quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ALGUNS PERSONAGENS DA BÍBLIA EM POESIA

     O acervo da poesia religiosa brasileira é rico em poemas sobre personagens da Bíblia. Em 1987, eu trabalhava como jornalista e era responsável pela coluna Poesia, da revista A Seara, um dos periódicos da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD, Rio de Janeiro), coluna esta criada pelo grande e saudoso poeta evangélico Joanyr de Oliveira, que ao mudar-se para Brasília deixou essa coluna sob minha responsabilidade.
     Naquele ano, entre dezenas de poemas de grandes poetas que publiquei em A Seara, reuni seis sonetos sobre alguns homens e algumas mulheres da Bíblia. Minha coragem juvenil levava-me a escrever poemas, cometendo flagrantes atentados contra a poesia. Entre os poemas publicados naquele página, cometi, mais uma vez, esse atentado.


A MORTE DO PATRIARCA
Augusto Frederico Schmidt


Uma noite de paz se estendeu sobre os campos
E as estrelas de Deus aos grandes céus antigos
Vieram chegando aos poucos e floriram o noturno
Mundo, onde o sono virá compensar-me as fadigas.


A água mansa de um rio, onde os rebanhos dormem,
Vai murmurando a sua doce e tranquila canção.
O vento leve agita as folhagens e afaga
Minhas longas barbas brancas e proféticas.


As mulheres e servas a quem dei tantos filhos
Dormem há muito na paz desta noite perdida,
E o tempo foge e cai como um fruto.


Dentre em pouco virá a hora calma da morte;
E sinto a mão de Deus que se estende a colher-me
Para que eu seja uma espiga a mais na seara eterna.


JOSÉ
Affonso Celso
Eras da tribo de Judá! Provinhas
Da régia estirpe de Davi. No entanto,
Singelamente ias vivendo a um canto,
Nas de operário condições mesquinhas.


Mas tão egrégio o espírito mantinhas,
Que mereceste o encargo sacrossanto
De resguardar o virginal encanto
Da inefável rainha das rainhas.


Salvaste o Salvador, quando proscrito,
Foste um refúgio lhe buscar, no Egito,
Contra os de Herodes infernais ardis.


Tens uma glória singular, divina:
Moderno carpinteiro, na oficina
Serviu-te o próprio Deus, como  aprendiz!


A SAMARITANA
Paulo Silva Araújo
Da estrada regressando, a cujo poço antigo
Para a água buscar, na lida costumeira,
Ainda traz dentro em si esse perfil amigo,
Em que a bondade luz, simples, verdadeira...


Ainda canta-lhe ao ouvido a frase derradeira
De Jesus, a falar-lhe: “Em verdade te digo...”
E ainda guarda, perfeita, essa expressão inteira,
Suave frase imortal, em que o amor tem abrigo.


E à serena beleza, que lhe vai no rosto,
Vem casar-se um fulgor, que é de perdão composto.
Vem-lhe nalma a esplender toda uma fé que a encanta


E, recordando o porte e a tristeza e a candura
Do Nazareno e a dor, que as faces lhe emoldura,
Sente os olhos deixar-lhe uma lágrima santa.


CRISTO E A ADÚLTERA
Mário Accioly
Num enorme rumor o povo irado segue
Uma mulher que foge aos ditos ofensivos;
Demonstra cada olhar raivoso que a persegue
A sentença de morte escrita em traços vivos.


E cobrindo-a de insulto a multidão prossegue,
Nos seus intentos vis, perversos e agressivos;
E a mísera fugindo aos fariseus, consegue
Junto aos pés de Jesus reter os vingativos.


“Condenai-a!”, diz a turba enquanto a fúria medra.
“É adúltera, Senhor! Moisés tem ordenado
Que sempre nós a tais corrêssemos à pedra!”


Mas Cristo, levantando a nívea mão, responde:
“Quem dentre vós julgar-se isento de pecado
Lance a primeira pedra.” A multidão se esconde!


MARIA, UMA MULHER
Jefferson Magno Costa
Teu nome rescende
a alabastro, unguentos,
longos cabelos,
olhos, lágrimas, mãos.


Cálida sombra
sobre o Calvário adormecido,
leve alvorecer
na madrugada


do túmulo vazio,
a anunciar o ressurgir
daquele que rabiscou


mistérios esquecidos
nas longínquas
areias da Galileia.


O DISCÍPULO MEDROSO
Jônathas Braga
Segundo lhe dissera o Nazareno,
Pedro ficara perto do fogão,
e ali, sentado, contra o Mestre ameno,
ouvia a mais iníqua acusação.


Três vezes inquirido, foi pequeno
para ao gentio impor uma lição,
e, diante do seu Mestre sereno,
Três vezes respondera com um “não”.


Então, lá fora, em plena madrugada,
Já anunciando a próxima alvorada,
Um galo bateu asas e cantou...


E Pedro, retirando-se, humilhado,
Foi procurar um canto sossegado,
Onde seu pranto anônimo chorou.


Jefferson Magno Costa

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