quinta-feira, 4 de novembro de 2021

SEGREDOS DOS GRANDES ESCRITORES

Jefferson Magno Costa

1º SEGREDO:
Antes de verem o primeiro de seus livros publicado, os escritores que obtiveram mais sucesso, exerceram maior influência e marcaram para sempre a história da literatura, tornaram-se grandes conhecedores da língua que usaram.

       Ninguém hoje espere ingenuamente tornar-se grande escritor sem antes se esforçar para conhecer as regras e as riquezas expressionais de sua língua. Quanto a esta necessidade básica, o gramático Napoleão Mendes de Almeida fez uma oportuna advertência no prefácio de sua Gramática Metódica:
     “Conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão de todo brasileiro que preza sua nacionalidade. É erro de consequências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.”
     Todavia, não é minha intenção deixar subentendido aqui que só escrevem bem aqueles que possuem conhecimentos gramaticais tão sólidos como os de um Napoleão Mendes de Almeida, os de um Celso Cunha ou os de um professor Pasquale Cipro Neto, e outros. Não cheguemos a tanto; a não ser que tenhamos inegável vocação para o estudo específico da língua, conforme tiveram os pastores Eduardo Carlos Pereira e Vittorio Bergo, autores de gramáticas e de outros trabalhos de natureza filológica nacionalmente reconhecidos.
     "Dicionarista e gramático não são sinônimos de bom escritor. Tem-se observado, por exemplo, que os grandes dicionaristas, os grandes gramáticos, embora conhecendo todos os recursos da palavra, todos os processos que levam uma pessoa a escrever bem, raramente são grandes escritores”, foi o que nos lembrou o filólogo português Cândido de Figueiredo.
     É um fato que todas as histórias das literaturas confirma. Escrever bem requer algo mais do que sólidos conhecimentos linguísticos. Requer sensibilidade, imaginação e um toque pessoal de arte (também conhecido como originalidade). Em uma palavra: talento.
     Portanto, ninguém adquire capacidade e sensibilidade literárias lendo tão-somente gramáticas. O estudo da gramática não é a melhor forma de alguém aprender a amar ou dominar o seu idioma. O estudo da gramática não faz escritor, faz filólogo. Só os grandes escritores são capazes de nos ensinar a escrever bem.
     O melhor, o mais agradável e fecundo caminho para alguém familiarizar-se e passar a amar o seu idioma é lendo os melhores livros dos melhores escritores da literatura que esse idioma produziu. Mas fazer essa leitura não significa que devemos dar um mergulho em milhares de obras; o essencial é que leiamos as melhores.
     Para quem já é ou deseja tornar-se escritor, o amor ao idioma materno é fundamental. O poeta português Antonio Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pela língua portuguesa, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do seu idioma ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:  
 Floresça, fale, cante, ouça-se e viva a portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva;

Se até aqui esteve baixa e sem louvor

Culpa é dos que a exercitam,

Esquecimento nosso e desamor.

       Nós, brasileiros, que produzimos um soneto de exaltação à língua portuguesa, como este belíssimo e perfeito, escrito pelo poeta carioca Olavo Bilac: Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura; Ouro nativo que na ganga impura  a bruta mina entre os cascalhos vela.
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura.


Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo:

Amo-te, ó rude e doloroso idioma!


Em que da voz materna ouvi: “Meu filho”,

Em que Camões chorou no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho.


     Nós, que produzimos, pelas mãos do poeta pernambucano Manuel Bandeira, a mais bela homenagem poética já escrita em língua portuguesa ao maior poeta épico da língua, Luiz Vaz de Camões:
Quando na alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não

                                              [passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.


Gênio purificado na desgraça,

Tu resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado. Em ti brilhou sem jaça

Amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto ecoar o fero canto na mente

Da estirpe que em perigos sublimados,

Plantou a cruz em cada continente,


Não morrerá sem poetas nem soldados

A língua em que cantaste rudemente

As armas e o barões assinalados.


    Nós, repito, que temos um lastro, uma herança tão rica e tão bela composta de obras literárias que vêm sendo escritas por exímios artistas da palavra, estamos hoje, em muitos aspectos, em uma situação de vergonhoso desconhecimento das riquezas do nosso idioma.
     O jornalista maranhense Lago Burnett, que durante muitos anos chefiou a redação de O Jornal do Brasil, descreveu com muita propriedade no seu livro A Língua Envergonhada, a atitude de muitos brasileiros para com essa que é considerada a segunda língua mais rica em sonoridades, a segunda dotada de maior musicalidade, entre todas as que se derivaram do Latim. (Só para os curiosos: a primeira é o italiano). Eis o texto, veemente e irônico, do jornalista:
     "O brasileiro não suporta a sua língua. Se lhe fosse permitido escolher, preferiria qualquer outro idioma, até mesmo o sânscrito, o latim, o hebraico, o iídiche, o patoá, o banto. Conquanto não fosse o português, pouco importaria que se tratasse de língua morta, extinta ou dialeto. Por força do colonialismo cultural, acentuado pela linguagem mercadológica dos veículos de comunicação, de muito bom-grado a opção brasileira recairia sobre o inglês – não o de Oxford, mas o da Praça Mauá.
     "Coramos de pudor, criando situações embaraçosas para nós próprios, toda vez que não conseguimos atinar, de público, com o significado de uma expressão anglo-saxônica, e nos mortificamos de despeito por não conseguir escrever com sotaque nova-iorquino uma ode olímpica à alienação de Ipanema. Não por veneração reverenciamos o idioma de Shakespeare, mas por mera subserviência ao sentimento mercantil do multinacionalismo linguístico." (A Língua Envergonhada. 3a Ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 15).
     E essa situação de vergonha e descaso pela língua portuguesa demonstrados por muitos dos que a usam não é tão recente, conforme alguns poderiam imaginar. De tanto a ultrajarem, a aviltarem, a envilecerem pelo uso desleixado e vergonhoso, os intelectuais de Portugal reagiram e passaram a patrulhar e censurar os maus usuários dessa língua outrora enobrecida por Antônio Vieira, Eça de Queiroz  e Machado de Assis. E foram tão severas as recriminações dos intelectuais portugueses, que o romancista carioca Lima Barreto, em um de seus quatro grandes romances, o Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, levou seu personagem principal a redigir o seguinte e irônico requerimento:
     "Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o Tupi-Guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência a sua emancipação idiomática.


Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida, e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade, pede e aguarda deferimento. "

2º SEGREDO: Os grandes escritores jamais se contentam com a primeira redação dos textos que escrevem. Eles os reescrevem e reescrevem.


     Quando o jornalista Giovanni Ricciardi foi ao apartamento do escritor Miguel Jorge a fim de entrevistá-lo para o livro Auto-retratos (que reúne 23 entrevistas com escritores brasileiros contemporâneos, e foi publicado pela Editora Martins Fontes em 1991), viu este lembrete na parede da sala de trabalho de Miguel Jorge:
Refazer, refazer sempre.
Refazer, custe o que custar.

Refazer cada página, parágrafo, frase, palavra...


     Apesar de o lembrete parecer um tanto ingênuo, não podemos ignorar que este é um dos segredos praticados por todos os grandes escritores. Eles escreveram muito para eles mesmos, antes de escrever para os outros.
     Todos os livros sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
     O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco, ou até seis vezes uma página ou um parágrafo de suas obras. Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas. Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven ou um quadro de Michelangelo.
     Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 90% de transpiração e 10% de inspiração. O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do Céu.
      Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável. É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco ou de um teclado de computador, que o nasce livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante.
     Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram dentre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável domador de palavras. Em um de seus poemas, O Lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras

É a luta mais vã.

Entanto lutamos

Mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

Como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

O poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

Apareço e tento

Apanhar algumas

Para meu sustento

Num dia de vida.

............................


Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhe-ei escravo

De rara humildade.

Guardarei sigilo

De nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

De zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

Perpassam levíssimas

E viram-me o rosto.

Lutar com palavras

Parece sem fruto.

Não têm carne e sangue.

Entretanto, luto.

     O escritor português Antônio Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.” A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
     No seu famoso Discurso sobre o Estilo, o Conde de Buffon, escritor francês, afirmou que “somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”
     O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a arte, a originalidade com que suas páginas foram escritas. Vejam o exemplo do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Na verdade, esse romance foi o resultado de uma série de reportagens que o autor fez para o jornal O Estado de São Paulo sobre a Guerra de Canudos.
     Dezenas de outras reportagens também foram feitas naquela época por outros jornalistas sobre o mesmo assunto. Todas estão hoje esquecidas. Só a de Euclides da Cunha permanece atraindo e encantando leitores há quase 100 anos. Por quê? Por causa da perfeição do seu texto, da beleza do estilo com que foi escrita.

Escutem só o estouro da boiada que ele descreveu. Ouçam o barulho dos cascos dos bois tirando fagulhas das pedras no chão:
     "De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, traçam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, a inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação nos solo; e a boiada estoura...A boiada arranca. Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos vaqueiros. Origina-o o incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta, e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-se embolados em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos. E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos taboleiros ruídos soturno e longo de trovão longínquo... Milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-o impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalanche viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas – enristado – o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso à crinas do cavalo – o vaqueiro!"

     O grandioso livro Casa Grande e Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, é outro exemplo de obra que continua atraindo milhares de leitores devido ao belo estilo com que foi escrita. Muitos dos dados sociológicos apresentados nessa obra publicada em 1933 estão hoje superados. Mas nenhuma de suas páginas deixará de encantar os leitores de hoje e de amanhã.
     Portanto, um livro, antes de ser publicado, tem de ser revisado, polido, aperfeiçoado, com paciência e cuidado, durante meses, ou até durante anos. É o que têm feito os grandes escritores. E é um dos segredos já desvendados, tenho certeza, por todos os que desejam criar textos belos, comunicativos e perduráveis. Esses dois segredos citados aqui contribuirão para que os que almejam ardentemente conseguir esse grau de perfeição, o consigam.

 Jefferson Magno Costa

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

ESCREVA UM SONETO À PESSOA QUE VOCÊ AMA

Jefferson Magno Costa     


Desde o seu aparecimento na Itália ou na França, no século 13, não se sabe até hoje qual deles (Petrarca, Gerard de Bonneuil, Giacomo de Lentini) teria inventado esta desafiadora forma de expressão poética chamada soneto, que vem sendo cultivada por grandes e pequenos poetas, e tem-se conservado no gosto e na preferência do público leitor, ao longo de quase 900 anos.

     “Um soneto sem defeito vale por um longo poema”, disse o poeta francês Boileau, há quase 300 anos. E não é fácil compor um que seja considerado bom. Um excelente, então, é dificílimo.
     O que ocorre com a maioria dos pretendentes a bons sonetistas é terem assunto demais para tão poucos versos, ou versos demais para pouco assunto.
     O poeta Belmiro Braga, diante dessa dificuldade, perguntou em um soneto de que forma o grande sonetista Emílio de Meneses escrevia os seus:

Como os fazes, Emílio? Eu te prometo
um mimo como paga ao que pergunto,
pois, quando, às vezes, no arranhol me meto,

(tens sob os olhos as razões que ajunto),
ora o assunto transborda do soneto,
ora sobra soneto e falta assunto...


     Menotti del Picchia faz parte do pequeno grupo de poetas que homenagearam essa forma poética de maneira magistral:

Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta, dentro de ti, a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.


Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti, que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça,
de um povo que viveu fazendo versos.


Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu


a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...


     Reconhecendo o desafio de se escrever um bom soneto, Júlio Dantas compôs magnificamente este:

Ó florentino túmulo de prata!
Ó sepultura de quatorze versos!
Demais viveu em ti aprisionada
A asa vibrátil do meu pensamento.


Demais sofri a dura disciplina
Do teu chicote de quatorze pontas,
Soneto arcaico, inquisidor vermelho,
Que Petrarca há seis séculos gerou.


Ó taça antiga de quatorze gomos!
– Taça de ouro de Guido Cavalcante,
Bebi em ti, mas atirei-te no mar.


Não se ouvem mais os címbalos da rima.
Asa liberta, voa em liberdade!
Jaula de bronze, estás aberta enfim!


      Coube ao genial e ultra-prolífico dramaturgo e poeta espanhol Lope de Vega (deixou centenas de poesias, e mais de 2800 peças escritas; foi comparado a Shakespeare; Cervantes o chamava de "o monstro da natureza") a autoria do mais genial soneto sobre a dificuldade de se escrever um. Violante, a namorada do poeta, pedira-lhe que Lope lhe escrevesse um soneto de amor.
     Eis como o genial poeta, escondendo-se atrás de uma finíssima ironia e fingindo-se incapaz de escrever o soneto, conseguiu a fenomenal proeza de atender ao pedido da namorada, sem, no entanto, fazer-lhe nenhuma declaração de amor:


Um soneto pediu-me Violante.
(É só nessas encrencas que eu me meto).
Quatorze versos dizem que é soneto:
burlo um pouquinho, e vão-se os quatro. Adiante!

E eu pensei que jamais iria avante,
mas já estou terminando este quarteto.
Ah! Se eu pego o princípio de um terceto,
não haverá mais nada que me espante.



No primeiro terceto vou entrando,
e suponho que entrei com o pé direito,
pois neste verso o fim já estou lhe dando.



E cheguei no segundo. Bem... suspeito
que estou os trezes versos terminando.
Contai se são quatorze, e... ei-lo feito!

Jefferson Magno Costa

terça-feira, 2 de novembro de 2021

O PASTOR E POETA EVANGÉLICO QUE 25 ANOS ANTES DE MORRER ESCREVEU COM SERENIDADE SOBRE SUA PRÓPRIA MORTE

                             Jefferson Magno Costa

     







 Em uma manhã de sábado, dia 5 de dezembro de 2009, perdemos o sublime poeta evangélico Joanyr de Oliveira. No domingo, dia de descanso, Dia do Senhor, dia em que o pastor e poeta completaria 76 anos de idade, seu corpo foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília.
     Conheci Joanyr de Oliveira em 1978, quando ele esteve no templo sede da Assembleia de Deus em Natal, para lançar a Antologia da Nova Poesia Evangélica, livro que reunia poemas de poetas evangélicos brasileiros e portugueses, aos quais, durante vários anos, Joanyr havia orientado, doutrinado, corrigido, aconselhado, através da famosa seção de poesia da revista A Seara, Contato Poético. 
       Por eu ser um dos autores incluídos na antologia, o nosso líder maior, o saudoso pastor João Batista da Silva, para minha surpresa, chamou-me até o púlpito para que a igreja me conhecesse, para que eu recebesse um abraço do poeta Joanyr de Oliveira, e para que ele me presenteasse com um exemplar autografado do livro que me incluía como o único poeta norte-riograndense a figurar naquela antologia. 
     Para um rapaz desconhecido, inexpressivo e interiorano, mas cheio de sonhos, admiração e respeito pelos ícones da literatura evangélica brasileira daquela época, e já mergulhado, como leitor e escritor iniciante, no grande mar da literatura brasileira e universal (Joanyr de Oliveira era o nosso maior poeta evangélico), foi uma emoção única, inesquecível.
     No ano seguinte, já transferido pela Marinha e morando no Rio de Janeiro, visitei o pastor Joanyr, que era Diretor de Publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Pouco mais de dois anos depois, recebi dele e do pastor Abraão de Almeida o convite para trabalhar como membro do Departamento de Jornalismo daquela editora.
      Deus traçou minha trajetória de trabalho naquela Casa. Uma das honras que obtive foi substituir o pastor Joanyr de Oliveira na condição de comentarista da seção Contato Poético, da revista A Seara.
     E quando, em fevereiro de 1985, entre muitas outras atividades jornalísticas, iniciei meus trabalhos de crítico e orientador de poesia, abri aquela seção comentando um poema de Joanyr de Oliveira, intitulado Despedia, talvez, no qual nosso saudoso amigo despedia-se poeticamente da vida. Ora, para nossa felicidade, só quase 25 anos depois é que o poema tornou-se realidade plena na biografia do poeta.
     Pagando hoje uma dívida de amigo, de admirador, de assíduo leitor de seus poemas, de confrade, e prestando uma justíssima homenagem ao grande poeta que Joanyr de Oliveira foi e continua sendo todas as vezes em que um poema seu é lido, transcreverei a seguir seu poema Despedida, talvez, seguido do nosso comentário escrito naquela época:

DESPEDIDA, TALVEZ
Joanyr de Oliveira
Pelas portas de janeiro
Estendo antigos poemas

Que até parecem alheios

E estão repletos de luas...

Quem os dirá algum dia

Na placidez destas ruas?


Pelas portas de janeiro

Ao Universo eu espio

E afago. E me sinto pronto

Para esquiar as estrelas:

Anseio agora tocá-las

Porque cansado de vê-las...


Pelas portas de janeiro

Vislumbro as plagas do céu

E a luz que as aureola

Em coloridos sem fim,

Que nascem das mãos eternas

E passam também por mim.


Pelas portas de janeiro

Olho, e me amadureço

Para apagar as palavras

Das pessoas mais queridas,

Trocando-as tranquilamente

Por celestes avenidas.


Pelas portas de janeiro

Minha alma voa tão leve

A beijar sóis e arcanjos

Que os olhos plenos de luz

E a concha azul de meus versos

Colhem a voz de Jesus.


      Uma rápida identificação e análise dos recursos usados por Joanyr de Oliveira no poema Despedida, talvez, certamente nos levará a entender melhor alguns dos mecanismos acionados pelos poetas durante seu processo poético.
     É certo que não faremos uma completa identificação dos elementos que compõem a parte técnica do poema de Joanyr de Oliveira, pois isto implicaria em termos de apresentar aqui uma ampla definição de métrica, rima e estrofação, além de fazermos outras necessárias consideraçãos intertextuais, sem deixarmos de expor um breve histórico das escolas literárias.
     Por enquanto, o leitor deve saber que no poema Despedida, talvez, foram usados versos de sete sílabas. (Verso é cada linha que compõe o poema; a reunião de vários versos forma uma estrofe. O poema de Joanyr de Oliveira é composto de cinco estrofes de seis versos; cinco sextilhas, portanto).
     







                   Quando analisávamos as linhas gerais deste poema, com o propósito de encontrar “a ponta do fio do novelo” que nos conduziria à sua essência, ao sentimento que desencadeou sua carga poética, lembrando-nos de um poema do genial poeta português Fernando Pessoa, onde ele (assinando como um dos seus heterônimos), à semelhança de Joanyr de Oliveira, também se despede de seus versos:

Da mais alta janela da minha casa

com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.

Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário (...).”

 
     Mas o sentimento que motiva o restante do poema do poeta português é bem diferente do sentimento que conduz Joanyr pelas portas de janeiro.
     O grande poeta evangélico sente-se como um fruto maduro, pronto a partir para a eternidade, a esquiar as estrelas, e em condições de apagar as palavras/das pessoas mais queridas,/ trocando-as tranquilamente/ por celestes avenidas/. Em suma: é a serenidade com que o tema da morte é encarado pelos evangélicos. Joanyr calca sua poesia nesta atitude tranquila.
     Para os evangélicos, não existe reação de revolta e inaceitação diante da morte – comportamento muito comum por parte daqueles que não têm esperança de beijar sóis e arcanjos, e mergulhar na plenitude da luz de Cristo. Ninguém, que não tenha a esperança que temos, poderá entender porque consideramos o assunto morte com tanta serenidade.
     O próprio poeta português Fernando Pessoa, diante da morte de Sá-Carneiro, seu amigo e confrade em poesia, deu provas de uma profunda incompreensão e amarga resignação:

Nunca supus que isto que chamam morte

Tivesse qualquer espécie de sentido...

Cada um de nós, aqui aparecido,

Onde manda a lei certa e falsa sorte,


Tem só uma demora de passagem

Entre um comboio e outro, entroncamento

Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;

Mas, seja como for, segue a viagem.

(...)


     O verso inicial de Joanyr, Pelas portas de janeiro, encima as demais estrofes de Despedida, talvez, e é responsável por essa sensação de saída (portas) e de arrebol e início (janeiro) que se forma em nosso espírito a partir do momento em que iniciamos a leitura.
     Na primeira estrofe, os versos
Estendo antigos poemas/Que até parecem alheios/e estão repletos de luas/, representam a cristalização de uma obra (no caso de Joanyr, a soma de sua produção poética) que amadureceu e passou a pertencer mais às pessoas que a leem e assimilam do que ao próprio autor que a produziu. (Lembremo-nos da pérola: quanto mais ela se desenvolve no interior da ostra, mais aumenta sua condição de “corpo estranho” no seio daquela que a está formando).

     Lua á uma figura muito usada pelos poetas para representar um estado onírico (sonho). E quando a alma do poeta estiver voando leve pelas plagas do céu, será que seus versos continuarão sendo lidos na placidez destas ruas? 
     E estrofe por estrofe, o poeta vai-se predispondo a partir, a esquiar as estrelas, a aproximar-se delas e tocá-las porque cansado de vê-las. E já vislumbra as regiões do céu (plagas), e já sente-se tocado pela claridade que nasce das mãos eternas, e maduro o suficiente para apagar as palavras das pessoas mais queridas.
     Sua alma, que voa leve e é beijada por sóis e arcanjos, banha-se de luz. E Joanyr encerra o poema com uma imagem que envolve cor (azul de meus versos, que lembra também o azul do céu) e som (voz de Jesus), que lembra a saudação divina: “Vinde, benditos de meu pai...” (Mateus 25.34).
     






 




Poetas que não conhecem ou conheceram Jesus não escrevem poemas assim. Manuel Bandeira, um dos maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos, desnuda sua alma sem esperança, sua vida transcorrida longe dAquele que poderia ter-lhe dado a plenitude existencial e a perspectiva da felicidade eterna, no seu poema  
A MORTE ABSOLUTA:


Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão - felizes! - num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: "Quem foi?..."


Morrer mais completamente ainda,

- Sem deixar sequer esse nome.


     







 




Quem não tem Jesus como Redentor de sua alma, vê o seu destino, a transitoriedade da vida de forma pessimista, melancólica. Muitos esperam a morte como o poeta judeu-brasileiro Augusto Frederico Schmidt a esperou e expressou em um de seus poemas:


PAZ DOS TÚMULOS


Ó paz dos túmulos

Ó frio das tardes invernais nos cemitérios

Ó mármores gelados, rosas frias, noites de gelo, como vos espero!

Quando serei silêncio e frio apenas?

Quando serei apenas o íntimo da terra?

Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?

Ó vento que matais as rosas, vento frio!


Quando me levareis mudado em poeira?

Quando me levareis pelas ruas

Quando me levareis em mim mesmo mudado

Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...?


      
     












Não posso deixar de comparar o poema que Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, deixou como epitáfio, com o poema que o nosso Joanyr de Oliveira escreveu com a mesma finalidade.      Eis o epitáfio poético que Drummond escreveu para ele mesmo:

O POETA ESCOLHE O SEU TÚMULO


Onde foi Tróia,

Onde foi Helena,

onde a erva cresce,

onde te despi,


onde pastam coelhos

a roer o tempo,

e um rio molha

roupas largadas,


onde houve , não

há mais agora,

o ramo inclinado,


eu me sinto bem

e aí me sepulto

para sempre e um dia!

     E eis o epitáfio poético que o poeta Joanyr de Oliveira escreveu para ele mesmo:


EPITÁFIO
 
Os casulos do silêncio

recolhem meu rosto,

meu canto e meu nome.

Entre arcanjos e estrelas,

minha essência navega

o esplendor dos milênios.

Doce é o sabor do infinito. 

     Quão diferentes são os cristãos diante diante da morte! Quão diferentes foram os sentimentos que levaram o salmista a escrever estas palavras:
     “O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita não serei abalado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra delícias perpetuamente”, Salmo 16.8,11.
     Os que sentem, pensam e se posicionam na vida como Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt e Carlos Drummond de Andrade, tiveram o seu destino descrito pelo salmista:
     “Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome; a sepultura é o lugar onde habitam”, Sl 49.14.


     Porém, os que têm a fé que norteou a vida e conduziu para os mistérios da morte o poeta Joanyr de Oliveira, podem dizer, à semelhança do salmista:
      “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tornará para si”, Salmo 49.15.
     Para mudar um pouco o tom lúgubre e sepulcral desta postagem, e para satisfação dos leitores da bela e genuína poesia, publicarei como encerramento deste artigo, um dos poemas de Joanyr que eu mais gosto, o CANTARES VII, Filha do Rei:

Os teus passos, filha do Rei,

acariciam a face translúcida

do dia, os caminhos, os campos.


Teu andar se harmoniza

com o mar e os pássaros,

em louvações perfeitas.


O imaculado corpo, teu corpo,

Estende-se ao longo da paisagem,

bendizendo os ofícios do Sol.


Nas têmporas do monte,

teus olhos equilibram as águas

construídas em meigo azul.


Ramos ataviam as alturas.

A cabeça nívea, serena.

A cabeleira flutuante no tempo,



O esquio porte, de palmeira.

Espargem teus cachos na Terra

taças de unções indizíveis.


Tens aroma – que estremecem e inebriam

as várias colunas da noite,

porque beijas o soluço e a dor


e os transmudas em flores.

Bem-aventurados teus filhos,

ó vero amor de delícias!


Sobre as piscinas de Hesbom,

deslizando as saudades antigas,

mosto de romãs, perfumes.


Bem-aventuradas tuas sandálias

sob a altiva torre do Líbano,

e as frontes iluminadas do Eterno!

     Para quem gostou do poema acima, eis mais uma palhinha do Joanyr:


Cantares II
(Colóquio)

Pelas pisadas dos rebanhos
na quietude do outono,
Deus espraia o mel de Sua voz.

Ouvi, ó tendas de pastores
rodas de carros faraônicos,
equinos revestidos de auroras.

Tranças debruçadas no silêncio
somam-se à bondade das videiras
e aos cachos bailarinos da seara.

No dorso intangível da solidão
Deus espraia o mel de Sua voz.


     Jefferson Magno Costa
  1. Inajá Martins de Almeida
    Aprecio sobremaneria os comentários, as críticas, quando estes partem daqueles que realmente tem o dom, aptidão, conhecimento, entendimento e censo crítico abalizados para os tais. Quem melhor os poderia dizer neste dia, "na placidez destas ruas", do que Jefferson Magno Costa.
    As palavras contidas nos versos do poeta puderam me amadurecer, quanto mais a explanação que a seguir veio compor todo o contexto.
    Joanyr de Oliveira, confesso que não o conhecer anteriormente, mas seus versos tocaram-me de forma tangente a alma, ao ponto de sentir cálida a voz de Jesus a me falar ao coração.
    Linda mensagem. Ao homenagear Joanyr, homenageados fomos todos nós, leitores deste rico espaço, em especial esta que subscreve. Grata a Deus eternamente por esses encontros gratificantes. Inajá

  2. Jefferson Magno Costa
    Prezada Inajá, continuarei a divulgar neste blog mais poemas de Joanyr de Oliveira, pois ele chegou a receber elogios dos maiores poetas da nossa literatura, como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre outros.
  3. Pr. Levi Costa
    Eu tive o privilégio de conviver ministerialmente com o saudoso poeta e homem de Deus pastor Joanyr de Oliveira. Ele fez parte do quadro de obreiros do nosso Ministério da L2 Sul em Brasília e da Convenção CEADDIF no Distrito Federal. Pude participar de algumas ministrações dele concernente ao ministério e sobre a língua portuguesa. Por ocasião de um culto para entrega de certificados pela conclusão do curso de formação ministerial (COM) que participamos, Joanyr de Oliveira abrilhantou o evento com a sua presença e com a sua fala. No momento tirei uma foto ao lado do nosso poeta a qual eu trago como recordação. O homem na verdade morre, mas a sua obra fica para imortalizá-lo.

  4. Jefferson Magno Costa
    Prezado irmão e amigo pastor Levi, a Assembleia de Deus no Brasil deve ao pastor, jornalista e poeta Joanyr de Oliveira, a criação de alguns periódicos da CPAD que enriqueceram a nossa história cultural, como A Seara, Jovem Cristão e O Obreiro. Neste ano em que se comemora o centenário da nosso denominação, esperamos que nossos líderes lembrem-se dele, e prestem-lhe uma justa e merecida homenagem póstuma, pois Joanyr de Oliveira foi um dos gigantes das nossas letras evangélicas, um ícone da intelectualidade assembleiana.
  5. Pastor Jesiel Padilha
    Jefferson , vc foi de marinha, eu também e servi em Natal, congregando com o pr. J.Batista. Li seu livro em 1995


  6. Jefferson Magno Costa
    Sim, prezado pastor e amigo Jesiel Padilha, que satisfação em conhecê-lo! Tive o privilégio de nascer em Natal, de iniciar em Natal minha carreira militar, e de descobrir a literatura e o maravilhoso mundo dos livros também em Natal. Apesar de não usar o sobrenome famoso, minha avó parterna foi irmã por parte de pai do grande antropólogo e folclorista norte-riograndense Luis da Câmara Cascudo, um dos homens mais cultos do Brasil. Também tive o privilégio de entrevistar, há mais de 20 anos, o grande líder da Assembleia de Deus no Estado do Rio Grande do Norte, o pastor (pastor de minha infância, adolescência e juventude) João Batista da Silva, entrevista que publiquei neste blog. Um abraço!

  1. Micheline Gomes
    Que lindo!! Tinha a inspiração do Altíssimo!
  2. Jefferson Magno Costa
    Sim, prezada Micheline, Joanyr de Oliveira, com quem tive a satisfação de trabalhar na CPAD, foi um poeta inspiradíssimo. O primeiro grande livro que ele publicou pela CPAD, intitulado Cantares, permanece um marco insuperado em nosso meio. Infelizmente, está esgotado, e não sei se algum editor evangélico teria sensibilidade para republicá-lo. Esse livro coloca a poesia evangélica no primeiro rank da poesia de língua portuguesa.
    Ele tem poemas do tipo:

    Pelas pisados dos rebanhos,
    Na quietude do outono,
    Deus espraia o mel de sua voz.

    Ouvi, ó tenda de pastores,
    rodas de carros faraônicos,
    equinos revestidos de aurora.

    Tranças debruçadas no silêncio
    Somam-se à bondade das videiras,
    e aos cachos bailarinos de seara.

    No dorso intangível da solidão,
    Deus espraia o mel de sua voz.
  3. Pastor Geremias Couto
    Meu caro poeta pastor escritor editor pregador Jefferson Magno Costa (também sem vírgulas. Não são fragmentos. São unidade).

    Pena que nem todos - embora possam ter lá os seus rasgos poéticos - consigam valorizar a poesia como uma arte em que, mais do que na prosa, se pode descer a profundidades, que, sem nunca chegar ao mais profundo - sempre há mais profundezas - nos deixam embevecidos e surpresos pelo primor das pérolas encontradas.

    Eu e você fomos "aprendizes" com (e de) Joanyr de Oliveira. Convivemos ao seu lado por algum tempo. Quantas vezes ele copidescou os nossos textos e nos ensinou a evitar os adjetivos, a estilizar a frase, o período etc., etc. Tive a gratíssima honra de prefaciar uma de suas obras - Entre os Vivos e os Mortos - onde revelou também o seu pendor como romancista. Citei-o na minha obra "A Transparência da Vida Cristã" pelo que representou para o meu aprendizado. Sem orgulho (mas orgulhoso) digo: tivemos um excelente mestre! De tempos em tempos, revisito a prosa e os poemas do grande escritor. O seu nome é digno de constar em qualquer galeria dos grandes poetas brasileiros. Joanyr de Oliveira foi o maior intelectual assembleiano. Ninguém ainda o superou.

    Além disso, era homem comprometido com os valores do Reino, com as causas justas, com a solidariedade, com a ética, com a pureza da igreja, com a dignidade do pastoreio, com os simples e contra toda sorte de opressão, inclusive religiosa. Talvez, por essas razões, o sistema muito tenha lutado para preteri-lo. Mas cumpriu a sua missão sem abrir mão de convicções, que, talvez, 25 anos antes de sua morte, lhe tenham inspirado a escrever este que foi um de seus grandes poemas, "Despedida, talvez", no qual o céu suplanta quaisquer outras perspectivas terrenas, muitas vezes frustrantes e impregnadas de perigosas sombras.

    Joanyr de Oliveira termina a primeira estrofe com uma pergunta sobre como os seus poemas seriam vistos no futuro:

    "Quem os dirá algum dia
    Na placidez destas ruas?"

    O tempo é inclemente e insiste em apagar o passado. Mas aqui e ali, "na placidez destas ruas", ainda ouviremos que "Deus espraia o mel da sua voz".

    Parabéns, meu confrade, pela justa homenagem ao nosso mestre.

    PS. Se me permite, gostaria de reproduzir o ensaio no meu blog, com o devido crédito e citada a fonte.
    Abraços.

    1. Jefferson Magno Costa
      Reproduza-o, pastor Geremias Couto; para mim será uma honra. A propósito, achei que todos os leitores que acessam habitualmente o blog Sublime Leitura mereciam ler seu pertinente e relevante comentário ao ensaio sobre Joanyr de Oliveira, e por isso o publiquei como nova postagem no meu blog. Um abraço.
      PS. Em breve estarei lhe enviando para que você a leia e, se possível, comente-a no seu acessadíssimo blog, a biografia do pastor José Santos, sogro do pastor Silas Malafaia, que escrevi recentemente, e acaba de ser publicada pela Central Gospel.
    2. Pastor Geremias Couto
      Agradeço a autorização, meu caro amigo. Também lerei com prazer a biografia do pastor José Santos.
      Deixei um comentário em seu perfil no Facebook.
      Abraços!

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

CRÔNICAS SOBRE MISSÕES 1

Jefferson Magno Costa


O missionário é aquele que resolveu não se abrigar mais dentro das igrejas, e sim descer do púlpito como orvalho do Céu, e cair sobre a aridez dos corações das pessoas que ainda não confessaram a Cristo como seu Salvador. No mundo inteiro, bilhões de almas estão dormindo sobre a cama e o travesseiro que a falsidade das religiões e das seitas arrumaram para para elas, a fim de que Jesus volte e as encontre dormindo. É o entorpecimento do pecado e do indiferentismo nos quais Satanás as mantêm presas.

É belo contemplar o incansável esforço desses homens e mulheres  aos quais nós chamamos de missionários, e que são verdadeiros anjos do socorro e da consolação, que seguram na mão dos que estavam prestes a cair no abismo do Inferno, cumprindo assim o papel de Bom  Pastor com quem aprenderam a fazer missões, e ensinam ao pecador que Jesus morreu por eles na cruz do Calvário para lhes conquistar um novo caminho que lhes conduz definitivamente ao Céu. 

CRÔNICAS SOBRE MISSÕES 2 

Jefferson Magno Costa 


Quão imensas são essas lutas entre a luz e as trevas! Mas no meio de toda essa batalha espiritual, em muitos lugares do mundo, corajosamente o braço de um missionário ou de uma missionária se erguerá para anunciar que crer em Jesus Cristo é para hoje, é para agora, é para imediatamente, pois todos os sinais apontam que Ele a qualquer momento pairará invisivelmente sobre as nuvens a fim de arrebatar a Sua Igreja (desta vez só os salvos O verão; da segunda vez que Ele vier com todos os anjos e a Igreja, todo olho O verá). A aurora do Dia do Senhor, que marcará o início do julgamento que Jesus fará da humanidade assentado no Grande Trono Branco, nascerá ao som tremendo da trombeta do Arcanjo anunciador do Juízo Final.

.

.

Postagem em destaque

OS MAIORES FILÓSOFOS DA HUMANIDADE RECONHECEM: DEUS EXISTE!

JEFFERSON MAGNO COSTA        Ao contrário do que muitos ateus pensam, as maiores inteligências que o mundo já viu, os gênios que deixa...