sábado, 24 de abril de 2010

O DEUS QUE SE FAZ PRESENTE NA CONSCIÊNCIA DO SER HUMANO

Jefferson Magno Costa    
A certeza da existência de Deus e a necessidade de render-lhe culto é a primeira grande inclinação do espírito e do coração humanos. Elevando o seu pensamento na busca da causa de sua existência e de tudo o que ele contempla no êxtase da admiração, o homem banha a fronte nos raios da glória do Onipotente, e curva-se ante a majestade infinita do seu Criador. Tudo fala de Deus ao seu pensamento e ao seu coração.
     "Há um Deus", é a voz que ecoa no íntimo de sua consciência. Como diz o inspirado autor de O Gênio do Cristianismo, o francês René Chateaubriand (1768-1848), "as ervas do vale e os cedros da montanha o glorificam, o inseto sussurra os seus louvores, o elefante o saúda ao nascer do sol, o pássaro o canta na folhagem, o raio manifesta o seu poder, e o oceano declara a sua imensidade." (René Chateaubriand. O Gênio do Cristianismo. Tradução de Camilo Castelo Branco. 3a edição, Porto, Cruz Coutinho, 1874, Vol. 1, p. 102.)
     E o homem o adora, fala com Deus em oração. Nota harmoniosa que se ergue da terra para as alturas do infinito, a oração do ser humano é a sua grande escada para subir a Deus. 
     Porém, a súplica não é somente o impulso do coração desejoso de socorro, de forças e de consolo para as dores do corpo e da alma; ela tem sido, desde os mais remotos tempos, a expressão de uma fé instintiva ou refletida, obscura ou clara, vacilante ou firme, na existência, na presença, no poder e na misericórdia do Deus supremo a quem essa oração é dirigida.
     Ela é a expressão do sentimento da existência de um laço permanente que une a humanidade ao seu Criador, laço esse cujas raízes se encontram na voz da consciência.

CONSCIÊNCIA: INSCRIÇÃO DE DEUS NA ALMA
     A consciência é, na verdade, a inscrição que Deus gravou na alma do ser humano com letras lapidares, inapagáveis, infalsificáveis. Todo homem nasce trazendo dentro de si essa voz interior.
     Todos os seres humanos, mesmo aqueles de consciência cauterizada, ou que tenham tido uma educação má, ou sejam produto de um meio social corrompido, conhecem o que é certo e o que é errado, e sabem muito bem que ambos não são a mesma coisa.
     É a consciência que os acusa diante da prática do mal (mesmo que muitos não dêem ouvidos a essa acusação) e os aprova pela prática do bem.
     Essa diferença entre o bem e o mal é independente da vontade e dos caprichos humanos. O bem, uma vez reconhecido pelo homem como dever, exige cumprimento incondicional — ao mesmo tempo que proíbe absolutamente a prática do mal, por mais belo e sedutor que este se apresente.
      A consciência nos diz, portanto, que temos obrigação de praticar o bem e de evitar o mal. Ora, se não existe, conforme afirmam os ateus, um Ser Supremo, infinitamente bom e santo, que aprova o bem e reprova o mal, de onde vem essa voz, ou quem a colocou dentro dos seres humanos?
     O senso do dever moral presente em nossa consciência é uma das formas como Deus se manifesta a cada pessoa. O sentimento de obrigação que leva os seres humanos a fazerem aquilo que eles julgam certo é, na verdade, a pressão indireta (em suas consciências) do Criador sobre suas criaturas, impulsionando-as para o bem.
     Aliás, todos aqueles que conhecem a Deus são esforçados na prática do que é correto, do que é bom.
Jeremias, profetizando contra Jeoaquim, rei de Judá, fala a respeito dos homens de consciência cauterizada, e apresenta um exemplo de alguém que conhecia a Deus — o pai do rei Jeoaquim:
     "Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho. Ele diz: Edificarei para mim uma casa espaçosa, e largos aposentos. De modo que lhe abre janelas, forra-a de cedros e a pinta de vermelho. Reinarás tu, só porque procuras exceder no uso do cedro? Acaso o teu pai não comeu e bebeu, e não exercitou o juízo e a justiça? Por isso lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do necessitado, e por isso lhe sucedeu bem. Não é isto conhecer-me? diz o Senhor" (Jeremias 22.13-16).

QUEM NOS IMPULSIONA PARA O BEM?
     Segundo o que o próprio Deus declarou em Gênesis 8.21: "... é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade" (ARA), a natureza humana está inclinada para a prática do que é desagradável ao Senhor.
     Diante disto, somos levados a concluir que aquilo que impulsiona uma pessoa a praticar algo contrário à sua própria natureza, ou seja, o bem, deve obrigatoriamente proceder de alguém que lhe é superior.
     Se fosse o homem o autor dessa lei, dessa força, ele poderia entregar-se à prática de tudo quanto é ruim, e depois ir dormir tranquilamente. Mas não o pode. Quando o homem deixa de obedecer a essa lei, ouve dentro de si uma voz insistente que o reprova, acusando-o de ter praticado o mal. Essa voz, que ressoa em sua consciência é mais uma das provas da existência de Deus.
     O célebre poeta alemão Johan Wolgang Goethe (1749-1832) escreveu em um de seus poemas:

Baixinho nos segreda Deus no peito,
Baixo sim, mas bem claro nos indica
O que evitar, o que fazer devemos.

     Esse mesmo Goethe perguntou em um trecho de um de seus livros, quando falava sobre a existência de Deus:
"Não sentes no coração a ação de uma força desconhecida que paira à tua volta, visível num mistério invisível? Enche com ela a tua alma, e quando tiveres achado a felicidade neste sentimento, chama-lhe o que quiseres; chama-lhe alegria, paz, amor: eu chamo-lhe Deus!" (J. Pantaleão Santos, in Deus: As Mais Belas Afirmações em Prosa e Verso. Petrópolis, Vozes, 1963, p. 72.)

A CERTEZA DA EXISTÊNCIA DE DEUS DENTRO DE NÓS
     Portanto, a certeza da existência de um Ser infinito e perfeito foi colocada dentro do homem, essa criatura finita e imperfeita. Essa ideia que todos temos do Ser infinitamente perfeito é que nos faz reconhecer as imperfeições que se acham em todas as criaturas.
     Pela ideia que temos acerca da existênia desse Ser infinito, concluímos que nenhuma coisa, de todas quantas nos cercam, lhe é igual, e somos levados a distinguir o mal e o bem. Essa idéia é a manifestação de Deus dentro de nós.
     Pois só Deus teria poder para colocar dentro do homem algo que é contrário à sua inclinação, algo que está acima de sua natureza, e é infinitamente superior ao seu entendimento.
     "Eis aqui o espírito do homem (escreveu o filósofo francês Fénelon): débil, incerto, limitado, cheio de erros. Quem tem posto a ideia do infinito e do perfeito em um ser tão limitado e tão cheio de imperfeições? Quem tem posto em mim essa ideéia do infinito? Ela está em mim, mas não sou eu." (François de Fénelon. Demonstração da Existência de Deus. Porto, Tipografia de Manoel José Pereira, 1871, p. 83.)
     Muitos filósofos e teólogos têm falado dessa voz existente na consciência do ser humano, onde Deus manifesta a sua vontade; têm falado desse ponto em que Deus toca a alma para suspendê-la até ao conhecimento dele. O inspiradíssimo Agostinho, expressando-se à semelhança de um simples pecador destituído da graça de Deus, colocou em seus próprios lábios as palavras que esse pecador, distante dos caminhos eternos, pronunciaria:
     "Há dentro de mim mesmo uma profundidade que não conheço e que tu conheces, Senhor, profundidade que não é mais que trevas, até converter-se em luz, sob o resplendor da tua face!" (Aurélio Agostinho, citado por August Gratry, in De la Connaissance de Dieu. Huitiéme edition. Tome Premier, p. 32, Téqui, Libraire-Editeur, Paris, 1903, p. 238.)

ORAÇÃO ANTES DA MORTE
     A oração que se segue foi encontrada no bolso de um soldado norte-americano desconhecido. Ele tombou em pleno campo de batalha, estraçalhado por uma granada. Dele só havia restado, intacta em um de seus bolsos rasgados e ensanguentados, uma folha de papel contendo esta oração em forma de poema.
     Tendo sido um homem que antes jamais se preocupara com Deus ou com o destino de sua alma na eternidade, o que o teria levado a pensar no seu Criador horas antes de morrer, senão a voz da consciência, e o testemunho da Criação?

Escuta Deus:
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te. Bom dia, como vais?
Sabes, disseram que tu não existes,
e eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado a tua obra.
Ontem à noite, da trincheira rasgada por granadas
vi teu céu estrelado
e compreendi então que me enganaram.
Não sei se apertarás a minha mão.
Vou te explicar e hás de compreender.
É engraçado: neste inferno hediondo causado pela guerra
achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto, já não tenho muita coisa a te contar:
só que... que... tenho muito prazer em conhecer-te.
Faremos um ataque à meia-noite.
Não sinto medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! é o clarim! Bem, Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou ter saudades... Quero dizer:
será cruenta a luta, bem o sabes,
e esta noite pode ser que eu vá bater à tua porta!
Muito amigos não fomos, é verdade.
Mas... sim, estou chorando.
Vês, Deus, penso que já não sou tão mau.
Bem, Deus, tenho que ir. Sorte é coisa bem rara.
Juro, porém: já não tenho medo da morte.

(Raimundo Cintra e Rose Marie Muraro. As Mais Belas Orações de Todos os Tempos. Rio de Janeiro. Livraria José Olímpio Editora, 2S edição, 1970, p. 139)
     A voz da consciência, a chamada lei moral, existe dentro de cada ser humano, recriminando-o pela prática de más obras e proclamando a existência de Deus.
     O orador romano Cícero chamou a atenção de todos para o fato de não existir uma lei natural em Roma, outra em Atenas, outra agora, outra depois, mas uma eterna e imutável lei, que se estende a todos os povos e em todos os tempos. E também de Cícero a seguinte observação:
     "Os verdadeiros sábios estão sempre convencidos de que a lei moral não é uma invenção humana, mas eterna, e é a regra do Universo... Todo o fundamento da lei moral se acha em Deus, que ordena e que proíbe." (Marco Túlio Cícero, no livro De Legibus, II, 4, apud Francesco Gaetani. Op. Cit. p. 143.)

DESEJO DE ETERNA FELICIDADE
     Além de existir dentro do homem essa voz que reprova suas más ações, e a ideia de que acima de nós há um Ser superior e perfeito, devemos nos lembrar também que dentro de toda pessoa existe um desejo de total felicidade.
     Porém, conforme tem demonstrado a experiência humana, não é possível chegar-se à plena felicidade aqui na Terra. Deve existir então alguma coisa ou um Ser capaz de satisfazer essa sede de felicidade, pois a natureza não criaria algo impossível de ser atingido.
     Conclui-se, portanto, que a felicidade pela qual todos anseiam, existe. Não nas coisas criadas, e sim fora deste mundo há um Ser com totais poderes de satisfazer plenamente o desejo de felicidade dos seres humanos. Este ser é Deus.
     Foi ele quem colocou no coração do homem o desejo de felicidade eterna. É por esse motivo que o ser humano vive sempre faminto de algo que está além do mundo e muito acima dele mesmo.
     Na tentativa de satisfazer esse anseio, muitas vezes as pessoas mergulham nos prazeres que o mundo lhes oferece; porém, no fim de tudo elas sempre se sentem frustradas, e reiniciam sua busca de felicidade eterna, como um prisioneiro que mede todos os limites de sua prisão, e conta, com impaciência, todas as horas do seu exílio.
     O ser humano sempre buscará a Deus em todos os tempos, por todos os caminhos e no mais profundo de sua consciência. Porém, apesar de estar ciente de que a Natureza, além de o sustentar com suas dádivas e sua força, tem sido dominada em parte pela tecnologia e está a serviço da humanidade, o homem sabe que através dela não conseguirá descobrir qual é a finalidade de sua existência.
     Na própria sociedade onde vive, e na qual busca proteção, ele reconhece que corre o perigo de ser aniquilado. Nela, o ser humano também não conseguirá saber qual é a razão de sua vida.
     Se ele tivesse sido dotado de poderosas asas que lhe permitissem voar, certamente seu desejo de desvendar o Mistério o conduziria às moradas do Altíssimo, às regiões superiores onde vive Aquele que exerce domínio sobre todas as coisas.
     Sua consciência lhe diz que há um Deus soberano, oculto na obscuridade do Mistério, mas sua inteligência limitada, finita, não pode chegar até ele. O escritor francês Littré expressou esse desejo e essa insatisfação do ser humano ainda não alcançado pela graça, ao escrever:
     "O Absoluto, o Infinito é como um oceano que vem bater às nossas praias, para o qual não temos nem barcos nem asas."
     Porém, esse "barco", essas "asas" sobre os os quais fala Littré poderão ser dados ao homem por Jesus Cristo. Ele é a maior revelação de Deus à humanidade, a única resposta a todos os anseios do ser humano, o único caminho que conduz a Deus: "... Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim", disse Jesus (João 14.6).
     Deus fez uso de vários meios para testemunhar de sua existência ao ser humano, porem, de nenhum desses meios ele fez um caminho de salvação, a não ser através de seu Filho Jesus Cristo. Encerramos este artigo citando a bela oração do escritor inglês Martineau (1802-1876):
     "Ó Deus, que és, que eras e que hás de ser, perante as gerações que se levantam e passam; de geração em geração os vivos te buscam, e sabem que tua fidelidade não tem fim. Tu, fonte única da paz e da justiça, tira o véu de todo o coração, e une a todos nós em verdadeira comunhão com os teus profetas e santos, que confiaram em ti e não foram decepcionados..." (Citado por Leonel Franca, in O Problema de Deus. 2a. edição, Rio de Janeiro, Livraria Editora Agir, 1955, p. 58.)
Jefferson Magno Costa

2 comentários:

  1. SIMPLESMENTE SENSACIONAL!
    A DESCRIÇÃO DESSE MARAVILHOSO DEUS QUE ESTÁ DENTRO DE NÓS, QUE AS VEZES É IDENTIFICADO COMO "CONSCIENCIA", QUE NOS CONDUZ A PRÁTICA DO BEM E NOS ALERTA QUANDO PRATICAMOS ALGO ERRADO. A PONTE QUE LIGA O HOMEM A DEUS, QUE SE CHAMA JESUS CRISTO, E A ORAÇÃO, QUE NOS LEVA A DIALOGAR COM O PAI CELESTIAL. MAGNÍFICO TEXTO, MUITO BOM!

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  2. Muito obrigado por ter identificado algum mérito nesse meu artigo, prezada irmã Neide. Foi para pessoas esclarecidas e sensíveis como a irmã que eu o escrevi.

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