segunda-feira, 13 de setembro de 2010

QUAL FOI A RELIGIÃO DO PRIMEIRO SER HUMANO QUE HABITOU A TERRA?

Jefferson Magno Costa    
Procurar informações sobre o passado religioso da humanidade equivale a nos debruçarmos sobre um poço escuro e profundo, cujas águas só podem ser alcançadas com muita paciência e em pouca quantidade. Quem se debruça sobre esse poço deve estar consciente de que suas águas são escassas, porém suficientemente cristalinas para confirmar o que diz a Bíblia sobre o passado religioso dos primeiros seres humanos.
    Sondemos cautelosamente esse poço à procura de vestígios da crença dos primeiros homens sobre Deus, sobre as formas como o cultuavam, e como reagiam diante da morte. Procuremos também descobrir como a idolatria entrou no mundo. Nessa sondagem devemos ser cautelosos para não perdermos nenhuma gota dessa água que aí está há milhares de anos.
     Se a sombra do nosso corpo (esse barro que nos impede de subir às alturas ou sondar os abismos) não interceptar a passagem da luz que desce até a superfície das águas, que imagem veremos refletida no fundo do poço? O primeiro homem à procura do seu Deus! Posso vê-lo daqui, esse homem de alma pura, caminhando sobre um solo ainda virgem de outras pegadas humanas.
     Solitário e grandioso nos seus pensamentos, e coroa da Criação, esse homem está pronto para a infelicidade e o infortúnio quando lhe surgir, como companheira, a primeira mulher. Posso vê-lo com um semblante semelhante ao meu e ao dos meus irmãos que hoje povoam a terra, e não como um ser meio gente, meio animal, dotado de costumes brutais, caminhando curvado, armado de tacape, comunicando-se através de grunhidos ininteligíveis e comendo carne podre.
     Não, esse não é o meu antepassado, não é o homem que Deus criou para, através dele e da companheira que lhe deu, iniciar a raça humana. Um ser assim, primitivo e animalesco, nada tem da imagem e semelhança  de Deus (Gn 1.26-27), e tampouco seria capaz de ouvir a Sua voz (Gn 3.8).
     Adão deu nome “a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais do campo”, Gn 2.19,20, e isto não poderia ter sido realizado por um homem de cérebro subumano, animalesco. Além do mais, seus filhos Caim e Abel possuíam conhecimentos elementares de agricultura e pastoreio (Gn 4.2). Caim foi o primeiro homem citado na Bíblia a edificar uma cidade (Gn 4.17), e Jubal e Tubal-Caim, representantes da sétima geração desde Adão, foram, respectivamente, “pai de todos os que tocam harpa e flauta”, Gn 4.21, e “mestre de toda obra de cobre e de ferro”, Gn 4.22. Portanto, não podemos aceitar que tais homens tenham descendido de “antepassados de espécie inferior”, conforme afirmaram Darwin e seus discípulos.


O DEUS SUPREMO SE REVELOU AOS NOSSOS PRIMEIROS PAIS
     Quanto à concepção religiosa inicial da humanidade, a grande abundância de fatos histórico-religiosos trazidos do fundo desse poço à luz dos nossos dias por centenas de pesquisadores ao longo de vários séculos, prova que a humanidade creu inicialmente em um único Deus. Os “deuses” vieram depois. Eles entraram no mundo pela porta que o pecado abriu na mente e no coração dos primeiros seres humanos.
     O estudioso alemão Georg Siegmund, no seu livro A Crença do Homem Pré-histórico, informa que “entre a maioria dos grupos circulava a crença de que no princípio o Ser Supremo viveu na Terra juntamente com os homens, a quem ensinou o bem e deu suas leis sociais e morais; isto é já uma prova da estreita união entre Deus e os homens. Em quase todos os povos das culturas primitivas existe o significativo ensino de que o Ser Supremo, após haver abandonado a Terra por alguma culpa dos homens, foi para o Céu, que é agora o lugar de sua residência”.
     O fato é que, após criar o ser humano, Deus incutiu nele o seu selo, a sua marca, plantando no seu coração a necessidade de reconhecê-lo como Criador e adorá-lo como Deus. Isto é o que os teólogos chamam de Primeira Revelação ou Revelação Inicial. Porém, a Bíblia mostra (capítulos três e quatro do livro de Gênesis) e a história confirma que essa revelação foi obscurecida pelo pecado.
     Obscurecida, mas não totalmente apagada. Ao estudarmos a religião dos egípcios, assírios, babilônios, cananeus, hindus, persas, gregos, romanos, chineses, japoneses e outros povos, identificamos imediatamente os vestígios desse obscurecimento gradual da primitiva crença em um único e supremo Deus. O livro Eternity in Their Hearts, escrito por Don Richardson, e traduzido e publicado no Brasil pelas Edições Vida Nova, sob o título O Fator Melquisedeque: O Testemunho de Deus nas Culturas Através do Mundo, apresenta uma vasta documentação sobre a existência de vestígios dessa revelação inicial entre os povos. “Deus não se deixou ficar sem testemunho. Pois esse testemunho penetrou nas trevas da impiedade em quase toda parte, até certo ponto”, é a afirmação com a qual Don Richardson poderia resumir seu livro (Op. Cit. p. 42).
     É importante considerar que, meio século antes de Don Richardson apresentar ao público evangélico o resultado de suas pesquisas, o etnólogo suíço Guilherme Schmidt, uma das maiores autoridades mundiais sobre o passado do ser humano, havia publicado o produto de quase 20 anos dedicados ao estudo desse fascinante tema. No seu gigantesco trabalho de pesquisa, Schmidt dispôs as religiões dos povos primitivos em um esquema de ciclos culturais. O resultado foi uma obra dividida em 12 volumes, sob o título A Origem da Crença em Deus.
     Esse incansável pesquisador conseguiu demonstrar, com abundância de detalhes, o grandioso fato de que houve uma primeira revelação de Deus ao homem no início da formação da humanidade, e essa revelação deixou suas marcas em todos os povos, em todas as regiões do mundo. A obra desse etnólogo suíço foi recebida com entusiasmo, respeito e admiração pelos grandes estudiosos da cultura, e contou com o reconhecimento até dos seus adversários ideológicos.
     Outros estudiosos uniram suas vozes à de Guilherme Schmidt, confirmando que essa crença no Ser Supremo sempre esteve presente nos mais antigos povos. Discursando em 1980 para centenas de cientistas na Universidade de Leiden, Alemanha, o renomado antropólogo holandês A. W. Niewwenhius declarou que “a crença no Ser Supremo nasceu da impressão que o mundo como totalidade produziu no homem primitivo, enquanto que a crença nos outros deuses menores nasceu mais tarde, das impressões que os aspectos particulares da Natureza causaram no homem”.


COMO OS “DEUSES” SURGIRAM NA TERRA
     Essa declaração do antropólogo holandês está baseada na seguinte linha de interpretação da conduta religiosa da humanidade: Após a entrada do pecado no mundo, algo de desastroso ocorreu com a crença do primeiro homem no Deus único e soberano. Com exceção de um pequeno grupo, a espécie humana degenerou, ao longo dos séculos, para a crença em vários deuses.
     Impressionados pelos grandes fenômenos da natureza, e sentindo-se pequeninos diante da imensidão do céu, do fulgor do raio, da beleza do pôr-do-sol, da grandiosidade do mar, os descendentes mais afastados de Adão deixaram nascer dentro deles a errônea idéia de que tudo isto não passava de símbolos de Deus, e pensaram: o sol é Deus, o raio é Deus, a tempestade é Deus, o céu é Deus.
     Consequentemente, o céu, o sol, o relâmpago, o trovão, o vento, a água, o fogo, as pedras, a lua, as árvores e os animais passaram a ser cultuados. Surgiu assim o politeísmo, com seus inúmeros deuses representando inicialmente os elementos e os fenômenos da natureza, e depois se estendendo a tudo o que o homem viu dotado de algum poder que ele não tinha. Ao ceder à tentação de fazer para si imagens desses deuses, a humanidade caiu na idolatria.
     Por esse motivo, ao examinarmos atentamente os documentos primitivos das velhas religiões, deparamo-nos com flagrantes idéias contraditórias: junto à crença na existência de um Deus espiritual e elevado, encontramos a crença em deuses materiais e visíveis. Junto à adoração a um Deus único, vemos o culto a inúmeras divindades. Afastando-se do Deus santo e justo, os homens passaram a crer em deuses grosseiros, imorais e cheios de vícios.
     Mas existe outra explicação para esse comportamento dos seres humanos: a multimilenar influência que Satanás e seus anjos têm exercido sobre a humanidade. Além de levar o primeiro casal a cair no pecado, ele aproveitou a natural inclinação que o primeiro homem tinha para admirar e temer os fenômenos e elementos da natureza, e passou a trabalhar na intenção de que o culto que o homem dirigia a esses elementos e fenômenos fosse dirigido a ele e aos demais espíritos que o acompanhavam.
     Portanto, no que diz respeito a mais antiga concepção religiosa do ser humano, a conclusão a que se chega ao examinarmos as afirmações dos historiadores e os testemunhos contidos na Bíblia, é que Adão falou aos seus filhos sobre a existência do Deus supremo e único, e esse conhecimento foi transmitido sucessivamente às novas gerações. A religião da humanidade antes do Dilúvio está fundamentalmente alicerçada nessa crença.
     Todavia, com o passar dos séculos, muitos dos descendentes diretos de Adão saíram em busca de outras regiões onde abundavam a caça, o solo fértil e os frutos silvestres (“Frutificai, multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a”, Gn 1.28), e após peregrinarem durante vários anos, acabaram se isolando completamente das outras famílias estabelecidas nas regiões circunvizinhas ao lugar em que o primeiro casal criara seus filhos, e em cujo meio continuava perdurando o reconhecimento da existência do único Deus Todo-poderoso, como resultado da revelação inicial (a linhagem de Sete foi a que melhore preservou essa revelação, conforme Gênesis 5.1-32).
     Esses grupos humanos isolados, após perderem o contato com as demais famílias, passaram a enfrentar situações dificílimas, lutando com uma natureza sempre hostil. Totalmente afastados de Deus, e esquecidos da primeira revelação, esses grupos caíram na mais bárbara e terrível noite espiritual. Eles se tornaram ao mesmo tempo réus e vítimas da propagação do politeísmo, da idolatria e da superstição: idéias e práticas influenciadas por Satanás.
     Porém, um reduzido número de pessoas continuou guardando o conhecimento do Deus supremo. E antes mesmo de os primeiros povoadores da Terra aprenderem a fazer uso desse poderoso instrumento de registro das ações humanas que é a escrita, já os objetos de pedra, de bronze e de ferro, as paredes lisas do interior das cavernas e a maneira como os mortos eram sepultados continuavam testemunhando a crença dos primeiros homens em um Ser Supremo. E essa crença tem hoje sua existência documentada por escrito.
     Há um livro que nos fala com toda clareza e fidelidade sobre a origem da raça humana, e nos revela que tipo de religião foi inicialmente praticada. Esse livro é a Bíblia. Seus onze primeiros capítulos contêm o que de fundamental e mais confiável podemos conhecer sobre a criação dos céus, da Terra e do ser humano. Em suas páginas nos deparamos com tradições que atravessaram milhares de anos sem corromper-se nem alterar-se, graças à providência do Espírito do Deus, que além de as ter preservado na memória humana, inspirou o homem que lhes deu forma escrita: Moisés.
     Ou aceitamos como verídico o quadro que a Bíblia nos apresenta sobre a origem do ser humano e de sua conduta religiosa inicial, ou rejeitamos a Bíblia e adotamos como correta a teoria de que o ser humano é descendente do macaco, e “cresceu e multiplicou-se” bárbaro, supersticioso, idólatra e desconhecedor do verdadeiro Deus, desde o amanhecer de sua existência. Repudiamos essa teoria, pois ela está em total desacordo com as mais recentes e autorizadas pesquisas antropológicas, e por ser algo que agride frontalmente a Palavra de Deus, precisamente os versículos 26 e 27 do primeiro capítulo do livro de Gênesis.
     À luz das conclusões a que chegaram muitos estudiosos não comprometidos com o darwinismo (o etnólogo alemão cita vários deles no seu livro A Crença do Homem Pré-histórico), a imagem do primeiro homem vem-se tornando cada vez mais humana, mais próxima da Bíblia, e mais afastada da corrente evolucionista.
    Finalizando, não poderíamos deixar de citar as oportunas palavras de um desses autorizados pesquisadores não-darwinistas, o antropólogo J. Kalin: “No lugar do homem primitivo, brutal e animalesco, conforme ele vivia na fantasia de Ernest Haeckel, Charles Darwin e outros, surge a imagem de um homem em cujo rosto desde o princípio sopra o hálito de Deus”.
Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PEDIR: NÃO SABEMOS O QUE PEDIMOS A DEUS, E MUITAS VEZES AS CONSEQUÊNCIAS SÃO DESASTROSAS

  Jefferson Magno Costa
   "Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis...” (Mt 20.22)

     Não há ser humano neste mundo que seja capaz de prever que resultado terá em sua vida a concretização daquilo que ele pede a Deus. Fundamentaremos essa verdade na Bíblia, para que as consequências de minha afirmação sejam de maior e mais seguro ensinamento. A petição existente no texto do Evangelho que acabamos de citar foi de uma mãe em benefício de seus dois filhos. Porém, hoje não nos ocuparemos com o pedido da mulher de Zebedeu, e sim com o pedido de outra mãe em benefício próprio, e dos pedidos de outros dois filhos, cada um visando seu próprio benefício.

O IMPORTUNO PEDIDO DE RAQUEL AO ESPOSO JACÓ
     A mais difícil, a mais importuna e impaciente petição que uma mulher fez neste mundo foi a de Raquel a seu marido Jacó: “Vendo, pois, Raquel que não dava filhos a Jacó, teve Raquel inveja de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro” (Gn 30.1). Jacó respondeu que só Deus tem poder de dar filhos aos pais. Porém, mesmo sendo esta reposta tão forte e tão conclusiva, ainda assim Raquel não se conformou com ela. Insistia: “Dai-me filhos, ou morrerei”. Certamente Jacó chamava a atenção de Raquel para o fato de ela estar na primavera de seus anos, e que ainda lhe restavam muitos durante os quais podia ter naturalmente o que tanto desejava: filhos.
     Jacó também animava sua esposa com o exemplo de sua avó Sara, que depois de tão longa esterilidade, dera à luz Isaque, pai de Jacó e sogro de Raquel. Porém, a moça tornava-se mais impaciente. Jacó apelava para o elogio e a lisonja, que são poderosos quando a intenção é atingir a fraqueza e a presunção do sexo feminino. Ele dizia a Raquel que olhasse para si e se consolasse com a rosa, a qual, sendo a beleza dos prados e a rainha das flores, é flor que não dá fruto.
     Mas nem a lisonja, nem a razão, nem o exemplo, nem a esperança eram suficientes para moderar a ansiedade de Raquel. “Dai-me filhos, ou morrerei”. Esta era a petição, este o aperto, esta a insistência.
     Como Raquel foi atendida, e quais foram as consequências do seu pedido? Ela foi atendida conforme pedia: teve filhos, mas as consequências foram muito contrárias ao que ela esperava. O que Raquel pedia não era um filho, e sim filhos. E isto Deus lhe concedeu, porque tornou-a mãe de José e de Benjamim. Mas as consequências do seu pedido foram em tudo contrárias ao que ela pedia, porque dando à luz com total felicidade ao seu primogênito José, morreu de parto ao dar à luz o segundo filho, Benjamim.
     Reconsiderem os termos pelos quais Raquel pedia filhos: “Dá-me filhos, senão morro” (Gn 30.1). E enquanto pensava que morreria se não tivesse filhos, foi exatamente porque os teve  que morreu, durante o parto do segundo. Achava que pedia a vida, e pedia a morte. Achava que pedia sua alegria e a alegria para a sua casa, mas pedia a tristeza, o luto, a viuvez, a orfandade. Pedia o que havia de levá-la a trocar sua casa pela sepultura. Tão errados são os desejos e os pedidos humanos. Quando pedimos, mesmo com insistência, cheios de convicção de nossa necessidade, usando argumentos racionais diante de Deus, assim mesmo não sabemos o que pedimos.

SANSÃO E O FILHO PRÓDIGO CAÍRAM EM SITUAÇÃO DE DESASTRE E INFELICIDADE PORQUE NÃO SABIAM O QUE PEDIAM
     Conhecida é a história de Sansão, e conhecida é a história do filho Pródigo. Ambos são famosos pela vida de extravagâncias que tiveram. Deixando de considerar o princípio da narrativa da tragédia de cada um, consideremos o final, e vejamos o estado de extrema miséria no qual cada um caiu indo por caminhos tão diferentes.
     Vocês estão vendo aquele homem robusto e agigantado, com o semblante ferozmente triste, os cabelos cortados, os olhos fundos e sanguinolentos, preso em um cárcere e atado com duas correntes de bronze a uma moenda que ele gira como um animal? Pois aquele é Sansão.
     Vocês estão vendo um moço pálido e pensativo, vestido de farrapos e quase despido, apoiado em um cajado, e tomando conta de um asqueroso rebanho de porcos? Pois aquele é o filho Pródigo.
     Quem haverá que não se admire de tal reviravolta na vida de duas personalidades tão notáveis? Um tão valente, outro tão altivo! Pois é nessa situação que vieram parar as riquezas, os caprichos e a arrogância do filho Pródigo? Mas o pior é que não pararam só nisso, e sim desceram de mal a pior, pioraram dia após dia, por que o filho Pródigo, morrendo de fome enquanto tomava conta dos porcos, não tinha autorização para se alimentar nem mesmo com as bolotas que os porcos comiam.
     E Sansão, após ser derrotado, foi trazido à publico para ser zombado pelo povo. E o trataram com tanto escárnio e indecências, que Sansão preferiu tirar sua vida com as próprias mãos.
     Mas qual teria sido a causa desses acontecimentos, e de mudanças tão extremas? Aqui não lhes peço admiração, e sim pasmo. Essas mudanças de sorte na vida de Sansão e do filho Pródigo foram causadas por eles terem sido atendidos nos pedidos que cada um fez insistentemente.
     Sansão pediu a seus pais que lhe dessem por mulher uma filisteia: “Vi uma mulher em Timna, das filhas dos filisteus; agora, pois, tomai-ma por mulher” (Jz 14.2). Os pais lhe concederam o que ele pediu, e essa mulher foi a causa dos conflitos que Sansão teve com os filisteus, e dos enganos e traições de Dalila, da sua prisão, do seu cativeiro, da sua cegueira, das suas afrontas, e do seu fim lastimável.
     Da mesma maneira, o filho Pródigo pediu a seu pai que lhe desse, apesar de o pai ainda estar vivo, a parte da herança a que ele teria direito quando o pai morresse. O pai concedeu o que o filho pedia, e essa herança, consumida com esbanjamento e irresponsabilidade, foi a causa do seu empobrecimento, da sua miséria, da sua fome, da sua servidão, da sua desonra e das suas humilhações.
     Chamemos agora a Raquel, a Sansão e ao filho Pródigo, a essa mãe e a esses dois filhos, e perguntemos se eles, depois de tão pesadas e contrárias experiências, pediriam o que pediram? Raquel pediria filhos, se soubesse que tê-los lhe custaria a própria vida? Sansão pediria a filisteia, caso soubesse que ela seria a causa de sua derrota, da perda dos próprios olhos com os quais a vira, e de sua morte? O filho Pródigo pediria a herança antecipada se soubesse que com ela haveria de comprar a miséria, a servidão, a desonra? Claro que não.
     Pois se agora não haveriam de pedir nada do que pediram, mas antes o contrário, por que o pediram então? Vocês já sabem a resposta. Pediram-no, porque não sabiam o que pediam. Pediram, porque ninguém sabe o que pede.
     Tendo provado que o certo e infalível é ninguém saber o que pede, tirem para si as consequências quem acha até agora que foi mal atendido nos seus pedidos. Se você soubesse que o que pede resultaria em um grande bem, então teria razão de estar contente ao ver o seu pedido atendido, ou descontente de o ver negado. Porém, ignorando se o que pede resultará em bem ou em um mal, por que fica tão desconsolado? Se me desconsolo porque penso que o que estou pedindo e não recebi ia me resultar em bem, por que também não me consolo ao considerar que o que estou pedindo poderia resultar em um grande mal na minha vida? Principalmente levando-se em conta que, neste mundo, o mal é mais certo de acontecer do que o bem.

DEVEMOS NOS CONTENTAR TAMBÉM COM AS RESPOSTAS NEGATIVAS DE DEUS
     Oh, se soubéssemos o que pedimos! Oh, se soubéssemos o que nos resultará em bem ou o que nos resultará em mal, nós nos consideraríamos muito bem atendidos ao recebermos aquela que muitas vezes classificamos de uma má resposta! O que para nós é bom ou ruim, só Deus o sabe. Nós ignoramos. E esse conhecimento de Deus, e essa nossa ignorância são os dois polos sobre os quais se apoiam a temeridade de nossos pedidos, e a nossa resignação diante das respostas.
    Nós devemos fazer os nossos pedidos como aqueles que não sabem o que pedem, e receber as respostas como vindas da parte dAquele que sempre sabe o que dá, e o que é bom para nós. Pensamos que os homens são os que nos respondem, e por isso murmuramos e nos queixamos deles. Agimos assim porque nos esquecemos que acima de tudo, e no controle de todas as coisas está Deus, como Presidente supremo de todos os lugares onde nossas petições são feitas. É ele que nos dá ou nega o que pedimos, como o único que sabe o que resultará em bem ou que resultará em mal para nós.
     Salomão disse que as sortes não dependem da mão do homem que as tira, e sim da mão do Deus que as governa (Pv 16.33). Se a resposta do que você pediu não veio como você esperava; se você não conseguiu a aprovação naquele concurso, aquela nomeação, aquele novo cargo, aquele aumento, aquele prêmio, aceite isso como resposta vinda da parte de Deus, pois só ele sabe o que lhe convém. Os homens só fazem benefício quando dão; Deus não só faz benefício quando dá, mas também quando nega.

O QUE DEUS QUER NOS ENSINAR QUANDO RECEBEMOS DELE UM “NÃO” OU ALGO CONTRÁRIO AO QUE LHE PEDIMOS
     Disse Jesus certa vez: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.9). E para maior confirmação dessa promessa, Jesus acrescentou: “Porque qualquer que pede recebe; e quem busca, acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á” (v. 10). Esse ensinamento não pode ser mais universal nem mais claro, porém, com todo o respeito por quem o proferiu, que foi ninguém menos que o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, peço-lhe permissão para apontar nele uma flagrante contradição, que torna-se muito clara quando consideramos o que acontece todos os dias ao nosso redor. E não há nesse auditório quem não possa testemunhar contra ele com sua própria experiência.
     Quantos senhores de ricas e grandes casas pediram a Deus um herdeiro e não o alcançaram? Quantos pobres, cheios de filhos, pediram para eles o sustento, e não tiveram com que lhes matar a fome? Quantos na enfermidade fizeram votos pela saúde e morreram sem ter alcançado a cura? Quantos, em meio à tempestade, bradando ao Céu, foram engolidos pelas ondas? Quantos no cativeiro, orando continuamente pela liberdade, acabaram morrendo nas prisões e calabouços? E para não irmos mais longe, consideremos o texto que citamos no início desse sermão, que contém o pedido da mãe dos filhos de Zebedeu, pedindo em favor dos seus filhos, e pedindo de joelhos (Mt 20.20). A resposta de Jesus foi um duplo “não”: “Não sabeis o que pedis" (v 22), e "Não me pertence dá-lo...” (v 23).
    Pois se é verdade certa e evangélica, provada e experimentada, que muitos pedem a Deus e não alcançam o que pedem, por que então Jesus diz “Pedi e recebereis”? E por que ele afirma absoluta e universalmente que todos os que pedem recebem? A dúvida não pode ser das mais difíceis, porém é daquelas que pertencem ao grupo das que se alicerçam no mal entendimento ou na errada interpretação do texto bíblico.
     Considerem atentamente o que dizem as palavras de Jesus, e o que não dizem: “Pedi, e dar-se-vos-á (...) porque qualquer que pede recebe” (Lc 11.9,10). Observem que Jesus não disse: “Pedi, e recebereis o que pedis”, e sim: “Pedi e recebereis”. Também não disse: “qualquer que pede, recebe o que pede”, e sim: “qualquer que pede recebe”. E o que é que recebe? O que Deus sabe que será o melhor para a pessoa. Se você pede o que lhe convém, receberá o que pede; mas se pedir o que não lhe convém, receberá um “não” como resposta ao que pediu. Deste modo, qualquer um que pede, recebe. Porque ou recebe o que pede, ou recebe o que não soube pedir, caso soubesse o que é melhor para ele. Quando um homem pede o que não lhe convém, se soubesse o que pedia, pediria que o negassem. Só Deus sabe o que nos convém, e é por isso que ele supre com sua onisciência nossa ignorância, e nos responde muitas vezes com um “não” (como fez aos filhos de Zebedeu), e nos nega o que pedimos.
     Se um filho (diz Cristo, em Lucas 11.11-13) pedir pão a seu pai, este dar-lhe-á uma pedra? Se lhe pedir peixe, dar-lhe-á uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Pois esta é a razão porque Cristo, que nos trata como filhos, nos diz muitas vezes “não”, e nos nega o que pedimos, porque pedimos pedra, porque pedimos serpentes, porque pedimos escorpiões.
     Achamos que estamos pedindo o necessário, e estamos pedindo o supérfluo e o inútil. Achamos que estamos pedindo o proveitoso, e estamos pedindo o nocivo: e isto é pedir pedras. Achamos que estamos pedindo o que vai nos sustentar, e estamos pedindo veneno. Achamos que estamos pedindo o que vamos comer, e estamos pedindo o que vai nos comer. Achamos que estamos pedindo o que nos ajudará a viver, e estamos pedindo o que nos matará: e isto é pedir serpentes e escorpiões. Quando somos tão néscios e tão meninos, que não distinguimos o escorpião do ovo, nem a serpente do peixe, nem o pão da pedra, Deus, que é pai, e excelente pai, por que não haveria de nos negar o que tão ignorante e tão perigosamente pedimos? Oh, felizes são aqueles a quem Deus assim responde, porque sabe que não sabem o que pedem.
     (Trechos do Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, pregado em Lisboa, na Capela Real, em 1669, pelo maior pregador da língua portuguesa, Antônio Vieira, aos 61 anos de idade. Adaptado e atualizado para o leitor do século 21).
Jefferson Magno Costa

LONGANIMIDADE: DEUS TEM UMA MEDIDA DE TOLERÂNCIA PARA CADA PECADOR

Jefferson Magno Costa
     Na mente divina existe certa medida de tolerância para com os pecados de cada um. E enquanto essa medida não está cheia, há esperança de perdão dos pecados e de salvação para o pecador. Mas quando essa medida se enche, não há mais nenhuma esperança.
    Deus prometeu a Abraão que daria a ele e a seus descendentes a terra dos amorreus, e por isso a chamou de terra da Promissão. Porém, o Senhor disse a Abraão que aquela promessa só iria se cumprir muitos anos depois. E por quê? É o próprio Senhor quem revela o motivo: “...porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia” (Gn 15.16).
     A longanimidade do Senhor para com aquele povo, sua paciência em esperar que os amorreus se arrependessem e mudassem de atitude, ainda não tinha chegado ao seu limite. Esse foi, portanto, o motivo porque os patriarcas e seus descendentes peregrinaram durante tantos anos pelo deserto, até poderem se estabelecer às margens do rio Jordão: porque a medida dos pecados dos amorreus ainda não havia transbordado.
    Essa foi também a mesma observação que o Senhor Jesus fez aos escribas e fariseus, quando disse que eles, conduzindo-se como sepulcros caiados, cheios de hipocrisia e iniquidade, estavam enchendo a medida de pecados que vinha sendo preenchida pelos pais deles (Mt 23.27-33).
     No profeta Zacarias temos uma ilustração dessa medida da longanimidade de Deus. Um anjo apareceu ao profeta, e disse-lhe que levantasse os olhos e visse o que saía pelas portas de Jerusalém. Zacarias olhou e viu que saía um cesto quadrado (um efa), usado para medir cereais, e após o cesto uma tampa de chumbo, pesando um talento (45 quilos). Havia uma mulher sentada dentro do cesto. O anjo identificou-a como a própria impiedade, derrubou-a dentro do cesto e fechou-o imediatamente com a tampa de chumbo. Em seguida Zacarias viu saírem de dentro da cidade duas mulheres, que tinham asas como de cegonha. Elas ergueram o cesto do chão e o levaram para Sinar (Babilônia), pois ali estava sendo edificada uma casa para o cesto (Zc 5.5-11).
     Até aqui, palavra por palavra, letra por letra, a visão de Zacarias, na qual o Senhor lhe representou a destruição de Jerusalém e do reino de Judá. A cidade seria sitiada pelos exércitos de Nabucodonosor, e os judeus, derrotados e cativos, seriam levados para a Babilônia. E por que o Senhor usou todos esses aparatos e símbolos para representar aquele cativeiro? Para ensinar ao profeta e a todos nós como ele, em sua longanimidade, procede com relação aos pecados que as nações, os povos e as pessoas cometem.
     Na visão de Zacarias, a primeira coisa que aparece do juízo de Deus é o cesto, ou a medida da longanimidade que o Senhor tem para com os pecados das nações e das pessoas. Enquanto essa medida não está cheia, o castigo é mantido suspenso pela misericórdia de Deus. O Senhor espera sempre que o pecador se arrependa, pois ele não tem prazer na morte do ímpio (Ez 33.11). Porém, a partir do momento em que essa medida se completa, o castigo divino desaba sobre o pecador.
     E esse é o significado do que fez o anjo com a mulher chamada Impiedade: trancou-a dentro do cesto, pois ela representava todas as idolatrias, sacrilégios, roubos, homicídios, adultérios, todas as injustiças e crueldades que Israel estava praticando diante de Deus. A medida transbordou, e por isso o anjo lacrou-a imediatamente com tampa de chumbo, tão pesada que nem para diminuir, nem para aumentar o conteúdo do cesto, era possível abri-la. Estando a medida cheia, agora só restava a execução do castigo.
     E quem eram aquelas duas mulheres com asas de cegonha, que sem tocar a terra, mas deslocando-se velozmente pelo ar, levaram o cesto de Jerusalém para Babilônia? Representavam a misericórdia e a justiça divinas. A misericórdia que suspendera o castigo do Senhor até o limite máximo de sua longanimidade; e a justiça, que voava agora para a executar o castigo. Se os homens se arrependessem da multidão dos seus pecados, a misericórdia os perdoaria. Porém, por eles não se arrependerem e encherem de pecados a medida da longanimidade de Deus, a justiça não pode deixar de executar o castigo. Deus é misericórdia, mas também é justiça.
     Assim como a longanimidade de Deus tem estabelecido certa medida para os pecados de cada cidade, reino ou país, assim também tem estabelecido uma medida para os pecados de cada ser humano. Porém, essa segunda medida deve ser mais temida que a primeira, porque as cidades, os reinos e os países não vão para o inferno, mas os seres humanos vão.
     Outro detalhe que devemos levar em conta é que a medida dos pecados é maior para uns, e menor para outros. E nisto não há injustiça alguma no arbítrio da Providência Divina. É suma justiça. Senão, vejamos: Deus também põe medida aos dias da vida de cada pessoa. Sobre isto, Davi fez um pedido a Deus: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e a medida dos meus dias qual é, para que eu sinta o quanto sou frágil” (Sl 39.4).
     E esta medida é tão certa e determinada, que chegado o último dia, não há como fugir dele, conforme comentou Jó: “O homem, nascido de mulher, é de bem poucos dias e cheio de inquietação. Sai como a flor e se seca; foge também como a sombra, e não permanece (...) Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles” (Jó 14.1,2,5).
    Pois assim como ninguém se queixa de Deus nem estranha que a medida dos dias de uns e de outros seja tão desigual, muito menos deve estranhar que a medida dos pecados seja desigual também. Às vezes basta a uma pessoa um só pecado para ter Deus justíssimo direito de encerrar sua vida e castigá-lo. E a razão fundamental é o supremo domínio de Deus, que é igualmente autor da graça e da vida. E assim como na condição de autor da vida pode limitá-la em certo número de dias, da mesma forma como autor da graça, pode limitar o perdão a certo número de pecados.
     Donde se conclui que, assim como aquele dia que preencherá a medida dos teus dias será o último, e chegado a ele não poderás deixar de morrer, assim também aquele pecado que encherá o número dos teus pecados (caso não te arrependas e mudes tua maneira de viver), também será o último. E assim que o cometeres, não poderás deixar de ser condenado, porque a medida da longanimidade de Deus se encheu, e não haverá mais lugar para o perdão.
     Ouçamos o que o próprio Senhor disse pela boca do profeta Amós: “Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Judá e por quatro, não retirarei o castigo, porque rejeitaram a lei do Senhor e não guardaram os seus estatutos; antes, se deixaram enganar por suas próprias mentiras, após as quais andaram seus pais. Por isso, porei fogo a Judá, e ele consumirá os palácios de Jerusalém. Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Israel e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sapatos” (Am 2.4-6).
     Quer dizer: cometeram o primeiro pecado e perdoei-lhes; cometeram o segundo, e perdoei-lhes; cometeram o terceiro, e também lhes perdoei. Mas porque cometeram o quarto, não hei de lhes perdoar. Pois Deus, sendo infinitamente misericordioso, não perdoa mais que três pecados? Sim, perdoa. Perdoa trezentos, e perdoa três mil, e se o pecador se arrepender de todo coração, perdoa três milhões. Porém, nessas sentenças põe-se o número certo pelo incerto, para que o pecador não se torne contumaz e confiado.
    Reduzida, pois, a medida ou o número de pecados a quatro, Deus diz que perdoará o primeiro, e perdoará o segundo, e perdoará o terceiro, e que para perdoar esses três pecados, levará nos três casos o pecador ao perdão. Porém, se ele cometer o quarto, não haverá perdão; porque o quarto pecado nesse caso é o que encherá a medida, e o pecado que enche a medida é pecado que não será alcançado pela misericórdia, é pecado sem perdão. Porque nesse último, nem Deus o há de perdoar, nem o pecador há de se arrepender e se converter.
     Aqui podemos entender um ponto dificultosíssimo de 1Jo 5.16, que diz: “Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.” A dificuldade de interpretação desse versículo é tão grande, que os expositores e teólogos, no esforço de comentá-lo, dividem-se em mais de quinze opiniões, não concordando sobre a que pecado o evangelista João chama de “pecado para morte”, pelo qual não devemos orar, por ser irremissível e sem perdão.
     Alguns dizem que é o pecado do homicídio, outros do adultério, outros o da inveja. Outros acham que é o pecado da blasfêmia, outros o da infidelidade, outros o da apostasia, outros o da obstinação, e outros, sem o nomearem, dizem que é um pecado gravíssimo.
     Porém, contra todas essas opiniões existe o fato de que não há pecado, por grave ou gravíssimo que seja, que Deus não perdoe. Portanto, que pecado seria esse, irremissível e sem perdão, peado que João classifica de “para morte?” Não é nenhum pecado particular, nem por sua natureza mais grave que os outros, senão qualquer pecado, ainda que de muita inferior malícia que os referidos até agora, contanto que seja o último, e o que acabará de encher a medida que Deus estabeleceu para cada ser humano. Porque a partir do momento em que essa medida se encher com qualquer pecado que seja, já não heverá lugar para o perdão. E esse será o pecado que João chama de “para morte”, e morte eterna.
     O que Deus faz no momento em que o pecador acabou de encher a medida dos seus pecados, ou é matá-lo, ou afastar-se dele para sempre. A primeira situação aconteceu com o rei Belsazar, cuja sentença de morte apareceu escrita em três palavras (uma delas repetida) na parede do seu palácio, estando ele à mesa (Dn 5.1-30). A primeira palavra foi Mene: “Contou”. Porque Deus fez a conta dos pecados de Balsazar. E como naquela noite e naquela hora ele cometeu o último pecado, e esse acabou de encher a medida que estava estabelecida para ele, e até o último não houve arrependimento de sua parte, a longanimidade de Deus se esgotou, e sua sentença de morte foi escrita na parede.
     Quando Belsazar sentou-se à mesa naquela noite para se embriagar usando e profanando os vasos sagrados que ele havia mandado trazer do Templo, tinha menos um só pecado dos que eram necessários para encher a medida de tolerância e misericórdia de Deus, que estava estabelecida para ele. Uma vez cometido aquele pecado, a medida de iniquidade transbordou, e soou para aquele rei sua sentença de morte física, espiritual e eterna. Belsazar morreu naquela mesma noite.
     (Trechos do Sermão do Quarto Sábado da Quaresma, pregado na Bahia, em 1640, pelo maior pregador da língua portuguesa, Antônio Vieira, na ocasião, com 32 anos de idade. Adaptado e atualizado para o leitor do século 21).
Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

CONFIRMADO: CATÁSTROFES CLIMÁTICAS ASSOLARÃO A HUMANIDADE

Jefferson Magno Costa        
(Em 1983, pedi baixa da Marinha do Brasil, onde servi como Fuzileiro Naval, para trabalhar como jornalista do jornal O Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus no Brasil, cuja redação ficava no bairro Vicente de Carvalho, no Rio de Janeiro. Três anos depois (1986), escrevi a seguinte matéria, que curiosamente torno a publicar neste blog para, juntos, eu e você, verificarmos que percentual os cientistas conseguiram prever, há 25 anos, sobre a alarmante situação climática em que o nosso planeta se encontra hoje. Eis a matéria):
     Em decorrência da poluição indiscriminada da atmosfera, o aquecimento de até cinco graus na temperatura da Terra poderá causar sérios desequilíbrios climáticos, como enchentes, secas, desertificação, erupções vulcânicas e terremotos, agravando ainda mais a situação do planeta.
     Um desastre climático de proporções mundiais se abaterá sobre a humanidade no decorrer da década de 2000, quando o aquecimento da Terra provocará o derretimento do gelo polar, elevando o nível das águas nas regiões costeiras e causando grandes inundações. Este alerta foi dado pela agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, e tornado oficial pelo Governo Americano, que além de advertir sobre o fato de que a Terra sofrerá uma catastrófica redução em sua capacidade de produzir alimentos, fez um dramático apelo às nações, sugerindo que sejam realizadas pesquisas e desenvolvidos programas, a fim de evitar que o desequilíbrio climático se torne uma calamidade mundial.
     Segundo os cientistas, a causa desse fenômeno é o aumento de bióxido de carbono na atmosfera – um gás produzido pelo uso do petróleo e seus derivados, e pela queima de florestas – pois desde tempos muitos anteriores à Revolução Industrial, a humanidade vem fazendo uso de combustíveis fósseis, principalmente petróleo e carvão. O uso indiscriminado desses combustíveis tem envolvido a Terra, em todos os seus 360 graus de circunferência atmosférica, de uma espessa camada de bióxido de carbono, e este gás impede a expulsão do calor para o espaço, aumentando sensivelmente a temperatura do planeta, e causando o que os cientistas chamam de “efeito estufa”.
     O gás carbônico resultante da queima de combustíveis se distribui homogeneamente na atmosfera e na troposfera, ou seja, na camada que vai da superfície da Terra a até cerca de 15 quilômetros de altura, formando um invólucro, sob o qual todos estamos. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o maior responsável pela liberação de gás carbônico no mundo são os Estados Unidos (27 por cento), seguidos da Rússia, Europa e dos países em desenvolvimento (com destaque especial para a China). Sabe-se que os oceanos absorvem parte desse gás, como também o fazem as árvores, durante o processo de fotossíntese, mas ignora-se em que quantidade.
     Conscientizados da gravidade destes fatos, técnicos da Organização Metereológica Mundial mantêm o programa “Vigilância Mundial do Tempo”, que tem como objetivo detectar e acompanhar toda e qualquer alteração climática sobre a Terra. Em vários países, muitos observatórios estão funcionando com este fim, como o observatório de Mauna Loa, no Havaí, onde são feitas medições da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. No século XIX, tal concentração variava entre 270 e 290 partículas por milhão. Em outras palavras: em um volume contendo um milhão de partículas de ar, apenas 270 eram gás carbônico. Em pouco mais de cem anos, essa concentração subiu, em relação ao século passado, entre 17 e 26 por cento.
     Porém, as medições de Mauna Loa indicam que, na década de 70, a concentração de gás passou a crescer com maior rapidez, o que leva a crer que nos próximos dez anos atingirá um crescimento superior a dez por cento, vindo a dobrar, no ano 2100, a atual taxa de concentração, caso essa progressão continue.
     O Diretor do Departamento de Estudos Estratégicos da AMM, John Hoffman, advertiu que “do ano 1990 ao ano 2000 haverá grandes mudanças, e teremos de nos preparar para conviver com elas”. O Astrônomo-chefe do Observatório Nacional, no Brasil, Ronaldo de Freitas Mourão, afirmou que “se os homens não entenderem que não podem continuar desmatando a Terra, e que a fonte de energia mais pura é o Sol, e não o petróleo ou a energia nuclear, breve as condições de vida na Terra serão as mínimas possíveis”.

DISCORDÂNCIAS NA CHINA E NA ALEMANHA
     Concordando com a possibilidade de o fenômeno ocorrer no início da próxima década, mas discordando do quadro de suas manifestações, cientistas chineses reuniram dados meteorológicos relativos a mil anos, e verificaram que todas as vezes que ocorre um alinhamento de planetas, tem início sobre a Terra uma era glacial – o que contraria as previsões americanas.
     Lembrando que o último alinhamento de planetas foi registrado em dezembro do ano passado, os chineses estão prevendo o congelamento de grandes extensões de terra em diversas regiões do Globo. Haverá – dizem eles – um resfriamento médio de dois graus centígrados na temperatura do planeta, a expansão dos territórios gelados e o aparecimento de gelo em regiões onde até agora esse elemento é inexistente.
     Outro cientista discordou totalmente das catástrofes nas previsões americanas. O pesquisador alemão Hermann Flohan, da Universidade de Bonn, apresentou um trabalho onde prevê, como resultado das alterações climáticas provocadas pelo “efeito estufa”, a expansão de florestas em direção aos pólos, chuvas, diminuição de desertos e aumento das áreas de cultivo de cereais. O cientista alemão afirmou que “um aumento de até quatro graus centígrados na temperatura da Terra não conseguirá derreter a calota polar antártica, embora nasçam árvores no Continente Ártico e a Escandinávia vá se transformar numa ilha, devido ao derretimento parcial do Oceano Glacial Ártico”.
     Porém, enquanto a discussão prossegue, a Organização Metereológica Mudial já reuniu mais de mil trabalhos científicos sobre o “efeito estufa”. Vale salientar que a comunidade científica concorda apenas em que haverá um aumento de temperatura em decorrência da concentração de gás garbônico, mas as consequências continuam a ser objeto de controvérsias.
     Para quem leu o livro O Alinhamento dos Planetas, de autoria do pastor norte-americano N. Lawrence Olson, editado pela CPAD em 1980, a expectativa do fenômeno não se constitui novidade, pois entre os efeitos do alinhamento, o livro prevê que “um aumento excessivo de calor na Terra poderá causar o degelo das calotas polares, que soltaria enorme quantidade de água, inundando cidades”.
     Para nós, indubitavelmente esse fenômeno será mais um dos sinais do retorno de Cristo. “Num abrir e fechar de olhos” (1 Co 15.52), Cristo arrebatará a sua Igreja. Portanto, devemos estar atentos para os sinais dos tempos, como aconselhou o apóstolo Pedro: “Aguardando, e apresentando-vos para a vida do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão” (PE 3.12), pois “O dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há, se queimarão”. 2 Pe 3.10.
Jefferson Magno Costa

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