domingo, 28 de novembro de 2010

O CRISTO DE PEDRA RESPLANDECEU... E NÃO FOI DIANTE DO CLARÃO VERMELHO DOS CARROS INCENDIADOS

Jefferson Magno Costa

"E, havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden...” Gênesis 3.24.

     E o homem, expulso do Éden, da região do sossego, do frescor das fontes, da suavidade dos rios, das sombras aprazíveis, das árvores frutíferas, dos ventos leves e dos vales e campinas vestidos da glória do Senhor, desceu rios abaixo, pobre e seminu, levando ao seu lado a companheira de sua antiga bem-aventurança e agora do seu infortúnio; para construir, no alvorecer do seu conhecimento do bem e do mal; de barro, de solidão, de madeira, de desespero, de ferro, de concreto e de granito, as suas cidades.

     E a civilização surgiu, e o homem cresceu no seu mundo. Cresceu em conhecimentos, em riquezas materiais, em encurtamento de distâncias, em todos os ramos da ciência. Mas cresceu sobretudo em amontoar pecados diante do Senhor.

     Séculos sucederam a séculos. E entre montanhas ciclópicas e abruptamente erguidas a sudeste do Brasil, o homem construiu essa maravilha de cidade que é o Rio de Janeiro.

     A noite, disforme em seus mistérios, envolvia essa cidade, quando um anjo do Senhor – pisemos agora o terreno das suposições – após concluir uma de suas tarefas, e durante sua viagem de retorno às rotas celestiais, pousou no Corcovado, sobre a cabeça do Cristo de pedra, e pôs-se a contemplar a enorme metrópole.


     O que observaria um ser celeste, para além desses ares doentios, numa cidade como esta, tão adiantada em cultura, violência e pecados, tão multiformemente vestida de esplendores e misérias? – Um vasto templo quase totalmente às escuras, pontilhado de pequenas gotas de luz. Vivos habitando entre mortos. Edifícios revestidos de poluição e altura, inflexíveis, violentando as paisagens. Homens e mulheres em seus barracos e palácios, soberbos, céticos (Sofonias 1.12), irreverentes, a entesourarem imoralidades, violência e destruição (Amós 3.10).

     E, habitantes comuns, hóspedes recebidos em todas as classes sociais, cultuados em abominações solenes – espíritos maléficos, asas negras ferindo a noite e impregnando-a de pestilência e negridão – demônios, demônios, demônios! “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançada por terra, tu que debilitavas as nações!” (Isaías 14.12).


     Tu encontraste entre teus adoradores lugares aprazíveis à tua visitação, tu, que eras querubim protetor, e vivias entre as “pedras afogueadas” (Ezequiel 28.16), e agora reinas sobre os escombros das almas enganadas e corrompidas por ti.
     O anjo, de pé, imóvel, fixado no crânio da estátua, lançava sobre a cidade o seu olhar superior e contemplativo, atento aos mistérios da noite. O Cristo Redentor, braços abertos, rosto esculpido em pedra, talvez brilhasse desapercebidamente naquela madrugada, transfigurado pela presença do visitante dos céus.


     A estátua parecia, naquele seu gesto horizontal e largo, querer abraçar as avenidas, os edifícios, os lares, os corações; ou talvez umedecer as mãos na longínqua baía, a bela e poluída Baía de Guanabara; ou talvez ainda, num gesto de gigante, descer da montanha de pedra e banhar-se no mar, o colossal mar, sujo ao longo e ao largo. Mas ei-la na mesma altura, petreamente fixada, tendo em cima de si a presença divina e o céu, e ao redor, um turbilhão de vidas e de corações.

     E o anjo, solitário e triste na contemplação do mau, alongou seu olhar por entre fábricas, residências, assaltos, assassinatos, ônibus e  carros incendiados, menores abandonados dormindo sobre calçadas, aviões, trens, viadutos, traficantes em fuga, corações angustiados e aflitos, prostitutas, edifícios, favelas invadidas por forças policiais, helicópteros sobrevoando o céu cortado por balas traçantes, e divisou, unido e espalhado por toda a cidade, um povo separado dos demais, que busca ao Senhor em adoração e súplica, lançando para dentro da noite e ungindo-a, as notas harmoniosas de suas vidas consagradas.
     Rejubilou-se o ser celestial em face do bem, e estendo as mãos no ar gelado da noite, enviou aos corações daqueles que servem fielmente ao Senhor e aos que sofrem os rigores das trevas, bênçãos de esperança, consolação e paz.

     Já uma vez Cristo subiu ao Calvário e estendeu os braços sobre o mundo, abrindo assim o caminho para a redenção de todos os povos. Não aquele Cristo imóvel, aquele Cristo mudo, aquele Cristo frio, erguido nas alturas do Corcovado, a testemunhar indiferentemente a nudez, a violência, a morte e o colapso espiritual da cidade do Rio de Janeiro. Mas o Cristo do Calvário, o Cristo da cruz, o Cristo de carne, amor e sangue, o Cristo que recebeu sobre o seu corpo o peso esmagador de todos os nossos pecados e os crucificou em si.

     O Cristo sepultado em túmulo, ressurgido ao terceiro dia, vestes alvas, rosto resplandecente, que subiu ao Pai para ser nosso Advogado (1João 2.1), nosso Mediador (1Timóteo 2.5), aquele que é e sempre Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz (Isaías 9.6).

      O habitante do Céu, após contemplar a cidade – a paz que desce dos montes eternos, o ódio demoníaco e seu olhar injetado de sangue, os cânticos, o fogo e as colunas de incenso das adorações – pôs-se a contemplar o sol, que no seu difícil caminho preparava-se para pousar sobre o grande Rio, em raios abrandados pelo ar poluído, beijos alaranjados e cálidos.

     Subtraindo-se à luz da manhã, o anjo alçou as asas ao azul e adentrou o Firmamento.


 Jefferson Magno Costa

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