segunda-feira, 15 de junho de 2015

DESPREZO: ESAÚ DESPREZOU E TROCOU SUA PRIMOGENITURA (HERANÇA E CIDADANIA CELESTIAIS) POR UM PRATO DE LENTILHAS

Jefferson Magno Costa 
     O livro de Gênesis conta que Esaú veio do campo cansado e com muita fome. Chegou em desastrada hora, porque naquele momento seu irmão Jacó cozinhava umas lentilhas. Certamente estavam bem temperadas e exalando um aroma tentador (Gn 25.29).

     Esaú pediu a Jacó um pouco daquele legume. Porém Jacó, aproveitando-se da fraqueza e da fome do irmão, respondeu que dar não, mas vender sim. Se Esaú concordasse em vender-lhe sua primogenitura por um prato daquelas lentilhas, o negócio seria fechado imediatamente.
      Eram gêmeos, mas Esaú nascera primeiro. Era o filho primogênito, portanto. Tinha todos os direitos da primogenitura listados no Antigo Testamento, como dupla herança (Dt 21.17) e liderança sobre os irmãos e à frente da família (Gn 27.29,40; 49.8). Era também considerado propriedade do Senhor (Ex 13.2). 
     Porém, Esaú era um homem instintivo, acostumado a agir sem refletir. Certamente jamais parara para avaliar o que significava ser o primogênito de seu pai Isaque, que por sua vez era o legítimo herdeiro da promessa que Deus fizera a Abraão, promessa que um dia seria passada a ele, Esaú. Caso permanecesse fiel à promessa, um dia entraria genealogicamente na linhagem direta do Messias, Jesus Cristo!  
     Porém sua mente carnal e um tanto bestializada (e quantos evangélicos vivem hoje dentro das igrejas com uma mente assim!), aberta e atraída para a vida e a expressão dos seus baixos instintos, livre como a dos animais no cio que vivem soltos no campo, não tinha nenhuma reverência ou senso de valor da promessa que Deus fizera ao velho patriarca de Ur. 
    Esaú disse a Jacó: “Eis que estou a ponto de morrer, e para que me servirá logo a primogenitura?” (Gn 25.32). Era um homem imediatista. Disposto a trocar um bem de valor eterno, incalculável, por um reles prato de legumes. (E mesmo que tivesse sido por um churrasco completo, ou por um carneiro assado, a imensa desigualdade dos valores da negociação teria permanecido a mesma).
     Péssimo e desastroso negociador esse Esaú! Que Deus nos livre de o diabo ajuntar contra nós a fome e a tentação. A fome com a vontade de comer. E se o próprio diabo estiver fazendo um bico como garçom...
           
     Será que Esaú era cego? Ou era louco? Não. Não era nada disso. 
    Foi simplesmente um homem que vendeu e não pesou o que vendia: “E Jacó deu pão a Esaú e o guisado das lentilhas; e este comeu, e bebeu, e levantou-se, e foi-se: Assim desprezou Esaú a sua primogenitura” (Gn 25.34).
     O fato é que Esaú aceitou a proposta de seu irmão "expertíssimo" e vendeu sua primogenitura por um pedaço de pão e umas míseras lentilhas. Mandou às favas (aliás, trocou por favas) a herança material e espiritual de Isaque, a herança material e espiritual de Abraão, a bênção dos patriarcas, o maior patrimônio que existia sobre a terra, desde o tempo em que Adão também desastrosamente (e por tudo o que o fruto proibido representava por trás de sua aparente simplicidade de comida) perdera o Éden. 
     O homem que vende sem avaliar o que está vendendo, não é de admirar que venda por um prato de lentilhas a maior herança que há no mundo. Troca sua salvação pelo azedo e malcheiroso prato de lentilhas da pornografia na Internet, por exemplo. Ou pelo prato de lentilhas do adultério. Ou pelo prato de lentilhas da mentira. Ou pelo prato de lentilhas do roubo. Ou por qualquer outro reles e miserável prato de lentilhas.
       Se antes de vender o maior bem que ele possuía (e que nós possuímos, a salvação eterna, que custou o sangue de Jesus) , Esaú tivesse ido buscar uma balança e colocado de um lado a sua primogenitura (o direito de receber herança material aqui na terra - a bênção patriarcal recebida de Abraão -, e a promessa de receber a vida eterna no céu - a bênção sacerdotal recebida de Jesus), e do outro lado da balança o prato de lentilhas, será que ele teria vendido assim mesmo sua herança tão miseravelmente como vendeu?
      Eis a razão porque há hoje tantas almas no inferno. Esta história envolvendo Esaú e Jacó aconteceu na antiguidade, e uma só vez, mas hoje é repetida milhares e milhares de vezes no mundo. O papel de Jacó é representado pelo demônio; o de Esaú, por muitos de nós. 
      O demônio oferece um prazer fugaz, um instante de aparente felicidade, e pede em troca a herança que Cristo conquistou para nós no Calvário.  
     E muitos, por negociarem sem a balança na mão (a balança é a cruz), não pesam a miséria, a insignificância do que o diabo está oferecendo, e fechando os olhos como seres entorpecidos pelos apelos da carne, aceitam a proposta do diabo, e consequentemente, ficam sem a bênção da comunhão com Cristo aqui na terra, e passam a correr o risco de perder a herança da vida eterna no céu.
     Quando Esaú vendeu sua primogenitura, não percebeu a enorme besteira que fizera, nem demonstrou a mínima preocupação por isto. Porém, quando percebeu que realmente ficara sem a primogenitura e a bênção, pois Jacó lhe roubara as duas, desabou em prantos (Gn 27.34-38).
     Pobres Esaús deste mundo! Vendem a alma, a paz com Jesus, a vida eterna no céu pela momentânea satisfação de um apetite carnal, pela ilusão de uma glória efêmera e enganosa, por dinheiro, sexo e poder, e nem percebem a espantosamente desastrosa negociação que fizeram.
       Só perceberão como negociaram pessimamente (mas infelizmente, já muito tarde) quando chegar aquele Grande Dia em que Jesus separará os justos dos ímpios, e dará a bênção e a herança eterna aos que forem colocados à sua mão direita, e a condenação eterna a esses Esaús que ficarão à mão esquerda do Senhor Jesus.

     Só então os Esaús entenderão que perderam a bênção e a herança eterna no céu prometidas a Abraão, a Isaque e a Jacó, e estendidas a "todas as famílias da terra" abençoadas pelo descendente humano de Abraão, o nosso Salvador Jesus Cristo.
      Esses Esaús perderam sua primogenitura por a terem trocado com Satanás por coisas tão ou mais vis do que um prato de lentilhas.      
   Jefferson Magno Costa

5 comentários:

  1. Inajá Martins de AlmeidaFeb 15, 2011 02:37 AM
    Pastor Jefferson
    A graça e paz no Senhor por este ministério que cresce a cada dia mais na graça. Gosto de ler os textos bíblicos e imaginar seus personagens: a mensagem que Deus quer que deles tiremos. Eis que me chama atenção Esaú e Jacó que, embora gêmeos no físico, diferentes na conduta, no moral, na ética, o qual me fazem tecer algumas linhas
    http://momentodeler.blogspot.com/2010/06/sempre-me-percebo-tempo-demorado-buscar.html. É triste saber quantos Esaús que se deixam levar por tão pouco. Mas também é reconfortante perceber o quanto é gratificante o caminhar com Cristo. Belas palavras. Belíssimo texto. Obrigada.
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  2. Jefferson Magno CostaFeb 15, 2011 03:33 AM
    Muito obrigado pelo reconhecimento, irmã Inajá. Esaú, em hebraico, significa o mesmo que Edom, o "vermelho". Sua história é um tremendo sinal vermelho nos lembrando todos os dias que jamais devemos trocar as jóias de altíssimo valor que Jesus conquistou para nós pela bijouteria barata de Satanás.
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  3. jose carlos rangelDec 18, 2011 03:00 PM
    È meu caro pastor , quantos lideres estão trocando a salvação , a vida eterna e a comunhão com o senhor ao deixarem de fazer a obra por amor , o que mais tenho visto é homens que estavam com a salvação nas mãos e derrepente abrem uma igreja de olho nos dizimos e ofertas !!!!
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  4. David LidugerioJan 7, 2012 06:27 PM
    A Paz de Jesus Cristo Pastor

    Aprendi muito com o texto.

    Que possamos matar a nossa fome não com as lentilhas de satanás mais com a palavra de Deus, que é viva e eficaz.....

    David Lidugerio
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  5. Jefferson Magno CostaJan 8, 2012 05:18 AM
    Sim, meu querido irmão David Lidugerio. A Palavra de Deus é maná do Céu, é o único alimento que pode matar a nossa fome,ao passo que as lentilhas que satanás oferece são equivalentes à comida dos porcos com a qual o filho pródigo desejava se alimentar.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ESCREVA UM SONETO À PESSOA QUE VOCÊ AMA

Jefferson Magno Costa    
     Desde o seu aparecimento na Itália ou na França, no século 13, não se sabe até hoje qual deles (Petrarca, Gerard de Bonneuil, Giacomo de Lentini) teria inventado esta desafiadora forma de expressão poética chamada soneto, que vem sendo cultivada por grandes e pequenos poetas, e tem-se conservado no gosto e na preferência do público leitor, ao longo de quase 900 anos.

     “Um soneto sem defeito vale por um longo poema”, disse o poeta francês Boileau, há quase 300 anos. E não é fácil compor um que seja considerado bom. Um excelente, então, é dificílimo.
     O que ocorre com a maioria dos pretendentes a bons sonetistas é terem assunto demais para tão poucos versos, ou versos demais para pouco assunto.
     O poeta Belmiro Braga, diante dessa dificuldade, perguntou em um soneto de que forma o grande sonetista Emílio de Meneses escrevia os seus:

Como os fazes, Emílio? Eu te prometo
um mimo como paga ao que pergunto,
pois, quando, às vezes, no arranhol me meto,

(tens sob os olhos as razões que ajunto),
ora o assunto transborda do soneto,
ora sobra soneto e falta assunto...


     Menotti del Picchia faz parte do pequeno grupo de poetas que homenagearam essa forma poética de maneira magistral:

Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta, dentro de ti, a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.


Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti, que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça,
de um povo que viveu fazendo versos.


Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu


a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...


     Reconhecendo o desafio de se escrever um bom soneto, Júlio Dantas compôs magnificamente este:

Ó florentino túmulo de prata!
Ó sepultura de quatorze versos!
Demais viveu em ti aprisionada
A asa vibrátil do meu pensamento.


Demais sofri a dura disciplina
Do teu chicote de quatorze pontas,
Soneto arcaico, inquisidor vermelho,
Que Petrarca há seis séculos gerou.


Ó taça antiga de quatorze gomos!
– Taça de ouro de Guido Cavalcante,
Bebi em ti, mas atirei-te no mar.


Não se ouvem mais os címbalos da rima.
Asa liberta, voa em liberdade!
Jaula de bronze, estás aberta enfim!


      Coube ao genial e ultra-prolífico dramaturgo e poeta espanhol Lope de Vega (deixou centenas de poesias, e mais de 2800 peças escritas; foi comparado a Shakespeare; Cervantes o chamava de "o monstro da natureza") a autoria do mais genial soneto sobre a dificuldade de se escrever um. Violante, a namorada do poeta, pedira-lhe que Lope lhe escrevesse um soneto de amor.
     Eis como o genial poeta, escondendo-se atrás de uma finíssima ironia e fingindo-se incapaz de escrever o soneto, conseguiu a fenomenal proeza de atender ao pedido da namorada, sem, no entanto, fazer-lhe nenhuma declaração de amor:


Um soneto pediu-me Violante.
(É só nessas encrencas que eu me meto).
Quatorze versos dizem que é soneto:
burlo um pouquinho, e vão-se os quatro. Adiante!

E eu pensei que jamais iria avante,
mas já estou terminando este quarteto.
Ah! Se eu pego o princípio de um terceto,
não haverá mais nada que me espante.



No primeiro terceto vou entrando,
e suponho que entrei com o pé direito,
pois neste verso o fim já estou lhe dando.



E cheguei no segundo. Bem... suspeito
que estou os trezes versos terminando.
Contai se são quatorze, e... ei-lo feito!

Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SEGREDOS DOS GRANDES ESCRITORES



Jefferson Magno Costa
1º SEGREDO: Antes de verem o primeiro de seus livros publicado, os escritores que obtiveram mais sucesso, exerceram maior influência e marcaram para sempre a história da literatura, tornaram-se grandes conhecedores da língua que usaram.
       Ninguém hoje espere ingenuamente tornar-se grande escritor sem antes se esforçar para conhecer as regras e as riquezas expressionais de sua língua. Quanto a esta necessidade básica, o gramático Napoleão Mendes de Almeida fez uma oportuna advertência no prefácio de sua Gramática Metódica:
     “Conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão de todo brasileiro que preza sua nacionalidade. É erro de consequências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.”
     Todavia, não é minha intenção deixar subentendido aqui que só escrevem bem aqueles que possuem conhecimentos gramaticais tão sólidos como os de um Napoleão Mendes de Almeida, os de um Celso Cunha ou os de um professor Pasquale Cipro Neto, e outros. Não cheguemos a tanto; a não ser que tenhamos inegável vocação para o estudo específico da língua, conforme tiveram os pastores Eduardo Carlos Pereira e Vittorio Bergo, autores de gramáticas e de outros trabalhos de natureza filológica nacionalmente reconhecidos.
     "Dicionarista e gramático não são sinônimos de bom escritor. Tem-se observado, por exemplo, que os grandes dicionaristas, os grandes gramáticos, embora conhecendo todos os recursos da palavra, todos os processos que levam uma pessoa a escrever bem, raramente são grandes escritores”, foi o que nos lembrou o filólogo português Cândido de Figueiredo.
     É um fato que todas as histórias das literaturas confirma. Escrever bem requer algo mais do que sólidos conhecimentos linguísticos. Requer sensibilidade, imaginação e um toque pessoal de arte (também conhecido como originalidade). Em uma palavra: talento.
     Portanto, ninguém adquire capacidade e sensibilidade literárias lendo tão-somente gramáticas. O estudo da gramática não é a melhor forma de alguém aprender a amar ou dominar o seu idioma. O estudo da gramática não faz escritor, faz filólogo. Só os grandes escritores são capazes de nos ensinar a escrever bem.
     O melhor, o mais agradável e fecundo caminho para alguém familiarizar-se e passar a amar o seu idioma é lendo os melhores livros dos melhores escritores da literatura que esse idioma produziu. Mas fazer essa leitura não significa que devemos dar um mergulho em milhares de obras; o essencial é que leiamos as melhores.
     Para quem já é ou deseja tornar-se escritor, o amor ao idioma materno é fundamental. O poeta português Antonio Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pela língua portuguesa, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do seu idioma ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:  
 Floresça, fale, cante, ouça-se e viva a portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva;

Se até aqui esteve baixa e sem louvor

Culpa é dos que a exercitam,

Esquecimento nosso e desamor.

       Nós, brasileiros, que produzimos um soneto de exaltação à língua portuguesa, como este belíssimo e perfeito, escrito pelo poeta carioca Olavo Bilac: Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura; Ouro nativo que na ganga impura  a bruta mina entre os cascalhos vela.
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura.


Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo:

Amo-te, ó rude e doloroso idioma!


Em que da voz materna ouvi: “Meu filho”,

Em que Camões chorou no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho.


     Nós, que produzimos, pelas mãos do poeta pernambucano Manuel Bandeira, a mais bela homenagem poética já escrita em língua portuguesa ao maior poeta épico da língua, Luiz Vaz de Camões:


Quando na alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não

                                              [passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.



Gênio purificado na desgraça,

Tu resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado. Em ti brilhou sem jaça

Amor da grande pátria portuguesa.


E enquanto ecoar o fero canto na mente

Da estirpe que em perigos sublimados,

Plantou a cruz em cada continente,


Não morrerá sem poetas nem soldados

A língua em que cantaste rudemente

As armas e o barões assinalados.


    Nós, repito, que temos um lastro, uma herança tão rica e tão bela composta de obras literárias que vêm sendo escritas por exímios artistas da palavra, estamos hoje, em muitos aspectos, em uma situação de vergonhoso desconhecimento das riquezas do nosso idioma.
     O jornalista maranhense Lago Burnett, que durante muitos anos chefiou a redação de O Jornal do Brasil, descreveu com muita propriedade no seu livro A Língua Envergonhada, a atitude de muitos brasileiros para com essa que é considerada a segunda língua mais rica em sonoridades, a segunda dotada de maior musicalidade, entre todas as que se derivaram do Latim. (Só para os curiosos: a primeira é o italiano). Eis o texto, veemente e irônico, do jornalista:
     "O brasileiro não suporta a sua língua. Se lhe fosse permitido escolher, preferiria qualquer outro idioma, até mesmo o sânscrito, o latim, o hebraico, o iídiche, o patoá, o banto. Conquanto não fosse o português, pouco importaria que se tratasse de língua morta, extinta ou dialeto. Por força do colonialismo cultural, acentuado pela linguagem mercadológica dos veículos de comunicação, de muito bom-grado a opção brasileira recairia sobre o inglês – não o de Oxford, mas o da Praça Mauá.
     "Coramos de pudor, criando situações embaraçosas para nós próprios, toda vez que não conseguimos atinar, de público, com o significado de uma expressão anglo-saxônica, e nos mortificamos de despeito por não conseguir escrever com sotaque nova-iorquino uma ode olímpica à alienação de Ipanema. Não por veneração reverenciamos o idioma de Shakespeare, mas por mera subserviência ao sentimento mercantil do multinacionalismo linguístico." (A Língua Envergonhada. 3a Ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 15).
     E essa situação de vergonha e descaso pela língua portuguesa demonstrados por muitos dos que a usam não é tão recente, conforme alguns poderiam imaginar. De tanto a ultrajarem, a aviltarem, a envilecerem pelo uso desleixado e vergonhoso, os intelectuais de Portugal reagiram e passaram a patrulhar e censurar os maus usuários dessa língua outrora enobrecida por Antônio Vieira, Eça de Queiroz  e Machado de Assis. E foram tão severas as recriminações dos intelectuais portugueses, que o romancista carioca Lima Barreto, em um de seus quatro grandes romances, o Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, levou seu personagem principal a redigir o seguinte e irônico requerimento:
     "Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o Tupi-Guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência a sua emancipação idiomática.


Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida, e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade, pede e aguarda deferimento. "
2º SEGREDO: Os grandes escritores jamais se contentam com a primeira redação dos textos que escrevem. Eles os reescrevem e reescrevem.


     Quando o jornalista Giovanni Ricciardi foi ao apartamento do escritor Miguel Jorge a fim de entrevistá-lo para o livro Auto-retratos (que reúne 23 entrevistas com escritores brasileiros contemporâneos, e foi publicado pela Editora Martins Fontes em 1991), viu este lembrete na parede da sala de trabalho de Miguel Jorge:

Refazer, refazer sempre.

Refazer, custe o que custar.

Refazer cada página, parágrafo, frase, palavra...


     Apesar de o lembrete parecer um tanto ingênuo, não podemos ignorar que este é um dos segredos praticados por todos os grandes escritores. Eles escreveram muito para eles mesmos, antes de escrever para os outros.
     Todos os livros sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
     O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco, ou até seis vezes uma página ou um parágrafo de suas obras. Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas. Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven ou um quadro de Michelangelo.
     Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 90% de transpiração e 10% de inspiração. O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do Céu.
      Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável. É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco ou de um teclado de computador, que o nasce livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante.
     Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram dentre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável domador de palavras. Em um de seus poemas, O Lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto lutamos

Mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

Como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

O poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

Apareço e tento

Apanhar algumas

Para meu sustento

Num dia de vida.

............................


Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhe-ei escravo

De rara humildade.

Guardarei sigilo

De nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

De zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

Perpassam levíssimas

E viram-me o rosto.

Lutar com palavras

Parece sem fruto.

Não têm carne e sangue.

Entretanto, luto.


     O escritor português Antônio Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.” A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
     No seu famoso Discurso sobre o Estilo, o Conde de Buffon, escritor francês, afirmou que “somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”
     O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a arte, a originalidade com que suas páginas foram escritas. Vejam o exemplo do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Na verdade, esse romance foi o resultado de uma série de reportagens que o autor fez para o jornal O Estado de São Paulo sobre a Guerra de Canudos.
     Dezenas de outras reportagens também foram feitas naquela época por outros jornalistas sobre o mesmo assunto. Todas estão hoje esquecidas. Só a de Euclides da Cunha permanece atraindo e encantando leitores há quase 100 anos. Por quê? Por causa da perfeição do seu texto, da beleza do estilo com que foi escrita.

Escutem só o estouro da boiada que ele descreveu. Ouçam o barulho dos cascos dos bois tirando fagulhas das pedras no chão:
     "De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, traçam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, a inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação nos solo; e a boiada estoura...A boiada arranca. Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos vaqueiros. Origina-o o incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta, e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-se embolados em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos. E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos taboleiros ruídos soturno e longo de trovão longínquo... Milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-o impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalanche viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas – enristado – o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso à crinas do cavalo – o vaqueiro!"

     O grandioso livro Casa Grande e Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, é outro exemplo de obra que continua atraindo milhares de leitores devido ao belo estilo com que foi escrita. Muitos dos dados sociológicos apresentados nessa obra publicada em 1933 estão hoje superados. Mas nenhuma de suas páginas deixará de encantar os leitores de hoje e de amanhã.
     Portanto, um livro, antes de ser publicado, tem de ser revisado, polido, aperfeiçoado, com paciência e cuidado, durante meses, ou até durante anos. É o que têm feito os grandes escritores. E é um dos segredos já desvendados, tenho certeza, por todos os que desejam criar textos belos, comunicativos e perduráveis. Esses dois segredos citados aqui contribuirão para que os que almejam ardentemente conseguir esse grau de perfeição, o consigam.

 Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 8 de junho de 2015

JERÔNIMO SAVONAROLA, O PADRE QUE MORREU QUEIMADO POR TER DESOBEDECIDO AO PAPA E SE TORNADO UM PROTESTANTE

 Jefferson Magno Costa
     Florença (cidade da Itália), novembro de 1491. O grande sino da Catedral de Duomo acaba de bater meia-noite. Após distender pela décima segunda vez a corda para produzir a última badalada, do alto da torre um homem põe-se a observar as sombras que chegam de várias direções e se reúnem no centro da praça ou sobre os degraus da catedral.
     São pessoas que vêm dormir ali para, no dia seguinte, garantirem um lugar no interior da grande Duomo. Celebrar-se-á casamento de nobres? Algum rei será coroado? O Papa visitará a Duomo? Não. Jerônimo Savonarola vai pregar.
     O homem que observa do alto da torre sabe que o quadro social e espiritual da Florença do tempo de Savonarola é quase o mesmo em toda a Itália: a corrupção, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a miséria dos pobres, a sodomia entre os homens, as violações dos direitos humanos, os adultérios, a idolatria, as blasfêmias e a decadência da dominante Igreja Romana, cheia de vícios e pecados.
     Por este motivo, já há algum tempo Savonarola tornou-se no púlpito uma tocha ardente e cheia de indignação, um João Batista precursor de uma reforma religiosa que se avizinha. Alicerçado no Evangelho, prega com tanto fervor e tão cheio do Espírito, que suas palavras são como espadas nuas, destramente manejadas contra o pecado, setas de fogo lançadas ao centro dos corações corrompidos.
     E toda a Florença acorre para escutar, deslumbrada e temerosa, os sermões de Jerônimo, que em seus juízos corajosos e ferinos não livra nem mesmo os nomes do regente da cidade e do Papa, principais responsáveis pela devassidão do povo e da Igreja Romana.
 

UM JOVEM APAIXONADO POR ASSUNTOS CELESTIAIS
     Jerônimo Savonarola nasceu na cidade italiana de Ferrara, no ano de 1452. Seus pais queriam que ele ocupasse o lugar de seu avô paterno, que era médico na corte do Duque de Ferrara. Porém, o estudo das obras de alguns teólogos e sobretudo a contínua leitura das Escrituras desviaram-no da Medicina e inclinaram o seu coração para os caminhos de Deus.
     Quando tinha 22 anos de idade, o desprezo dos Strozzi - uma orgulhosa família italiana que não o achou digno de desposar uma de suas filhas -, e a decadência espiritual da cidade de Ferrara levaram-no a fugir para Bolonha, a pé. Nessa época seu entendimento já fora dilatado pelas verdades divinas, e ele aprendera a orar.
     Essa conversação espiritual com Deus abrandou a amargura e a desilusão de sua alma. E o Senhor suavemente se foi apossando do seu coração.
     Em Bolonha erguiam-se os altos muros do Convento de São Domingos. Ali Savonarola se apresentou, impelido pelo desejo de abraçar a vida monástica. Porém não se achava digno de ser monge, e por isso pediu que o aceitassem como um dos encarregados da limpeza do convento. Mas logo suas grandes virtudes pessoais o distinguiram.
     Como uma fonte que mansamente nasce, o desejo de continuamente estar na presença de Deus brotara no seu coração, e agora era como um grandioso e indomável rio, que livremente corre para o mar.

A FORMAÇÃO INTELECTUAL E ESPIRITUAL DO FUTURO GRANDE REFORMADOR
     Savonarola era humilde, obediente e sincero. O tempo que lhe sobrava, após as várias ocupações, empregava-o no estudo, na oração e na contemplação da sublimidade do amor de Deus. Ao acordar pela manhã, elevava o seu coração em súplicas, ofertando ao Senhor as primícias do dia, e pedindo-lhe que estivesse sempre com ele.
     Os superiores do convento passaram a ver naquele rapaz um futuro grande homem da Igreja. Porém jamais imaginaram que ele entraria em luta com o próprio Papa no intuito de reformar a Igreja. Sua inteligência e sobretudo seu fervor religioso levaram esses homens a não medirem esforços para completar sua formação intelectual e religiosa.
     O moço tinha sempre o coração cheio de fé, a alma livre das paixões humanas, e o pensamento continuamente ocupado com o amor de Deus. "Senhor, não reine em minha alma outro além de ti!" - pedia ele em suas orações. O lugar onde se prostrava horas a fio em oração ficava frequentemente molhado de suas lágrimas.
     Seu admirável progresso nos estudos valeu-lhe a nomeação de professor de Filosofia, função que exerceu até a data de sua transferência para o convento de Ferrara.
     Ao chegar ali, dentro dos silenciosos muros do mosteiro de sua cidade natal, entregou-se com mais assiduidade ao jejum, à oração e ao estudo da Palavra de Deus, pois desejava alcançar o que sempre fora a mais ardente aspiração de sua mocidade: tornar-se um inflamado pregador, um arauto do Céu a anunciar, face à impiedade do povo, que se não houvesse arrependimento, o dia do castigo do Senhor estava próximo.
     Porém, suas primeiras tentativas de pregar em Ferrara resultaram em fracasso. Não acostumado a ouvir pregações que denunciassem e reprovassem abertamente os seus pecados, o povo de Ferrara não deu a menor atenção às palavras daquele moço que se propunha a ser "o chicote do Senhor". Jerônimo foi obrigado a dedicar-se inteiramente à instrução dos noviciados, repetindo para si mesmo as palavras de Jesus:
     "Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa" (Mateus 13.57).
     Todavia, os sete anos que passara no convento de Bolonha e as pregações que fizera ali haviam confirmado que Deus o usaria nos púlpitos das maiores catedrais da Itália, e seus ataques corajosos contra a corrupção do povo e da Igreja Romana preparariam em toda a Europa o caminho para a futura Reforma Protestante.

A MUDANÇA PARA FLORENÇA E SEU ÊXITO COMO PREGADOR
     Insatisfeito com a pequena repercussão que suas pregações haviam obtido entre os ouvintes que frequentavam a igreja do convento de Ferrara, Savonarola desejou ardentemente mudar-se para a mais destacada cidade do Renascimento: Florença. Ali foi muito bem recebido pelos religiosos do Convento de São Marcos.
     Naquela época, Florença cultuava a beleza da pintura, da escultura, da poesia e da oratória. Os oradores discursavam preocupados em tornar a frase pomposa, rica e elegantemente floreada.
     Além do mais, para se triunfar no púlpito ou na tribuna, era necessário possuir boa estatura física, além de bela aparência, e fazer uso de atitudes elegantes. Savonarola era a antítese de tudo isto: alto, magro, nariz grande, lábios grossos, boca imensa, atitudes desgraciosas e enérgicas.
     Porém, estas desvantagens físicas não impediram que ele se tornasse o maior pregador de sua época. O intenso brilho dos seus olhos azuis impressionava a todos os que o contemplavam. Parecia que ele estava sempre a querer olhar dentro das almas, ou a contemplar os longos rumos ocultos, os largos itinerários dos corações.
     Savonarola começou a pregar em Florença seguindo um estilo diametralmente oposto ao dos oradores da época, despertando assim a curiosidade de muitos, inicialmente para a sua maneira de usar da palavra, depois para a significação do que dizia.
     Rejeitando as burilações retóricas, numa linguagem espontânea e enérgica, pregava diante de uma assistência cada vez mais admirada do seu modo direto de ir ao assunto. Impressionava a todos o fervor de suas palavras.
     Através das pregações, Savonarola foi conquistando a cidade de Florença. No tempo em que os rijos ventos do pecado sopravam sobre as vidas conturbadas e escuras dos florentinos, sua voz fez com que a Palavra de Deus brilhasse, cada vez mais clara e resplandescente, nos corações.
     Oskar von Wertheimer observou que "suas pregações produziam um efeito indescritível, acontecendo frequentemente aos que as copiavam declararem, à margem dos manuscritos, haver-lhes o entusiasmo ou as lágrimas impedido de continuarem a escrever". 

O MONGE FIEL A DEUS QUE NÃO TEMIA NEM O GOVERNADOR NEM O PAPA
     Falando, certa vez, no púlpito da Catedral de Florença, Savonarola disse que em breve morreriam o Papa Inocêncio VIII e Lourenço de Médicis, e que a Itália seria invadida por Carlos VIII, da França. Essas profecias iriam ser confirmadas posteriormente, aumentando consideravelmente o seu prestígio diante do povo.
     Ao saber dessas previsões, o Governador Lourenço de Médicis, furioso, ordenou a alguns nobres de Florença que procurassem mostrar a Savonarola que suas profecias punham sua vida em perigo. O pregador escutou-os friamente, e em seguida mandou dizer a Lourenço que ele devia se arrepender dos seus pecados.
     Lourenço concluiu que não conseguiria impressionar o monge através de ameaças, e tratou de conquistar-lhe a simpatia. Savonarola era então Prior do Convento de São Marcos, e não se impressionou diante dos muitos favores que o governador subitamente passou a fazer àquela comunidade religiosa.
     Apercebendo-se da inutilidade de seus métodos, e vendo que Savonarola continuava a atacar sua vida tortuosa e desregrada, Lourenço resolveu fazer calar o grande pregador utilizando-se de sua própria arma: a oratória.
     Encarregou Frei Mariano de Gennazano, um dos maiores pegadores florentinos, de pregar alguns sermões contra o Prior do Convento de São Marcos. Foi a grande vitória da oratória sem artifícios sobre a oratória artificiosa. Savonarola impressionou o povo e venceu Frei Mariano fazendo uso de uma eloquência espontânea e simples. Tempos depois, Lourenço de Médicis mandou chamá-lo. Estava à morte. Ao vê-lo, disse o governador:
     "Mandei chamá-lo por ser o senhor o único monge honrado que conheço." Na conversa que tiveram sobre salvação, discordaram em alguns pontos, e Savonarola, depois de muito insistir, retirou-se, deixando o moribundo "a sós com Deus e com sua consciência".
     Após a morte de Lourenço, o não menos corrupto Pedro de Médicis ocupou o seu lugar. Savonarola redobrou sua campanha em prol da regeneração dos costumes. Sob os efeitos produzidos por suas pregações, ladrões e usuários procuravam regenerar-se, mulheres abandonavam o luxo exorbiante, e muitos fugiam à devassidão, almejando viver segundo os preceitos bíblicos.


ATAQUES CONTRA O CLERO E O PAPADO
     Sempre com a Santa Palavra nos lábios, o grande homem de Deus ia pregando com simplicidade, e mudando, espantosa e radicalmente, os costumes do povo italiano. Às vezes, quando queria demonstrar que também sabia pregar de maneira rebuscada como os demais pregadores, surgiam em suas pregações metáforas como esta:
     "Deixam o ouro pelo cobre, o cristal pelo vidro, as pérolas pelo barro, os que pelo barro do mundo, pelo vidro da vaidade e pelo cobre destes bens profanos e transitórios, desprezam o ouro maciço, o cristal puro e as pérolas do amor de Deus e dos bens eternos."
      Nem mesmo o clero escapou de sua sinceridade e coragem, que não conheciam limites. Savonarola atacou frontalmente os vícios dos religiosos de sua época: "Se vós soubésseis as coisas repugnantes que eu sei! - dizia ele diante da multidão que o ouvia, surpresa. E então, corajosamente, sentava a igreja dominante no banco dos réus e a julgava:
     "Vem cá, igreja infamada! Ouve o que te diz o Senhor. Dei-te formosas vestimentas, e tu exercestes com elas a idolatria. Com os vasos preciosos tens alimentado o teu orgulho, tens profanado o que antes era sagrado; a sensualidade te precipitou na vergonha. És pior que uma besta; és um monstro repugnante...Ergueste uma casa de imoralidade e te converteste, em toda parte, numa casa de perdição.
     "Tomaste assento no trono de Salomão e passaste a atrair o mundo às tuas portas. Quem tem dinheiro entra, e pode fazer tudo o que quer, porém quem não tem dinheiro mas deseja o bem, é desconsiderado e expulso."
     Esse julgamento chegou ao conhecimento do papa Alexandre VI, sucessor de Inocêncio VIII, e um dos maiores responsáveis pelas desordens e a vida pecaminosa dos padres. Já há algum tempo os sermões de Savonarola vinham incomodando o Papa, que procurou lançar mão de todos os meios possíveis para fazer o monge calar.
     Travou-se então uma luta ferrenha, que culminou na excomunhão, prisão, tortura e morte de Savonarola.
     Antes, sua sinceridade e guerra declarada à devassidão, desonestidade e hipocrisia já o haviam indisposto seriamente com alguns dos grandes senhores da Itália. Um dos casos mais sérios ocorreu durante uma de suas pregações em Bolonha, quando a mulher de Bentivoglio, um dos homens mais importantes dessa cidade, entrou na igreja provocadoramente, com o intuito de perturbar o pregador e fazê-lo perder o controle do sermão.
     Imediatamente, e sem medir consequências, Savonarola bradou do alto do púlpito:
     - Vejam aí, irmãos, eis o demônio que vem perturbar a Palavra de Deus.
     A frase ecoou por todo o recinto como uma chicotada. Imediatamente os guardas de João Bentivoglio empunharam as espadas e investiram contra o pregador, mas foram interceptados pela maioria dos que ouviam a pregação.
     Savonarola escapou milagrosamente de morrer naquele instante. Porém, apesar dos conselhos que lhe deram para que fugisse imediatamente de Bolonha, ele permaneceu na cidade até pronunciar ali o seu último sermão, quando, no mesmo lugar onde o haviam ameaçado de morte, falou desafiadoramente:
     "Partirei esta tarde para Florença, sem outra companhia além do meu bordão de peregrino. Alojar-me-ei em Pianora. Se alguém quer ajustar contas comigo, que venha antes de minha partida. Entretanto, eu não morrerei em Bolonha, mas em outro lugar".

PASSEATA EM FAVOR DO ARREPENDIMENTO E DA PURIFICAÇÃO DO POVO
     Ele sabia que os poderosos não o deixariam viver por muito tempo. Após sua morte, a Itália seguiria o seu caminho de corrupção e infâmias internas, mostrando, porém, ao mundo, uma face hipócrita de pureza e religiosidade. 

     Savonarola sabia que não poderia parar de pregar. Combateria o pecado até momentos antes de ser enforcado e queimado. E seu exemplo floresceria e geraria muitos frutos na Europa e no mundo.
      Não acreditando que seus auxiliares pudessem ajudá-lo a mudar os costumes do povo, Savonarola apelou para a sinceridade das crianças, que saíam com o sacerdote pelas ruas da cidade fazendo batidas sistemáticas, repreendendo os adultos em suas práticas pecaminosas, e levando para ser queimado tudo o que conseguissem achar em matéria de enfeites, cabelos postiços, livros e quadros indecentes.
      Conta-se que as crianças abordavam as senhoras nas ruas e diziam, cheios de convicção: "Da parte de Jesus Cristo, Rei de nossa cidade, nós te ordenamos a abandonar todas essas vaidades." Savonarola as incentivava a prosseguirem com a "Reforma dos costumes".
     Sobre imensas fogueiras - as fogueiras da vaidade, como costumavam chamá-las -, obras de arte pagã, jóias reproduzindo ídolos, espelhos com figuras indecorosas, livros e toda sorte de objetos considerados pecaminosos eram amontoados e queimados.
     Quando as tropas de Carlos VIII, rei da França, invadiram a Itália, mais uma de suas profecias se cumpriu. Isso contribuiu para que a inveja e o ódio do Papa Alexandre VI se acendesse contra Savonarola de maneira mais violenta que o fogo ateado sobre as "fogueiras da vaidade". Além do mais, as palavras chamejantes do grande pregador haviam continuamente atacado Roma e o "Sumo Pontífice", com a mesma energia que sempre combateram a devassidão da época:
     "O escândalo começa por Roma e corre por todo o continente. São piores que os turcos e os mouros... Os sacerdotes vão por dinheiro ao coro, às festividades e ao ofício; vendem as prebendas, vendem os sacramentos, negociam com as missas; em uma palavra: tudo fazem pelo dinheiro... Este veneno acumulou-se de tal maneira em Roma, que a França, a Alemanha e todo o mundo se contagiou; e chegou a tal ponto que é necessário prevenir-se contra Roma. Entre o povo circula uma frase que diz: '
'Se queres perder teu filho, faze dele um sacerdote!'"
 DECLARADO HEREGE PELO PAPA, E EXCOMUNGADO
     O Papa resolveu tomar providências enérgicas contra Savonarola. Primeiramente dirigiu-se ao governador de Florença, e solicitou que lhe fosse enviado a Roma o monge revolucionário.
     O governador florentino declarou que não lhe era possível atender semelhante pedido, "não só porque faríamos algo indigno de nossa República, como também estaríamos sendo injustos contra um homem que tem trazido tantos benefícios à Pátria. Além do mais, ainda que quiséssemos, não poderíamos fazê-lo sem que houvesse uma revolta popular com grave perigo para muitos, tal e tão grande é o prestígio que esse frade ganhou com sua integridade".
     Mas o Papa estava disposto a lutar e fazer calar, de uma vez por todas, o "chicote do Senhor". Do púlpito, Savonarola comentou o incidente:
     "Chegou de Roma um breve (decisão papal), é verdade. Nele, chamam-me de filho da perdição. Aos que me acusarem diante de vós, queridos irmãos, respondei assim: 'Aquele a quem tu chamas deste modo diz que não possui mancebos nem concubinas, mas apenas prega o Evangelho de Jesus Cristo.
     "Digam também que seus irmãos e irmãs espirituais, e todos os que escutavam a sua doutrina, não andam buscando esses tristes deleites, mas temem a Deus e vivem honestamente'".
     Ao tomar conhecimento desse comentário, o Papa anunciou que Jerônimo Savonarola estava excomungado da Igreja Romana, e em seguida utilizou-se de um meio que se mostraria eficaz para arrancá-lo das mãos protetoras do governo florentino: ameaçou confiscar os bens de todos os florentinos residentes em Roma, e boicotar as mercadorias destinadas a Florença. Nas palavras do historiador Alexandre Vicunã:
     "O efeito foi mágico. Tanto o embaixador florentino, junto à corte papal, como os comerciantes de Florença, residentes nos Estados Pontifícios, exigiram do Governo de seu país que concordasse com a exigência do Papa e entregasse, de uma vez por todas, o monge rebelde. Por um frade não valeria a pena sacrificar o comércio da República!"
     Savonarola foi preso e entregue ao Papa juntamente com seus dois fiéis companheiros, frei Silvestre e frei Domingos, também excomungados. No dia em que o prenderam, esta foi a sua oração:
     "Senhor, eu não peço tranquilidade, nem que cesse a tribulação; peço-te coragem, peço-te amor. Dá-me forças e graça para resistir à adversidade. Eu queria que teu amor triunfasse sobre a Terra. Vês que os malvados se fazem cada dia piores e mais incorrigíveis. É necessário que estendas agora a tua mão poderosa. Quanto a mim, só me restam as lágrimas."

 UM GIGANTE DE DEUS EXECUTADO NA FORCA E NA FOGUEIRA
     Na maior praça da cidade de Florença, uma grande multidão aguarda um espetáculo. É noite. O povo florentino está eufórico e impaciente. Sobre uma imensa fogueira levantada no centro da praça ergue-se uma gigantesca forca. Há três laços preparados.
     Naquele local de execução, dentro de alguns instantes, o grande pregador Jerônimo Savonarola e seus dois companheiros de sonhos e lutas serão enforcados e queimados. Homens, mulheres e crianças comprimem-se para assistir à morte de um dos maiores pregadores e reformadores da história da Igreja.
     Alguns meses antes, aquela mesma multidão vibrava sob o domínio da palavra veemente e cheia de autoridade daquele homem alto e magro, que acabara de chegar ali. Sim. O grande pregador acaba de chegar ao centro da praça.
     Nos seus braços e rosto distinguem-se visíveis marcas de tortura. A multidão silencia por alguns instantes para melhor contemplar sua figura trôpega e sofrida. Após quarenta e cinco dias de tortura e julgamento, ele está quase irreconhecível. Haviam-no maltratado brutalmente. O seu corpo emagrecido fora queimado com ferros em brasa. Esticaram seus braços, desconjuntaram suas pernas, dilataram-lhe seus músculos, partiram-lhe as veias, distenderam o seu corpo no alucinante suplício da roda.
     Os carrascos que conseguem contemplar de perto sua face pálida e arroxeada, coberta de cicatrizes que ainda sangram, sentem-se perturbados com o intenso brilho dos seus olhos. Sua serenidade impressiona. Só o fogo conseguirá apagar, de uma vez por todas, esse penetrante e sereno brilho.
     Subitamente a multidão começa a uivar e a aplaudir. Ouvem-se gritos estridentes, insultos. O povo delira! Os dois companheiros de Savonarola, frei Silvestre e frei Domingos, são obrigados a subir para o alto da fogueira. Ambos também sofreram dolorosos suplícios.
     Com movimentos enérgicos, o carrasco faz suas cabeças passarem por dentro dos laços da forca. A multidão grita furiosamente. Cercado pelos guardas, emocionado, Jerônimo Savonarola contempla seus companheiros de martírio e de jornada heróica, cujos corpos agora balançam no espaço!
     Brilhando serenamente no céu, a lua ilumina seus rostos pálidos e transfigurados. Em poucos instantes, frei Silvestre e frei Domingos estão mortos.
     Um sacerdote aproxima-se do grande pregador e diz: "Vês agora qual será o resultado de tua rebeldia?" Alongando demoradamente o olhar pela vastidão e altura do céu estrelado, Savonarola responde:
     "Muito mais sofreu Jesus por mim." E não diz mais nada. Instantes depois seu corpo é projetado no espaço. Finalmente haviam conseguido calar aquela voz que, poderosa e indignadamente, combatera o pecado.
     A grande fogueira começa a arder, envolvendo os três corpos. Seus vultos de labareda rompem-se sob o brilho da lua que erra no céu, sonâmbula, coroada de auréolas rubras. Naquela noite, aqueles três homens alcançaram a altíssima paz!

Jefferson Magno Costa

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