sábado, 17 de abril de 2010

UMA ASSOMBROSA DESCIDA AO INFERNO

Jefferson Magno Costa    
    Sempre desejei, apesar dos meus limitadíssimos recursos intelectuais, escrever uma série de estudos sobre os grandes monumentos literários da humanidade, as obras que, por estarem na lista dos livros que mais influenciaram positivamente os leitores do mundo inteiro, todo evangélico deveria ler antes de ir para o Céu.
     Observem que eu disse deveria, e não deve. Nem todo crente se interessa por literatura. Há muitos que não trocariam o seu jornalzinho das sete ou sua novelinha das oito nem pela leitura de O Peregrino ou de O Paraíso Perdido, e alguns não deixariam de assistir esses programas de televisão para ler a própria Bíblia.
     Nosso propósito seria despertar a atenção dos leitores para as imensas riquezas que existem nesses livros. Mesmo que muitos deles não tenham sido escritos dentro de uma temática estritamente cristã, contêm informações utilíssimas para quem prega ou ensina a Palavra de Deus.
     Estou falando dos clássicos universais, e especialmente dos livros detentores de amplas riquezas teológicas e altíssima inspiração bíblica, os tesouros que os chamados “pais da Igreja” escreveram ao longo dos seis primeiros séculos do cristianismo.
     Muitas dessas obras nos convidam a uma vida de experiências profundas com Deus, e nos ensinam a conquistá-la; descrevem de maneira única as belezas do Céu, e descem conosco aos labirintos da alma humana para nos ensinar a desvendá-la.
     Quase todos contêm páginas de altíssima e legítima inspiração, trechos que valem por muitos livros chatos, medíocres e soníferos publicados atualmente, e que por diversas razões somos obrigados a ler hoje.
      Descendo do alto de sua cultura e sabedoria imensas, cuja sublimidade e profundidade levaram o próprio apóstolo Pedro a tecer um comentário em uma de suas cartas (2a. Pedro 3.15,16), o apóstolo Paulo nos aconselhou: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5.21).
     Já que não disponho de tempo nem de capacidade intelectual para executar a gigantesca tarefa de analisar esses monumentos literários (nem mesmo parte deles), examinarei rapidamente, com o propósito de retirar ensinamentos que nos edifiquem e nos tornem melhores servos de Deus, e informações úteis para a preparação de uma aula ou de uma pregação, aquele que é considerado “o maior poema da literatura universal”, A Divina Comédia.
     Antes de qualquer outra observação, é necessário esclarecer que, na época em que viveu o seu autor, Dante Alighiere (1265-1321), o maior poeta italiano de todos os tempos, a palavra comédia não significava tão-somente o que ela significa hoje: uma representação cômica, cujo enredo é composto de situações ridículas ou escandalosas, e cujo propósito é fazer rir. Segundo uma definição do filósofo grego Aristóteles, comédia podia ser também um poema alegórico, que retrata a aventura da vida.
     No caso de Dante Alighiere, ele relata no seu gigantesco e imortal poema sua viagem pelos três reinos do outro mundo: o Inferno, o Purgatório (o poeta era de confissão católica romana, e esse fato o levou a produzir para nós uma curiosa descrição desse lugar que só existe no imaginário dos católicos romanos, sem nenhuma base bíblica), e o Paraíso.
     Antes de analisarmos A Divina Comédia, cabe observar que o gênero alegórico citado por Aristóteles “consiste em representar pensamentos, idéias, qualidades sob forma figurada” (Dicionário Houaiss), ou personificada, criando-se geralmente uma figura humana para representar esses elementos, conforme o escritor inglês evangélico John Bunyan fez nas páginas do grande livro O Peregrino, publicado na Inglaterra em 1687, e um dos grandes sucessos de venda da Editora Central Gospel.

O POETA QUE "VISITOU" O INFERNO E O PARAÍSO

Da nossa vida, em meio da jornada,
achei-me numa selva tenebrosa,
tendo perdido a verdadeira estrada.


     Com esses três famosíssimos versos, Dante Alighiere inicia essa que é considerada a mais importante obra da literatura italiana, e um dos 12 maiores poemas épicos de todos os tempos, o poema clássico A Divina Comédia.
     O termo épico é usado para os grandes poemas que relatam uma ação heróica, de “intensidade ou grandeza fora do comum; algo fantástico, desmedido, grandioso, memorável”, segundo definição do Dicionário Houaiss.
     Os outros 11 maiores poemas épicos do mundo são: Os poemas religiosos hindus Mahabharata (em sânscrito: “A grande índia”; com 90 mil versos, constitui o maior volume de texto já criado pelo ser humano em uma única obra literária. Foi escrito por Davapayana Vyasa, no ano 1.000 a.C.), e Ramhaiana (em sânscrito: “A viagem do príncipe Rama”. Escrito por Valmiki no ano 500 a.C.); os poemas gregos A Ilíada (a batalha dos gregos contra Tróia), e A Odisséia (a volta do guerreiro Ulisses para casa após a guerra de Tróia), escritos por Homero 800 anos a. C.; o poema espanhol O cantar de Mio Cid (o mais antigo — e único — poema épico espanhol); os poemas italianos Orlando Furioso (ou “A loucura de Orlando”, escrito por Ludovico Ariosto em 1516), e Jerusalém Libertada (escrito em 1580 por Torquato Tasso, sobre o tema das Cruzadas); o poema português Os Lusíadas, sobre as grandes navegações, publicado por Luís Vaz de Camões em 1572; O Paraíso Perdido, publicado pelo poeta inglês John Milton em 1667, narrando a rebelião de Satanás e sua queda; o poema alemão Fausto, publicado por Goethe em 1832, que conta a história de um homem que vendeu sua alma ao diabo; e o poema A Tragédia do Homem, escrito pelo poeta húngaro Imri Madách em 1861, narrando a queda de Adão e Eva, e sua restauração por Jesus Cristo na cruz do Calvário.
     Das quatro traduções da obra-prima de Dante Alighieri (A Divina Comédia) para a língua portuguesa, a que melhor preserva a musicalidade, a majestosidade e o tom épico do poema no original italiano é a do maranhense J.P. Xavier Pinheiro.
     Começando a escrever A Divina Comédia quando tinha 35 anos de idade, Dante, que era estudioso da filosofia escolástica e profundo conhecedor da Bíblia, alicerçou o primeiro verso do seu poema (“Da nossa vida, em meio da jornada”, ou, traduzindo na ordem direta: “No meio da jornada da nossa vida”) no versículo 10 do Salmo 90, que diz:
     “A duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado, pois passa rapidamente, e nós voamos.”
     Porém, Dante não gozou de robustez suficiente para alcançar os 80 anos, e sequer alcançou os 70: morreu de malária aos 56 anos de idade, em pleno exílio, e pouco tempo depois de haver concluído A Divina Comédia. Porém, passados mais de 700 anos, entre todos os gênios da literatura universal, poucos poetas são hoje tão admirados, estudados e comentados como Dante Alighieri.
     Sua obra foi traduzida para todos os idiomas modernos, e em várias universidades do mundo existem cursos criados para estudar exclusivamente o seu poema imortal.


EU TAMBÉM JÁ TIVE MINHA EXPERIÊNCIA DE VISITAÇÃO AO "INFERNO"
     Em 1976, eu tinha 20 anos de idade e servia à Marinha no Grupamento de Fuzileiros Navais de Natal (RN). Naquela época, nós, jovens simples e de almas ingênuas, oriundos de cidadezinhas do interior, temíamos e respeitávamos nossos comandantes (Capitães de Fragata e Capitães de Mar-e-Guerra) como se eles fossem semideuses.
    Os almirantes, que raramente tínhamos o assombroso privilégio de ver, ultrapassavam a categoria da “divindade”. Quando nós, na ingenuidade e no verdor dos nossos anos, víamos um, ficávamos embasbacados diante daquele símbolo de poder e autoridade. Pelo menos era essa a impressão que nossos instrutores incutiam em nós, durante o Curso de Formação de Soldados.
     Fui o primeiro colocado nesse curso. Porém, já soldado formado, e preparando-me, ainda em Natal, para o curso de cabo e em seguida para o de sargento no Rio de Janeiro, em um episódio ocorrido durante uma rendição de guarda, vários de nós, soldados, fomos tratados com rispidez aviltante e esmagadora pelo sargento que comandava a guarnição.
     Eu e alguns reagimos contra-argumentando veementemente, pois tínhamos certeza de que não havíamos errado.
    Contudo, naquela época não era permitido argumentar daquele modo. Aquilo era considerado desacato à autoridade. Resultado: nossos nomes entraram no Livro de Ocorrências, fomos levados à presença do Capitão de Fragata que nos comandava, e ele nos puniu com três dias de prisão rigorosa.
     Fomos colocados em celas que existiam (ou ainda existem) dentro do Grupamento do CFN, em Natal. Naquela época eu já lia muito. Fui para a cela levando comigo um pequeno exemplar do Novo Testamento, edição dos Gideões, e o meu exemplar de A Divina Comédia.
     No poder da imaginação dos meus 20 anos de idade, associei imediatamente aquela situação e aquele lugar ao Inferno descrito pelo poeta Dante Alighiere no seu poema. É claro que, comparada ao Inferno que o poeta italiano descreveu, aquela cela era quase o Paraíso.
     Porém, eu quis registrar nas paredes brancas do meu “inferno” minha passagem por ali. Usando um carvão, escrevi em uma parede os três tercetos (nove versos) que Dante disse que viu escritos na face lisa de um pedra gigantesca e escura, na entrada do Inferno.
     O Inferno se apresentava às almas condenadas, aos “hóspedes” que chegavam aos milhares para sofrer eternamente ali, usando as seguintes palavras:


Por mim se vai das dores à morada,
Por mim se vai ao padecer eterno,
Por mim se vai a gente condenada.


Moveu justiça o Autor meu sempiterno,
Formado fui com divinal possança,
Sabedoria suma e amor superno.


No existir, ser nenhum a mim se avança,
Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!
(A Divina Comédia, Inferno, canto III, versos 1-9)


     De certa forma, aquelas palavras escritas a carvão na parede daquela cela, eram uma espécie de protesto por eu ter sido colocado injustamente ali. As reclamações e o quase choro de alguns amigos que comigo estavam fizeram-me lembrar de outro terceto do poema imortal de Dante Alighiere:


Por esse ar sem estrelas irrompia
Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
Também meu pranto, de os ouvir, corria.


A MORADA DO SOFRIMENTO ETERNO
     A seguir, apresentarei algumas descrições que o genial poeta italiano Dante Alighiere (1265-1321) fez de sua visita ao Inferno, e encerro este artigo. Deixo o leitor livre para explorar as duas outras partes do poema, especialmente a do Paraíso.
     Que sua curiosidade o impulsione a fazer a inesquecível e impressionante leitura dessa obra que é considerada um dos mais ricos monumentos da literatura universal
     O poeta visitou os nove círculos que compõem o Inferno (sua engenharia o levou ao número nove devido ao fato de Dante ter alicerçado todo o seu poema sobre o número três, que representa a Trindade).
     Eis, a seguir, alguns trechos nos quais Dante descreve a situação dos condenados a viver eternamente longe de Deus (os que morreram em estado de indiferença diante do bem e do mal):


Línguas várias, discursos insofridos,
Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,
Rumor de mãos, de punhos estorcidos,


Nesses ares para sempre enevoados
Retumbavam girando, e semelhando
Areias por tufão atormentados.
(Inferno, canto III, estrofes 9-10)


     O grande poeta romano Virgílio, que acompanha e orienta o poeta italiano em sua viagem pelo Inferno e Purgatório (este último, lugar de sofrimentos intermediários, fantasisticamente criado pelo catolicismo romano), explica-lhe por que aquelas pessoas estão naquela situação:


“Desse mísero modo” – tornou – “chora
Quem viveu sem jamais ter merecido
Nem louvor, nem censura infamadora”.


“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
Que rebeldes a Deus não se mostraram,
Nem fiéis, por si sós havendo sido.”


“Desdouro aos Céus, os Céus os desterraram;
Nem o profundo Inferno os recebera,
De os ter consigo os maus se gloriaram.”


Que dor tão viva deles se apodera,
Que aos carpidos motivo dá tão forte? –
serei breve em dizer-to” – me assevera. – .


Não lhes é dado nunca esperar morte;
É tão vil seu viver nessa desgraça,
Que invejam de outros toda e qualquer sorte.


No mundo o nome seu não deixou traça;
A Clemência, a Justiça os desdenharam.
Mais deles não falemos: olha e passa.


     Conduzido por Virgílio, Dante Alghieri continua a caminhar pelas vastas e tenebrosas regiões do Inferno. A certa altura, ao contemplar a incontável multidão de pessoas condenadas ao castigo eterno, comenta:


Que destruído houvesse tanta gente
A morte, acreditado eu não teria.


... as torturavam
De vespas e tavões as ferroadas.


Os rostos seus as lágrimas regavam,
Misturadas de sangue: aos pés caindo,
A imundos vermes o repasto davam.
[...]
Blasfemaram de Deus e maldisseram
A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem
Da origem sua, os pais de que nasceram.
[...]
Assim de Adão a prole pervertida
Da praia um após outro se enviavam.
[...]


Aqui, meu filho – disse o mestre amado –
Concorrem quantos há colhido a morte,
De toda a terra, tendo a Deus irado.
[...]
Alma inocente aqui jamais transita.


     Vale a pena o esforço do leitor para ler esse poema completo. Para mim, valeu.
Jefferson Magno Costa

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