sábado, 15 de janeiro de 2011

A SABEDORIA POPULAR NA ANTIGA POESIA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Jefferson Magno Costa
     
     Estive, nesses últimos dias, transferindo meus livros de um endereço para outro, e enquanto manuseava os milhares de exemplares antigos que há mais de 30 anos enchem minha vida de indefinível prazer e renovadas surpresas, achei um livrinho que adquiri há muitos anos, cheio de trovas populares, impresso há quase um século em Portugal: Cancioneiro de Entre Douro e Mondego.
     Seu autor, Arlindo de Sousa, passou mais de 15 anos recolhendo da boca dos habitantes do litoral português da Beira e do Douro, e das páginas de antigos e esgotados livros portugueses, as 1000 trovas que reuniu no seu livro. Em um desses dias trágicos e despoetizados, reli o livro e resolvi brindar o leitor com algumas dessas trovas.
     Vale lembrar que a trova é um poema composto unicamente de quatro versos. É dentro desse estreitíssimo espaço que o trovador terá de expressar um sentimento ou declarar um conceito.
     Seguirei a mesma ordem alfabética de assuntos que Arlindo usou para classificar as trovas.
    Eis duas amostras do que a sabedoria e o doce lirismo dos nossos antigos colonizadores portugueses guardaram sobre o amor:

Alegria dos meus olhos
É ver a quem quero bem.
Quando não vejo quem quero,
Não quero ver mais ninguém.
-------------------
Eu o sol, e tu a sombra.
Qual de nós será mais firme?
Eu, como o sol, a buscar-te,
Tu como a sombra, a fugir-me.

     Àqueles que só sabiam olhar os defeitos dos outros, mas se esqueciam de olhar os seus, os antigos portugueses lembravam:

Na minha porta faz lama,
Na tua faz um lameiro.
Antes de falares de mim,
Olha para ti primeiro.

     Às jovens incautas, as sábias mães e avós lusitanas aconselhavam:
Menina, não se enamore
De homem que enviuvou:
Não queiras criar os pintos
Que outra galinha chocou.
-----------------------
Menina, não se enamore
De homem casado, que é perigo;
Enamore-se de um solteiro
Que possa casar consigo.
----------------------
Tens juízo, não descubras
A tua vida a ninguém.
Uma amiga tem amiga,
Outra amiga amiga tem.
----------------------
Ninguém descubra o seu peito,
Por maior que seja a dor.
Quem o seu peito descobre
De si mesmo é traidor.

     Povo de antiga tradição religiosa entranhada no catolicismo, os portugueses deixaram marcas inapagáveis (e impagáveis) nos países que sofreram sua colonização. Variando do sábio ao hilariante, eis algumas amostras do múltiplo perfil religioso do povo lusitano:

O Diabo leve os homens
Enfiados num cordel:
O primeiro seja António,
O segundo, Manuel.
------------------------
O pouco que Deus nos dá,
Cabe, ás vezes, numa mão fechada.
O pouco, com Deus, é muito,
O muito, sem Deus, é nada.
--------------------------
Em Belém, à meia-noite,
Noite de tanta alegria,
Da aurora nasceu o Sol,
Nasceu Jesus de Maria.
-----------------------
Aquela menina chora;
Chora porque eu a enganei...
Neste mundo, chora ela;
No outro, eu chorarei.

     No quesito fidelidade em questões amorosas, os portuguses nos deixaram trovas cheias de sabedoria:

Nem no mundo há dois mundos,
Nem no Céu há dois Senhores,
Nem o meu coração pode
Ser leal a dois amores.
-----------------------
O coração que a dois ama
(Eu a dois não posso amar!)
O coração que a dois ama
A algum há de falsear.

     A vinda dos colononizadores para o Brasil deixou imensas saudades no coração do povo português:
Ó Senhora da Saúde,
Deixai o meu Manuel
Vir das terras do Brasil
Num barquinho de papel.   
-------------------
Ó passarinho voante,
Vou-te pedir um favor,
Que me leves uma carta
Ao Brasil, ao meu amor.
-------------------
Ó meu rico São João,
Ó meu santo marinheiro,
Levai-me na vossa barca
para o Rio de Janeiro!
--------------------
Se fossem pedras os prantos
Que eu por ti tenho chorado,
Já tinha feito uma ponte
Pra passar para o outro lado.
---------------------
Quem inventou a partida
Não sabia o que era amar:
Quem parte, parte sem vida,
Quem fica, fica a chorar.

     Quando se tratava de dizer palavras lisonjeiras à pessoa amada, os portugueses eram exímios galanteadores:
O meu amor é um anjo.
Deu-mo Deus, não o mereço.
Já mo quiseram comprar:
Anjos do Céu não têm preço.
--------------------
Para ser linda uma mulher,
Como as rosas em botão,
Basta que tenha os teus olhos...
Tão bonitos eles são!

     Mas a sabedoria popular portuguesa também não deixou de compor trovas que o desprezo inspirou na pessoa desprezada:

Meu amor aborrecido
Ensina-me a tua arte:
Ensina-me a aborrecer,
Que eu não sei senão amar-te.
-----------------
Você diz que não me quer...
Diga-me você: Por quê?
Diz você que eu sou pobre...
Que riqueza tem você?
-------------------
Carvalho que dás bogalhos,
Por que não dás coisa boa?
- Cada qual dá o que tem,
Conforme a sua pessoa.
-------------------
Você diz que não me quer;
Inda há de vir a me querer...
Tanto bate a água na pedra
Que a faz amolecer...

     O amor materno inspirou belíssimas trovas. Eis duas delas:

Quem tem filhos pequeninos
Por força, há de cantar...
Tanta vez uma mãe canta
Com vontade de chorar!...
-----------------------
Uma mãe que cria um filho
Muitas vezes põe-se a chorar,
Só por não saber a sorte
Que Deus tem para lhe dar...

    A profunda consciência da inexorabilidade da velhice e da morte inspirou as duas trovas com as quais encerro este breve ensaio sobre a sabedoria popular que os nossos antigos colonizadores portugueses deixaram espalhada em sua poesia:

Tudo o que é verde, seca,
Lá no meio do verão...
Tudo torna a renovar,
Só a mocidade, não.
---------------------
Ó morte, ó negra morte,
de ti tenho mil queixas,
Quem hás de levar, não levas,
Quem hás de deixar, não deixas.

     Até o próximo ensaio.

Jefferson Magno Costa

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Todos os artigos relacionados ao amor que escrevi neste blog
      foram inspirados em um nome: DAMARIS.

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