quinta-feira, 27 de maio de 2010

NELS JULIUS NELSON, O GIGANTE DA FÉ QUE EVANGELIZOU O NORTE E O NORDESTE DO BRASIL



Em dezembro do ano de 1912, vindo da Suécia, um jovem de cabelos lisos e escuros, ombros largos e andar firme, chegava à cidade norte-americana de Mineápolis, Estado de Minesota. Naquele seu modo decidido e seguro de andar, quem o observasse talvez o confudisse com um dos inúmeros adolescentes que transitavam pelas ruas, sedentos de aventura e de progresso. Mas aquele rapaz era diferente. Aos dezoito anos de idade, um metro e oitenta e seis de altura, Nels Julius Nelson viajara da terra natal - a Suécia - para os Estados Unidos, pelo simples fato de crer que Deus o chamava para realizar um grande trabalho - obra que envolveria toda a sua vida.
E foi isso que ficou patente após ser abraçado naquela manhã pelo seu tio - um homem bem estabelecido em Mineápolis, que, juntamente com sua família, servia ao Senhor.
Dois anos após sua chegada, Nelson tornou-se membro da Igreja Luterana, apesar de seu tio e seus primos insistirem em que aceitasse a fé pentecostal. Certa noite, porém, ao voltar a casa, seu tio o cumprimentou, como fazia de costume. Sem dar resposta à saudação, o moço recolheu-se aos seus aposentos, profundamente triste, sem ele mesmo saber o porquê daquela tristeza. Quando se preparava para dormir, sentiu-se subitamente invadido por uma grande inquietação, a maior que já experimentara até ali, semelhante àquele estado descrito pelo autor da carta aos Hebreus (10.27): "... uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários". Uma profunda convicção de seu estado de pecabilidade apossou-se de sua alma. Sim, era um pecador. De nada lhe adiantava pertencer a uma igreja, pois até aquele momento o seu coração ainda não havia sido habitado por Jesus Cristo.
Naquele mesmo instante, o Espírito Santo o encheu de convicção de que precisava ser salvo, e fê-lo levantar-se, sair rapidamente do seu quarto e acordar o tio, pedindo-lhe que orasse por ele. Após ser lida a Palavra de Deus, Nels Nelson recebeu Cristo como seu Salvador. A 15 de abril de 1915, já frequentando uma igreja pentecostal, foi batizado em águas e, em 19 de novembro de 1916, o Espírito do Altíssimo desceu sobre ele, como uma luz quente, límpida e serena, fazendo-o falar as línguas do Céu. Um transbordamento de júbilo e êxtase cobriu-lhe a face. Naquele momento recebia a virtude do Espírito Santo, e seria testemunha de Jesus Cristo, tanto na Suécia, como nos países circunvizinhos; entre seus familiares, e até nos confins da terra.
Não demorou muito a ser chamado para o trabalho missionário. Orando certa vez na casa do seu tio, o Senhor o chamou para evangelizar um país distante, mas não houve menção do nome do país. No entanto, uma circunstância curiosa veio esclarecer tudo: o tio e o primo do irmão Nelson, que também ali estavam presentes, tempos antes haviam sido chamados para o trabalho missionário no Brasil. Mas temendo deixar um país tão fértil como os Estados Unidos, e sobretudo por terem muitos bens, pai e filho não deram ouvidos à chamada do Senhor. Insistiria o Senhor, agora, na chamada missionária para esse país? Sim, Ele agora chamava para essa missão o irmão Nelson. Estava confirmado, e os que não obedeceram à visão celestial, perderam a sua oportunidade.
O irmão Nelson continuou trabalhando normalmente, mas tratando sempre dos preparativos para a viagem. Seus companheiros de trabalho, diante de sua resolução de abandonar um emprego onde estava bem colocado, e que lhe dava condições de tornar-se rico, perguntavam-lhe por que ele não desistia daquela viagem a um país inóspito e distante. Ali mesmo, nos Estados Unidos, poderia ele servir ao seu Deus. Mas Nelson respondia: 
- Eu recebi tanto, tanto, de Jesus Cristo, que tenho de obedecer-lhe e dar do que recebi àquele povo do distante Brasil!
Naqueles dias, vindo da Suécia, chegava a Mineápolis, para participar de uma convenção, o missionário Gustavo Nordlund. Ele nunca vira o irmão Nelson antes. Quando os dois se encontraram, o irmão Gustavo disse-lhe: "Irmão Nelson, Deus me revelou o teu nome e que vais para o Brasil". Não pensavam nessa ocasião que, futuramente, trabalhariam juntos, no mesmo país. A primeira grande prova de fé que o missionário Nelson enfrentou foi saber que sua igreja não o poderia manter no campo para onde ia. Não desanimou: começou imediatamente a orar e o Senhor logo tocou o coração de vários irmãos, fazendo-os prometer que o manteriam durante todo o tempo em que ele estivesse no Brasil.
Em 21 de março de 1921, desembarcando em Belém do Pará, Nels Julius Nelson chegava ao Brasil. Antes estivera na Suécia e falara aos seus pais do amor de Jesus. Com vinte e seis anos de idade, possuindo uma fé sempre crescente em Deus, o irmão Nelson iniciou um trabalho de evangelização no Brasil que seria considerado mais tarde como o alicerçamento das Assembléias de Deus no Norte e no Nordeste do País. Pregando, visitando, indicando pastores para assumir trabalhos em campos de norte a sul, ou ele mesmo assumindo algumas vezes a direção; viajando em embarcações fluviais, as "chatas", sobre o rio Amazonas; indo ao Maranhão, ao Piauí, ao Ceará, a Mato Grosso, aos territórios, ao arquipélago de Marajó, ele foi durante mais de quarenta anos, um dos maiores líderes espirituais que já atuaram no Brasil.
Com sua grande estatura, braços longos e fortes, e mãos do tamanho da sua bondade, era um verdadeiro gigante. Mas era um gigante humilde. Na sua grande simplicidade, jamais procurava sobrepor-se aos obreiros nacionais. A impressão que os pastores e evangelistas tinham quando recebiam aviso de que ele os visitaria, era de que uma grande autoridade celeste estava para chegar, para passar em revista as tropas do Senhor dos Exércitos. Resumamos o panorama dos seus quarenta e dois anos de atividade no Brasil:
Em 1921 iniciou o seu trabalho como auxiliar do missionário Samuel Nyströn, na direção da AD em Belém do Pará. Cinco anos depois, mudando-se o irmão Samuel para o Rio de Janeiro, o irmão Nelson tornou-se pastor Presidente da igreja em Belém; e ali continuou, durante vinte anos. Nesse espaço de tempo, fundou o jornal evangélico "Boa Semente" (depois transferido para o Rio, onde tomou o nome de "Mensageiro da Paz"); deu início às chamadas Escolas Bíblicas de curta duração, que grandes benefícios trouxeram a muitos obreiros em todo o Brasil; criou classes de estudos bíblicos nas igrejas, para treinamento da mocidade, e fez inúmeras viagens a diversos pontos do País.
Essas viagens lhe custaram muito. Foi durante uma delas que contraiu malária. Sofreu desse mal durante dezoito anos. Teve muitas crises no decurso de suas viagens no barco "Boas-Novas". Mas nem a doença, nem os percursos longos, nem as regiões de difícil acesso, nem as privações a que seria obrigado a passar, fizeram-no desistir daquele trabalho. Havia muita pobreza nas ilhas, tanto material como espiritual. Por isso, o irmão Nelson levava sempre a sua canoa repleta de boas-novas de salvação: folhetos, porções da Palavra de Deus e o poder do Espírito Santo, bem como peças de fazenda, roupa, sapatos, etc. Sempre um grande número de homens, mulheres, crianças e velhos o esperava nas margens dos rios para receberem algo de que necessitavam.
Quando já pastoreava, por dez anos, a igreja em Belém, o Senhor concedeu ao irmão Nelson uma companheira, a irmã Lídia Rodrigues, com quem se casou. Contava ele então quarenta anos de idade. Desta união nasceram Ester, Ruth e Samuel. No mesmo ano do seu casamento, o missionário Gustavo Nordlund, pastor da AD em Porto Alegre (RS), precisando ir à Suécia, convidou-o para substituí-lo enquanto estivesse fora. Ele aceitou o convi¬te, e durante um ano pastoreou a AD em Porto Alegre; em seguida voltou para Belém, a fim de continuar ali o seu ministério vasto e fecundo.
Naquela época a Casa Pubicadora das Assembleias de Deus não possuía os meios de difusão das Escrituras de que dispões hoje. Seu alcance era muito pequeno, quase que restrito ao Estado do Rio de Janeiro. Em Belém não havia livrarias evangélicas, nem mesmo um depósito de Bíblias. Por este motivo, o irmão Nelson, quando ia ao Rio de Janeiro ou a São Paulo, visitava as livrarias evangélicas à procura de obras recomendáveis, a fim de ter sempre em boas condições o estoque que ele mantinha na igreja, única fonte ali de livros evangélicos selecionados, e que atendia às necessidades dos obreiros. Costumava aconselhar seus auxiliares a ler sempre bons livros, a fim de progredirem em conhecimento, pois as igrejas localizadas nas grandes cidades cada dia iriam exigir deles muito mais do que poderiam dar. Para que não se sentissem deslocados em tais igrejas, ele aconselhava que procurassem crescer, tanto espiritual como culturalmente, pois não tardaria o tempo quando todos os obreiros incultos poderiam ser relegados a um plano secundário.
Em 1946 o irmão Nelson foi eleito Presidente do Conselho Administrativo da Casa Publicadora, e se tornou um incansável propagador dos ideais da Casa. Ele promoveu, em grande parte, a manutenção e o progresso dessa Editora. Com esse propósito, visitou não só quase todo o Brasil, mas também os EUA, a Finlândia, a Noruega e a Suécia, pleiteando ajuda de toda sorte em favor da Casa Publicadora. Dele foi que partiu a iniciativa da construção de um novo prédio e da compra de novas máquinas.
Em 1950 mudou-se para o Rio de Janeiro e pastoreou a AD em São Cristóvão até o ano de 1957. A partir desta data, passou a atender o trabalho em todo o Brasil, deslocando-se para as igrejas nas quais sua presença se fazia necessária. Mas nesse mesmo ano, o processo da doença que o levaria para a Glória começou a se desenvolver, obrigando-o a ficar em casa. Quando obreiros o visitavam, falava do amor que tinha ao trabalho no Norte do Brasil. Certa vez, confessou entre lágrimas: "Se eu viesse a saber da aproximação de minha morte, embarcaria e iria findar minha carreira lá na Amazônia, onde a comecei."
Em junho de 1962, iniciou-se o que podemos chamar de os seus últimos contatos com o trabalho que tanto amava. Esse foi o ano da Convenção Paraense, e aqueles que acompanharam o irmão Nelson admira-ram-se de sua atividade ininterrupta, pregando, dirigindo estudos bíblicos, visitando o interior do Estado, tudo com tal dinamismo que levou todos a pensarem que aquilo era uma verdadeira despedida. De Belém dirigiu-se ao Paraná, seguindo o itinerário que ditava o seu coração.
Era seu propósito percorrer todos os Estados onde havia trabalhado para fazer continuamente arder e brilhar a lâmpada da salvação nos caminhos noturnos e tenebrosos do pecado. Do Paraná, dirigiu-se a Manaus, de Manaus a Belém, de onde, com o estado de saúde cada vez mais abalado, quase viu-se impossibilitado de viajar ao Recife. Mesmo assim, chegou a essa cidade, e participou da Convenção Geral que ali se realizou no mês de novembro. Ao término da Convenção, rumou para o Rio de Janeiro.
O homem que Deus usara com tanto poder na evangelização do Norte e do Nordeste do Brasil, o homem cujo coração Deus enchera de paciência e de amor para com aquelas almas que habitavam regiões de dificílimo acesso, estava agora à morte. Já no fim, tinha saudade daquela gente pobre e faminta a quem falara do grande amor de Jesus, e que nunca poderia imaginar que Deus traria um homem da Suécia e o conduziria àqueles distantes lugares, cheio de bondade e de amor, para lhes falar da salvação oferecida por Jesus Cristo.
Os que estiveram com o irmão Nelson nos seus últimos instantes, puderam ver que em seus olhos ardia, em sereno e profundo brilho, a luz tranquila de um amor provado, seguro, que dera o quanto havia de dar, o quanto tivera para dar, o quanto Cristo lhe dera e lhe mandara que desse.
Eram quinze horas e quinze minutos do dia cinco de março de 1963, quando na CPAD todas as atividades foram paralisadas, e os telefones começaram a anunciar nas mais diversas partes do País, a notícia da partida para o LAR, do Apóstolo da Amazônia. Na madrugada daquele dia, a irmã Lídia Nelson ouvira, no Hospital Evangélico, na Tijuca, onde se encontrava fazendo companhia ao seu marido, ao som de violino a invadir o silêncio dos corredores escuros, tocando brandamente o hino "Oh! que doce lar!" Curiosa, não sabendo de onde vinha aquela melodia tão suave, aproximou-se do leito onde se encontrava o irmão Nelson. Ele dormia tranquilamente. A madrugada estava mergulhada em profunda paz. Havia anjos por ali!
O pastor Alcebíades de Vasconcelos, que esteve ao lado do pastor Nelson nos seus últimos momentos, escreveu: "Vi morrer um grande! vi morrer um forte! vi morrer um justo! E, ao vê-lo, um único pensamento subiu ao meu coração: o de agradecer a Deus por aquela vida que Ele graciosamente dera ao Brasil, como testemunho do seu amor para com os filhos deste grande País".
"Foi um sol que nasceu brilhando com muita intensidade e que desapareceu no ocaso", escreveu o irmão Emílio Conde, ao noticiar na revista "A Seara", o falecimento do missionário Nels Nelson. O corpo foi velado durante toda a noite no templo da AD em São Cristóvão e, pela manhã, acompanhado por uma grande multidão, foi conduzido ao Cemitério do Caju. Sobre a pedra do seu túmulo foi colocada uma pombinha de mármore de Carrara. Sua cabecinha triste e desolada, suavemente repousada sob as asas, parece demonstrar a atitude de quem está só, e espera...
Aquele corpo que ali está estendido na inevitável horizontabilidade da morte, parece um dos trinta valentes de Davi que resolveu descansar. O vento que suavemente sopra por cima daquela lápide, soprará sobre as asas de mármore daquela pombinha - símbolo de espera e de esperança -anunciando continuamente:
Breve virá! breve virá!
Breve Jesus voltará!
Integrado na perpétua serenidade de Deus, alto e belo como as estrelas, descansa Nels Julius Nelson, nosso irmão Nelson.
Jefferson Magno Costa

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