançou a culpa de tudo. Sobre o Deus que criara tanto a baleia que o engolira quanto o vermezinho que destruíra as folhas da aboboreira.
11- Na balança da justiça de Jonas, uma aboboreira que ele não plantara nem adubara, e que nascera em um dia e no dia seguinte murchara, tinha mais peso e importância do que mais de 120.000 ninivitas, que nunca haviam sido devidamente esclarecidos sobre o bem e o mal.

CONCLUSÃO:

Certamente, a mensagem que desde o início o Senhor queria que Jonas pregasse a Nínive é esta: “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? (ou Ó casa de Nínive?)” Ezequiel 33.11.

Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 13 de julho de 2015

NEGAR: TERRÍVEL PALAVRA É O “NÃO”

Jefferson Magno Costa


       Terrível palavra é um “não”. Em latim, ela expressa de maneira mais clara o quanto é terrível: Non. Não tem direito nem avesso. Por qualquer lado que a tomemos, sempre soa e diz o mesmo. Caso a leiamos do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre é non (não).     
     Quando a vara de Moisés se transformou naquela serpente tão feroz que ele fugiu dela para que ela não o mordesse (Ex 4.3), o Senhor disse a Moisés que a pegasse pela cauda; ele a pegou, e imediatamente a serpente perdeu a sua ferocidade, a sua peçonha, a sua figura de serpente, e voltou a ser vara (v. 4).     
     O non (não) não é assim. Porque por qualquer parte que você o considerar, sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que a natureza deixou para todos os males.
       Não há corretivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que coloquemos açúcar sobre ele para disfarçá-lo, um “não” sempre amarga; por mais que o enfeitemos, sempre é feio; por mais que o douremos, sempre é de ferro. Em nenhuma música o podemos colocar que ele não se mostre malsoante, áspero e duro.

     Uma antiga tradução hebraica de 1Rs 2.16, que registra um pedido que Bate-Seba viera fazer ao seu filho e rei Salomão em nome de Adonias, e é comumente traduzida como: “Assim que agora uma só petição te faço; não ma rejeites”, nessa antiga tradução aparece como: “não me envergonhes a face”.      E por que se chama “envergonhar a face” negar o que se pede? Porque dizer não a quem pede é dar-lhe uma bofetada com a língua. Tão dura, tão áspera, tão injuriosa palavra é um “não”. Para a necessidade, dura; para a honra, afrontosa; para o merecimento, insuportável.
O SENHOR PREFERIU PARAR DE NEGOCIAR COM ABRAÃO A TER DE DIZER-LHE UM “NÃO”
     E se um “não” é tão duro para quem o ouve, creio que não é menor a sua dureza para quem o diz. E será tanto mais duro quanto mais generoso for o coração, e mais soberano o ânimo de quem o houver de pronunciar.

     Dos três anjos que apareceram a Abraão no vale de Manre, os dois que representavam ministros partiram para executar o castigo nas cidades, a começar por Sodoma, e o terceiro ou primeiro que representava a Deus, ficou com Abraão.
       E pelo fato de estar só com Deus ser o melhor momento para negociar com Ele, o patriarca animou-se a pedir a revogação da sentença. Abraão disse assim (Gn 18.24-33):

     “Se porventura houver cinquenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinquenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles. E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza. Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco. E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta. E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte. Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez. E retirou-se o Senhor, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou-se ao seu lugar.”
     Notável despedida! O anjo não aguardou que Abraão insistisse mais ou rogasse por menos justos. A submissão e a santa reverência com que Abraão insistia e passava de um pedido a outro são admiráveis e digníssimas de que todos as leiam, e fizeram com que o anjo só para ouvi-las se detivesse na companhia de Abraão.
     Pois se tinha aguardado não só com paciência mas com particular agrado, desde a primeira instância até à sexta, por que não esperou a sétima, e se retirou tão súbita e inesperadamente? Para não ser forçado a dizer um “não”.

     Certamente a missão que o anjo trazia estava alicerçada em dois decretos: um condicional, outro absoluto. O condicional era que se nas cidades houvesse até dez justos, o castigo fosse suspenso. O absoluto era que se existissem menos de dez, o castigo fosse executado e as cidades destruídas pelo fogo.
     E como o anjo, que diante das seis petições de Abraão tão benevolamente tinha sempre dito sim, caso Abraão continuasse e insistisse com a sétima, seria forçado a dizer não, para não ter que pronunciar essa duríssima palavra, desapareceu.
       Naquelas cidades não havia mais que quatro pessoas que poderiam ser consideradas justas, compostas de Ló, a esposa e as duas filhas, sua família. Portanto, menos de dez pessoas.

     E para que o anjo não tivesse o dissabor de pronunciar essa palavra tão dura a Abraão, nem ele o desgosto de a ouvir, o representante do Senhor resolveu fugir e desaparecer. Tudo para não ter que pronunciar diante do amigo de Deus a palavra “não”.
Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 15 de junho de 2015

DESPREZO: ESAÚ DESPREZOU E TROCOU SUA PRIMOGENITURA (HERANÇA E CIDADANIA CELESTIAIS) POR UM PRATO DE LENTILHAS

Jefferson Magno Costa 
     O livro de Gênesis conta que Esaú veio do campo cansado e com muita fome. Chegou em desastrada hora, porque naquele momento seu irmão Jacó cozinhava umas lentilhas. Certamente estavam bem temperadas e exalando um aroma tentador (Gn 25.29).

     Esaú pediu a Jacó um pouco daquele legume. Porém Jacó, aproveitando-se da fraqueza e da fome do irmão, respondeu que dar não, mas vender sim. Se Esaú concordasse em vender-lhe sua primogenitura por um prato daquelas lentilhas, o negócio seria fechado imediatamente.
      Eram gêmeos, mas Esaú nascera primeiro. Era o filho primogênito, portanto. Tinha todos os direitos da primogenitura listados no Antigo Testamento, como dupla herança (Dt 21.17) e liderança sobre os irmãos e à frente da família (Gn 27.29,40; 49.8). Era também considerado propriedade do Senhor (Ex 13.2). 
     Porém, Esaú era um homem instintivo, acostumado a agir sem refletir. Certamente jamais parara para avaliar o que significava ser o primogênito de seu pai Isaque, que por sua vez era o legítimo herdeiro da promessa que Deus fizera a Abraão, promessa que um dia seria passada a ele, Esaú. Caso permanecesse fiel à promessa, um dia entraria genealogicamente na linhagem direta do Messias, Jesus Cristo!  
     Porém sua mente carnal e um tanto bestializada (e quantos evangélicos vivem hoje dentro das igrejas com uma mente assim!), aberta e atraída para a vida e a expressão dos seus baixos instintos, livre como a dos animais no cio que vivem soltos no campo, não tinha nenhuma reverência ou senso de valor da promessa que Deus fizera ao velho patriarca de Ur. 
    Esaú disse a Jacó: “Eis que estou a ponto de morrer, e para que me servirá logo a primogenitura?” (Gn 25.32). Era um homem imediatista. Disposto a trocar um bem de valor eterno, incalculável, por um reles prato de legumes. (E mesmo que tivesse sido por um churrasco completo, ou por um carneiro assado, a imensa desigualdade dos valores da negociação teria permanecido a mesma).
     Péssimo e desastroso negociador esse Esaú! Que Deus nos livre de o diabo ajuntar contra nós a fome e a tentação. A fome com a vontade de comer. E se o próprio diabo estiver fazendo um bico como garçom...
           
     Será que Esaú era cego? Ou era louco? Não. Não era nada disso. 
    Foi simplesmente um homem que vendeu e não pesou o que vendia: “E Jacó deu pão a Esaú e o guisado das lentilhas; e este comeu, e bebeu, e levantou-se, e foi-se: Assim desprezou Esaú a sua primogenitura” (Gn 25.34).
     O fato é que Esaú aceitou a proposta de seu irmão "expertíssimo" e vendeu sua primogenitura por um pedaço de pão e umas míseras lentilhas. Mandou às favas (aliás, trocou por favas) a herança material e espiritual de Isaque, a herança material e espiritual de Abraão, a bênção dos patriarcas, o maior patrimônio que existia sobre a terra, desde o tempo em que Adão também desastrosamente (e por tudo o que o fruto proibido representava por trás de sua aparente simplicidade de comida) perdera o Éden. 
     O homem que vende sem avaliar o que está vendendo, não é de admirar que venda por um prato de lentilhas a maior herança que há no mundo. Troca sua salvação pelo azedo e malcheiroso prato de lentilhas da pornografia na Internet, por exemplo. Ou pelo prato de lentilhas do adultério. Ou pelo prato de lentilhas da mentira. Ou pelo prato de lentilhas do roubo. Ou por qualquer outro reles e miserável prato de lentilhas.
       Se antes de vender o maior bem que ele possuía (e que nós possuímos, a salvação eterna, que custou o sangue de Jesus) , Esaú tivesse ido buscar uma balança e colocado de um lado a sua primogenitura (o direito de receber herança material aqui na terra - a bênção patriarcal recebida de Abraão -, e a promessa de receber a vida eterna no céu - a bênção sacerdotal recebida de Jesus), e do outro lado da balança o prato de lentilhas, será que ele teria vendido assim mesmo sua herança tão miseravelmente como vendeu?
      Eis a razão porque há hoje tantas almas no inferno. Esta história envolvendo Esaú e Jacó aconteceu na antiguidade, e uma só vez, mas hoje é repetida milhares e milhares de vezes no mundo. O papel de Jacó é representado pelo demônio; o de Esaú, por muitos de nós. 
      O demônio oferece um prazer fugaz, um instante de aparente felicidade, e pede em troca a herança que Cristo conquistou para nós no Calvário.  
     E muitos, por negociarem sem a balança na mão (a balança é a cruz), não pesam a miséria, a insignificância do que o diabo está oferecendo, e fechando os olhos como seres entorpecidos pelos apelos da carne, aceitam a proposta do diabo, e consequentemente, ficam sem a bênção da comunhão com Cristo aqui na terra, e passam a correr o risco de perder a herança da vida eterna no céu.
     Quando Esaú vendeu sua primogenitura, não percebeu a enorme besteira que fizera, nem demonstrou a mínima preocupação por isto. Porém, quando percebeu que realmente ficara sem a primogenitura e a bênção, pois Jacó lhe roubara as duas, desabou em prantos (Gn 27.34-38).
     Pobres Esaús deste mundo! Vendem a alma, a paz com Jesus, a vida eterna no céu pela momentânea satisfação de um apetite carnal, pela ilusão de uma glória efêmera e enganosa, por dinheiro, sexo e poder, e nem percebem a espantosamente desastrosa negociação que fizeram.
       Só perceberão como negociaram pessimamente (mas infelizmente, já muito tarde) quando chegar aquele Grande Dia em que Jesus separará os justos dos ímpios, e dará a bênção e a herança eterna aos que forem colocados à sua mão direita, e a condenação eterna a esses Esaús que ficarão à mão esquerda do Senhor Jesus.

     Só então os Esaús entenderão que perderam a bênção e a herança eterna no céu prometidas a Abraão, a Isaque e a Jacó, e estendidas a "todas as famílias da terra" abençoadas pelo descendente humano de Abraão, o nosso Salvador Jesus Cristo.
      Esses Esaús perderam sua primogenitura por a terem trocado com Satanás por coisas tão ou mais vis do que um prato de lentilhas.      
   Jefferson Magno Costa

5 comentários:

  1. Inajá Martins de AlmeidaFeb 15, 2011 02:37 AM
    Pastor Jefferson
    A graça e paz no Senhor por este ministério que cresce a cada dia mais na graça. Gosto de ler os textos bíblicos e imaginar seus personagens: a mensagem que Deus quer que deles tiremos. Eis que me chama atenção Esaú e Jacó que, embora gêmeos no físico, diferentes na conduta, no moral, na ética, o qual me fazem tecer algumas linhas
    http://momentodeler.blogspot.com/2010/06/sempre-me-percebo-tempo-demorado-buscar.html. É triste saber quantos Esaús que se deixam levar por tão pouco. Mas também é reconfortante perceber o quanto é gratificante o caminhar com Cristo. Belas palavras. Belíssimo texto. Obrigada.
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  2. Jefferson Magno CostaFeb 15, 2011 03:33 AM
    Muito obrigado pelo reconhecimento, irmã Inajá. Esaú, em hebraico, significa o mesmo que Edom, o "vermelho". Sua história é um tremendo sinal vermelho nos lembrando todos os dias que jamais devemos trocar as jóias de altíssimo valor que Jesus conquistou para nós pela bijouteria barata de Satanás.
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  3. jose carlos rangelDec 18, 2011 03:00 PM
    È meu caro pastor , quantos lideres estão trocando a salvação , a vida eterna e a comunhão com o senhor ao deixarem de fazer a obra por amor , o que mais tenho visto é homens que estavam com a salvação nas mãos e derrepente abrem uma igreja de olho nos dizimos e ofertas !!!!
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  4. David LidugerioJan 7, 2012 06:27 PM
    A Paz de Jesus Cristo Pastor

    Aprendi muito com o texto.

    Que possamos matar a nossa fome não com as lentilhas de satanás mais com a palavra de Deus, que é viva e eficaz.....

    David Lidugerio
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  5. Jefferson Magno CostaJan 8, 2012 05:18 AM
    Sim, meu querido irmão David Lidugerio. A Palavra de Deus é maná do Céu, é o único alimento que pode matar a nossa fome,ao passo que as lentilhas que satanás oferece são equivalentes à comida dos porcos com a qual o filho pródigo desejava se alimentar.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ESCREVA UM SONETO À PESSOA QUE VOCÊ AMA

Jefferson Magno Costa    
     Desde o seu aparecimento na Itália ou na França, no século 13, não se sabe até hoje qual deles (Petrarca, Gerard de Bonneuil, Giacomo de Lentini) teria inventado esta desafiadora forma de expressão poética chamada soneto, que vem sendo cultivada por grandes e pequenos poetas, e tem-se conservado no gosto e na preferência do público leitor, ao longo de quase 900 anos.

     “Um soneto sem defeito vale por um longo poema”, disse o poeta francês Boileau, há quase 300 anos. E não é fácil compor um que seja considerado bom. Um excelente, então, é dificílimo.
     O que ocorre com a maioria dos pretendentes a bons sonetistas é terem assunto demais para tão poucos versos, ou versos demais para pouco assunto.
     O poeta Belmiro Braga, diante dessa dificuldade, perguntou em um soneto de que forma o grande sonetista Emílio de Meneses escrevia os seus:

Como os fazes, Emílio? Eu te prometo
um mimo como paga ao que pergunto,
pois, quando, às vezes, no arranhol me meto,

(tens sob os olhos as razões que ajunto),
ora o assunto transborda do soneto,
ora sobra soneto e falta assunto...


     Menotti del Picchia faz parte do pequeno grupo de poetas que homenagearam essa forma poética de maneira magistral:

Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta, dentro de ti, a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.


Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti, que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça,
de um povo que viveu fazendo versos.


Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu


a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...


     Reconhecendo o desafio de se escrever um bom soneto, Júlio Dantas compôs magnificamente este:

Ó florentino túmulo de prata!
Ó sepultura de quatorze versos!
Demais viveu em ti aprisionada
A asa vibrátil do meu pensamento.


Demais sofri a dura disciplina
Do teu chicote de quatorze pontas,
Soneto arcaico, inquisidor vermelho,
Que Petrarca há seis séculos gerou.


Ó taça antiga de quatorze gomos!
– Taça de ouro de Guido Cavalcante,
Bebi em ti, mas atirei-te no mar.


Não se ouvem mais os címbalos da rima.
Asa liberta, voa em liberdade!
Jaula de bronze, estás aberta enfim!


      Coube ao genial e ultra-prolífico dramaturgo e poeta espanhol Lope de Vega (deixou centenas de poesias, e mais de 2800 peças escritas; foi comparado a Shakespeare; Cervantes o chamava de "o monstro da natureza") a autoria do mais genial soneto sobre a dificuldade de se escrever um. Violante, a namorada do poeta, pedira-lhe que Lope lhe escrevesse um soneto de amor.
     Eis como o genial poeta, escondendo-se atrás de uma finíssima ironia e fingindo-se incapaz de escrever o soneto, conseguiu a fenomenal proeza de atender ao pedido da namorada, sem, no entanto, fazer-lhe nenhuma declaração de amor:


Um soneto pediu-me Violante.
(É só nessas encrencas que eu me meto).
Quatorze versos dizem que é soneto:
burlo um pouquinho, e vão-se os quatro. Adiante!

E eu pensei que jamais iria avante,
mas já estou terminando este quarteto.
Ah! Se eu pego o princípio de um terceto,
não haverá mais nada que me espante.



No primeiro terceto vou entrando,
e suponho que entrei com o pé direito,
pois neste verso o fim já estou lhe dando.



E cheguei no segundo. Bem... suspeito
que estou os trezes versos terminando.
Contai se são quatorze, e... ei-lo feito!

Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SEGREDOS DOS GRANDES ESCRITORES



Jefferson Magno Costa
1º SEGREDO: Antes de verem o primeiro de seus livros publicado, os escritores que obtiveram mais sucesso, exerceram maior influência e marcaram para sempre a história da literatura, tornaram-se grandes conhecedores da língua que usaram.
       Ninguém hoje espere ingenuamente tornar-se grande escritor sem antes se esforçar para conhecer as regras e as riquezas expressionais de sua língua. Quanto a esta necessidade básica, o gramático Napoleão Mendes de Almeida fez uma oportuna advertência no prefácio de sua Gramática Metódica:
     “Conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão de todo brasileiro que preza sua nacionalidade. É erro de consequências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.”
     Todavia, não é minha intenção deixar subentendido aqui que só escrevem bem aqueles que possuem conhecimentos gramaticais tão sólidos como os de um Napoleão Mendes de Almeida, os de um Celso Cunha ou os de um professor Pasquale Cipro Neto, e outros. Não cheguemos a tanto; a não ser que tenhamos inegável vocação para o estudo específico da língua, conforme tiveram os pastores Eduardo Carlos Pereira e Vittorio Bergo, autores de gramáticas e de outros trabalhos de natureza filológica nacionalmente reconhecidos.
     "Dicionarista e gramático não são sinônimos de bom escritor. Tem-se observado, por exemplo, que os grandes dicionaristas, os grandes gramáticos, embora conhecendo todos os recursos da palavra, todos os processos que levam uma pessoa a escrever bem, raramente são grandes escritores”, foi o que nos lembrou o filólogo português Cândido de Figueiredo.
     É um fato que todas as histórias das literaturas confirma. Escrever bem requer algo mais do que sólidos conhecimentos linguísticos. Requer sensibilidade, imaginação e um toque pessoal de arte (também conhecido como originalidade). Em uma palavra: talento.
     Portanto, ninguém adquire capacidade e sensibilidade literárias lendo tão-somente gramáticas. O estudo da gramática não é a melhor forma de alguém aprender a amar ou dominar o seu idioma. O estudo da gramática não faz escritor, faz filólogo. Só os grandes escritores são capazes de nos ensinar a escrever bem.
     O melhor, o mais agradável e fecundo caminho para alguém familiarizar-se e passar a amar o seu idioma é lendo os melhores livros dos melhores escritores da literatura que esse idioma produziu. Mas fazer essa leitura não significa que devemos dar um mergulho em milhares de obras; o essencial é que leiamos as melhores.
     Para quem já é ou deseja tornar-se escritor, o amor ao idioma materno é fundamental. O poeta português Antonio Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pela língua portuguesa, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do seu idioma ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:  
 Floresça, fale, cante, ouça-se e viva a portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva;

Se até aqui esteve baixa e sem louvor

Culpa é dos que a exercitam,

Esquecimento nosso e desamor.

       Nós, brasileiros, que produzimos um soneto de exaltação à língua portuguesa, como este belíssimo e perfeito, escrito pelo poeta carioca Olavo Bilac: Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura; Ouro nativo que na ganga impura  a bruta mina entre os cascalhos vela.
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura.


Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo:

Amo-te, ó rude e doloroso idioma!


Em que da voz materna ouvi: “Meu filho”,

Em que Camões chorou no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho.


     Nós, que produzimos, pelas mãos do poeta pernambucano Manuel Bandeira, a mais bela homenagem poética já escrita em língua portuguesa ao maior poeta épico da língua, Luiz Vaz de Camões:


Quando na alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não

                                              [passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.



Gênio purificado na desgraça,

Tu resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado. Em ti brilhou sem jaça

Amor da grande pátria portuguesa.


E enquanto ecoar o fero canto na mente

Da estirpe que em perigos sublimados,

Plantou a cruz em cada continente,


Não morrerá sem poetas nem soldados

A língua em que cantaste rudemente

As armas e o barões assinalados.


    Nós, repito, que temos um lastro, uma herança tão rica e tão bela composta de obras literárias que vêm sendo escritas por exímios artistas da palavra, estamos hoje, em muitos aspectos, em uma situação de vergonhoso desconhecimento das riquezas do nosso idioma.
     O jornalista maranhense Lago Burnett, que durante muitos anos chefiou a redação de O Jornal do Brasil, descreveu com muita propriedade no seu livro A Língua Envergonhada, a atitude de muitos brasileiros para com essa que é considerada a segunda língua mais rica em sonoridades, a segunda dotada de maior musicalidade, entre todas as que se derivaram do Latim. (Só para os curiosos: a primeira é o italiano). Eis o texto, veemente e irônico, do jornalista:
     "O brasileiro não suporta a sua língua. Se lhe fosse permitido escolher, preferiria qualquer outro idioma, até mesmo o sânscrito, o latim, o hebraico, o iídiche, o patoá, o banto. Conquanto não fosse o português, pouco importaria que se tratasse de língua morta, extinta ou dialeto. Por força do colonialismo cultural, acentuado pela linguagem mercadológica dos veículos de comunicação, de muito bom-grado a opção brasileira recairia sobre o inglês – não o de Oxford, mas o da Praça Mauá.
     "Coramos de pudor, criando situações embaraçosas para nós próprios, toda vez que não conseguimos atinar, de público, com o significado de uma expressão anglo-saxônica, e nos mortificamos de despeito por não conseguir escrever com sotaque nova-iorquino uma ode olímpica à alienação de Ipanema. Não por veneração reverenciamos o idioma de Shakespeare, mas por mera subserviência ao sentimento mercantil do multinacionalismo linguístico." (A Língua Envergonhada. 3a Ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 15).
     E essa situação de vergonha e descaso pela língua portuguesa demonstrados por muitos dos que a usam não é tão recente, conforme alguns poderiam imaginar. De tanto a ultrajarem, a aviltarem, a envilecerem pelo uso desleixado e vergonhoso, os intelectuais de Portugal reagiram e passaram a patrulhar e censurar os maus usuários dessa língua outrora enobrecida por Antônio Vieira, Eça de Queiroz  e Machado de Assis. E foram tão severas as recriminações dos intelectuais portugueses, que o romancista carioca Lima Barreto, em um de seus quatro grandes romances, o Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, levou seu personagem principal a redigir o seguinte e irônico requerimento:
     "Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o Tupi-Guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência a sua emancipação idiomática.


Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida, e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade, pede e aguarda deferimento. "
2º SEGREDO: Os grandes escritores jamais se contentam com a primeira redação dos textos que escrevem. Eles os reescrevem e reescrevem.


     Quando o jornalista Giovanni Ricciardi foi ao apartamento do escritor Miguel Jorge a fim de entrevistá-lo para o livro Auto-retratos (que reúne 23 entrevistas com escritores brasileiros contemporâneos, e foi publicado pela Editora Martins Fontes em 1991), viu este lembrete na parede da sala de trabalho de Miguel Jorge:

Refazer, refazer sempre.

Refazer, custe o que custar.

Refazer cada página, parágrafo, frase, palavra...


     Apesar de o lembrete parecer um tanto ingênuo, não podemos ignorar que este é um dos segredos praticados por todos os grandes escritores. Eles escreveram muito para eles mesmos, antes de escrever para os outros.
     Todos os livros sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
     O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco, ou até seis vezes uma página ou um parágrafo de suas obras. Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas. Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven ou um quadro de Michelangelo.
     Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 90% de transpiração e 10% de inspiração. O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do Céu.
      Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável. É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco ou de um teclado de computador, que o nasce livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante.
     Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram dentre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável domador de palavras. Em um de seus poemas, O Lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto lutamos

Mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

Como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

O poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

Apareço e tento

Apanhar algumas

Para meu sustento

Num dia de vida.

............................


Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhe-ei escravo

De rara humildade.

Guardarei sigilo

De nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

De zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

Perpassam levíssimas

E viram-me o rosto.

Lutar com palavras

Parece sem fruto.

Não têm carne e sangue.

Entretanto, luto.


     O escritor português Antônio Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.” A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
     No seu famoso Discurso sobre o Estilo, o Conde de Buffon, escritor francês, afirmou que “somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”
     O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a arte, a originalidade com que suas páginas foram escritas. Vejam o exemplo do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Na verdade, esse romance foi o resultado de uma série de reportagens que o autor fez para o jornal O Estado de São Paulo sobre a Guerra de Canudos.
     Dezenas de outras reportagens também foram feitas naquela época por outros jornalistas sobre o mesmo assunto. Todas estão hoje esquecidas. Só a de Euclides da Cunha permanece atraindo e encantando leitores há quase 100 anos. Por quê? Por causa da perfeição do seu texto, da beleza do estilo com que foi escrita.

Escutem só o estouro da boiada que ele descreveu. Ouçam o barulho dos cascos dos bois tirando fagulhas das pedras no chão:
     "De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, traçam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, a inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação nos solo; e a boiada estoura...A boiada arranca. Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos vaqueiros. Origina-o o incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta, e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-se embolados em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos. E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos taboleiros ruídos soturno e longo de trovão longínquo... Milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-o impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalanche viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas – enristado – o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso à crinas do cavalo – o vaqueiro!"

     O grandioso livro Casa Grande e Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, é outro exemplo de obra que continua atraindo milhares de leitores devido ao belo estilo com que foi escrita. Muitos dos dados sociológicos apresentados nessa obra publicada em 1933 estão hoje superados. Mas nenhuma de suas páginas deixará de encantar os leitores de hoje e de amanhã.
     Portanto, um livro, antes de ser publicado, tem de ser revisado, polido, aperfeiçoado, com paciência e cuidado, durante meses, ou até durante anos. É o que têm feito os grandes escritores. E é um dos segredos já desvendados, tenho certeza, por todos os que desejam criar textos belos, comunicativos e perduráveis. Esses dois segredos citados aqui contribuirão para que os que almejam ardentemente conseguir esse grau de perfeição, o consigam.

 Jefferson Magno Costa

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