quinta-feira, 21 de maio de 2015

ELA QUERIA APENAS SUA BÍBLIA DE VOLTA

Jefferson Magno Costa

   

ELA FOI MORTA COM UM TIRO SÓ PORQUE PEDIU QUE O ASSALTANTE DEVOLVESSE SUA BÍBLIA

 Estamos em maio de 2015 e esta cena se repete dia a dia. Lembra?
Ela era apenas uma jovem evangélica que morava no bairro do Rio Comprido, nessa cidade que virou um comprido rio de insegurança e medo, a metrópole mais ensolarada e maravilhosa do mundo, mas também a mais tenebrosa e violenta cidade desse Rio que faz correr sangue de janeiro a dezembro.
     Era apenas uma jovem cheia de sonhos, cheia de medo, cheia de risos; uma jovem que falava inglês e espanhol e ia aprender francês, pois queria ser diplomata; que morava nesse Rio de pânico, nesse Rio de incertezas, na insustentável leveza dos seus 25 anos, estudante de Administração, estagiária da Caixa Econômica Federal, leitora entusiasmada da Bíblia.
     Era uma jovem evangélica, membro de uma das congregações da Assembléia de Deus na Penha, que se mudara de Vila Cruzeiro para o Rio Comprido, na suposição de que lá seria um bairro mais tranquilo.
     Era uma noite de domingo, dia seguinte ao aniversário de Karla Leal dos Reis. Uma noite em que alguns filhos de Belial saíram pelas ruas mal-iluminadas do Estácio – bairro vizinho ao local onde, alguns dias antes, a maior legião de demônios comandou invisivelmente a festa que é chamada, por quem não teve o marido, o filho, a filha ou a esposa alcoolizados, drogados, prostituídos ou mortos, de o “maior espetáculo da terra”, o Carnaval.
     Era uma noite de domingo em que três filhos de Belial, com os olhos injetados de sangue, as mãos crispadas de ódio, saíram para esquadrinhar as trevas em busca de almas inocentes e indefesas.
    
Naquele que seria o último domingo de Karla, ela e sua família desceram de um ônibus no bairro do Estácio, e caminharam para o bairro do Rio Comprido. Suave era a noite que se apossara da Cidade Maravilhosa, mas infiéis e tenebrosos os seus caminhos. Filhos de Belial caminhavam naquela direção.
     Karla caminhava com o coração transbordando de paz, dessa doce e célica paz que só Jesus pode dar, essa paz que Ele mesmo proporcionou aos seus discípulos e a nós, que o amamos e servimos, quando disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (João 14.27).
     Essa é a paz que milhões de moradores da cidade do Rio de Janeiro desconhecem; a paz que os filhos de Belial desconhecem; paz que transborda paradoxalmente e em plenitude até no interior de casebres situados nas sub-humanas periferias do Rio, onde moram pessoas simples, mas que têm Jesus entronizado e reinando soberano em seus corações.
     Os filhos de Belial se aproximaram da moça que caminhava com os pais e anunciaram um assalto. Ela era uma estudante, com seu coração de estudante; seu pai, um porteiro, com seu coração de pai; sua mãe, uma comerciária, com seu coração de mãe. Dentro de instantes o coração de ambos será traspassado ao verem a filha ser baleada e morta diante deles.
     Os filhos de Belial pegaram todos os pertences das vítimas. Dentro da bolsa, que foi para as mãos ensanguentadas e sujas de um deles, estava o crachá e a Bíblia de Karla. Ela era uma estagiária, e uma evangélica que amava a Palavra de Deus. Pediu de volta o seu crachá e sua Bíblia. O crachá de estagiária dava-lhe a esperança de um dia tornar-se funcionária da Caixa Econômica Federal; a Bíblia ensinava-lhe o caminho da eternidade com Deus, e dava-lhe a certeza de que um dia se tornaria cidadã do Céu.
    O filho de Belial devolveu-lhe a Bíblia, e quando Karla abraçou o livro insubstituível e virou-se para ir embora, um tiro na nuca mudou a trajetória de sua viagem. Agora Karla não iria mais para o Rio Comprido. Agora atravessaria o Rio Jordão, rumo à Jerusalém celestial.
     Adeus, Karla. Nós abominamos a maneira brutal como sua vida foi prematuramente ceifada. Não só abominamos, como também cremos que só a mensagem de Jesus Cristo pode transformar filhos de Belial em filhos de Deus, e parar esse tsunami de violência que se tem abatido sobre o Rio de Janeiro.
     Capital da violência, os teus pecados já não te deixam ser aquela cidade maravilhosa de tempos idos. Os teus encantos mil estão ameaçados por essa atual geração de filhos sanguinários, filhos de Belial, que espalham por tuas ruas, teus morros e tuas praças a insegurança e o medo, e ensanguentam tua bela paisagem.
     Capital da violência, tu não terás mais o sorriso de Karla, os sonhos de Karla, os filhos de Karla que não nasceram, as palavras apaixonadas que Karla diria ao esposo que ela não teve, mas que a amaria e a faria feliz. Tu não és digna deles. Ela tornou-se agora moradora da Jerusalém eterna, e como uma diplomata celestial, passou a viver entre os anjos e os bem-aventurados servos do Senhor, que já alcançaram a altíssima paz.
     Nós, seus irmãos evangélicos, jamais a esqueceremos, Karla. E um dia nos encontraremos. Descanse eternamente na companhia de Deus.
Jefferson Magno Costa

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