sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A SABEDORIA DOS RABIS

Jefferson Magno Costa
     Ensinar é uma arte. Todos os dias, a vida nos põe diante de situações em que somos professores e alunos. Os pais que orientam e corrigem os seus filhos, o estudante que permanece horas a fio diante dos livros, o empregado que aprende a viver com um modesto salário, o orador que prende a atenção do auditório e o persuade, o iniciante que aprende com os mais velhos os segredos do seu ofício, o médico que esclarece seu paciente, o jovem esposo que anima sua esposa: todos exercem sua função de professores e alunos.
     Diz Gilbert Highet em sua Arte de Ensinar: “Muitos não percebem quanto de sua própria vida pessoal é adquirida por essa forma de educação não intencional ou aprendizagem fortuita. Muitos não entendem que a maioria de nós, desde que estejamos em contato com nossos semelhantes, estamos incessantemente aprendendo e ensinando”.
     Palavras semelhantes escreveu o etnólogo, sociólogo e folclorista Luis da Câmara Cascudo: “Há uma universidade, a mais antiga, a mais prestigiosa: é a Universidade da Vida, em que você é professor e aluno a vida toda”.
     O apóstolo Paulo, escrevendo sobre a humildade e a fidelidade que devemos ter no uso dos dons que Deus misericordiosamente nos concede, fala da dedicação que deve ter ao ensino, aquele que ensina: “De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada,... se é ensinar, haja dedicação ao ensino”, Rm 12.6,7.
     Entre os judeus, os rabis cumpriram fielmente essa dedicação. O próprio apóstolo Paulo deveu o seu profundo conhecimento das leis e tradições do seu povo a um deles, o rabi Gamaliel. A palavra rabi, ou rabino, em hebraico, significa “mestre”, ou “meu mestre”.
     Esforcemo-nos para aprender um pouco com os antigos rabis judeus. O Talmude da Babilônia e o Talmude de Jerusalém estão cheios de seus ensinamentos. As antigas bibliotecas da Europa guardam em suas estantes verdadeiros tesouros, livros escritos pelos sábios rabis da Diáspora, que enriqueceriam em muito a nossa cultura cristã-evangélica, caso estivessem ao alcance de nossas mãos. (Estamos desenvolvendo um projeto para tornar isto possível. Precisamos de sócios).
     Nessas velhas bibliotecas européias, particularmente nas bibiotecas da Península Ibérica (Espanha e Portugal), existem centenas de livros escritos por sábios judeus da Idade Média e da Idade Moderna, livros que valem muito mais do que o ouro e as pedras preciosas que os colonizadores saquearam de nossas minas e levaram para a Europa. 
     Além da gigantesca e insuperável contribuição da Bíblia na educação da humanidade, dos escritos e dos lábios dos primeiros rabis brotou grande parte da sabedoria que iria enriquecer a moral e a religião de Israel e, posteriormente, de todo o mundo.

ALGUNS EDUCADORES NAS CULTURAS PAGÃS
     Enquanto no Egito, Toth, segundo a tradição, escrevia os livros herméticos e fazia nascer o politeísmo, ensinado pelos mestres pertencentes à primeira das três castas em que os egípcios se dividiam; na Assíria e na Babilônia, esse mesmo politeísmo foi divulgado pelos magos astrônomos, com as ligeiras variações de adaptação local.
     Na Pérsia, Zoroastro propagou a doutrina dualista do bem e do mal, registrada nas páginas do Zend-Avesta, enquanto japoneses e chineses seguiam fielmente os preceitos filosóficos e morais de Lao-tsé e Confúcio, contidos no Tao, nos Quatro Livros Mahabarata, Ramaiana, Puranas, Vedas e nas Leis de Manu, fontes principais do bramanismo.
     Na Grécia, a educação derivou-se do ensinamento de filósofos, matemáticos, poetas, estadistas, dramaturgos e oradores, com o Olimpo (o Céu dos gregos) povoado de deuses possuídos pelos mesmos vícios, necessidades e virtudes dos homens, esses mesmos deuses tomando parte nas guerras humanas e brigando entre si.

A EDUCAÇÃO DOS JOVENS JUDEUS
     Para o judeu, a educação sempre teve por fim salvaguardar a unidade nacional e conservar acesas, na mente e no coração do povo, as tradições sagradas. Diz L. Riboulet em sua História da Pedagogia:
“A família hebréia é a mais pura da antiguidade. Os filhos são consagrados a Deus desde o nascimento. A mãe tem o sentimento de sua responsabilidade como educadora; dá aos filhos as primeiras noções religiosas, narra-lhes os favores singulares de que Deus cumulou o seu povo, e o faz soletrar os preceitos divinos nas Sagradas Escrituras. O pai era igualmente obrigado, pelos livros sagrados, a transmitir aos filhos as tradições nacionais, a explicar-lhes as divisas das terras. O menino crescia numa atmosfera de religião, de piedade e de reconhecimento para com Deus”.
     Corrigindo-lhes os defeitos, as más inclinações, os pais inspiravam nos filhos o amor ao trabalho, a aversão aos prazeres nocivos, a caridade para com os pobres; enfim, dirigia-os à virtude. E para o judeu, a virtude conduz à santidade, e santo não é aquele que mais ora ou mortifica a carne. Santo é o homem correto. Na cultura judaica, todo homem que procura o caminho certo, traçado e aprovado por Deus, pode ser considerado santo.
     O conceito de santidade foi amplamente ensinado pelos rabis aos jovens frequentadores das sinagogas. Todos os pequenos judeus, durante a fase estudantil, eram levados pelos pais à presença dos rabis, para ouvirem a explicação dos livros sagrados. As “luzes de Israel, príncipes do povo, sustentáculos da sociedade”, como eram conhecidos os rabis, eram os responsáveis pelo costume, praticado ainda hoje pelas famílias judaicas de, em certas épocas do ano, comparecerem à Jerusalém para ouvirem a leitura dos Livros Divinos.
     Mas esse tesouro de ensinamentos que a nação judaica cuidadosamente tem preservado desde os tempos mais remotos, as páginas das Sagradas Escrituras, possuídas da glória e da majestade do Senhor, escritas sob os rumores de asas do Espírito Santo, e os livros menores, onde a sabedoria popular, o humor, as festas e as figuras do folclore se encontram registrados, todos eles não teriam adquirido a significação e o valor universal que adquiriram, se o judaísmo não tivesse cedido inúmeros elementos ao cristianismo, que nasceu das palavras e atos de um humilde carpinteiro, e da fé e da pregação de alguns rudes pescadores.

O MAIS BELO E O MAIS SÁBIO DOS RABIS
     Essa herança judaica não estaria hoje tão difundida na consciência humana, se Jesus, o Messias prometido ao seu povo, o Salvador da humanidade, o mais belo e o mais sábio dos rabis, não tivesse nascido, santo e suave, na humildade de uma manjedoura, sob uma clara noite em Belém. Jesus nasceu para ensinar ao seu povo e ao mundo gentílico, os dois grandes mandamentos em que se resume toda a lei: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo.
     Entre os antigos rabis destaca-se um que, segundo a tradição, foi o menos dogmático dos sábios rabínicos. Chamava-se Hilel. Em sua época circulava um ditado que dizia: “Paciente e humilde como Hilel, e não apaixonado como Shamai”. Hilel falava a linguagem do povo, ensinava-o com alegria e era proverbial sua paciência para ouvir. Célebre é o seu conselho: “Sede dos discípulos de Aarão, amando a paz e lutando pela paz, amando a humanidade e trazendo-a mais perto da Tora”. O povo costumava contar a história de um homem que, chegando ao Céu, foi-lhe perguntado: “Por que não estudaste a Tora?” Ele respondeu: “Eu era pobre e precisava de todo o meu tempo para ganhar o pão”. E a resposta celeste foi: “Eras mais pobre do que Hilel?”

A PERSONALIDADE MARCANTE DO RABI HILEL
     Rabi Hilel não conheceu a Jesus, não foi seu contemporâneo. É provável que tenha vivido sob o reinado de Herodes, o infanticida, e tenha morrido alguns anos antes do nascimento daquele que o superaria em tudo, seria mais sábio do que todos os demais rabis, e cuja significação para o mundo superaria a da própria Tora.
     Eis uma das muitas histórias existentes nas antigas fontes do folclore judaico, que serve para traçar o perfil curioso e sábio de Hilel, e para mostrar o quanto o povo judeu despreza os sinais exteriores de santidade.
     “Um jovem veio pedir ao grande rabi que o declarasse rabi também. Era inverno. O rabi estava olhando pela janela, enquanto o candidato lhe recitava um brilhante relatório da sua piedade e sabedoria. Dizia o jovem:
     – Olha, rabi, sempre visto-me imaculadamente de branco, como os sábios costumam vestir-se. Nunca tomo bebidas alcoólicas, somente água. Mortifico minha carne. Trago pregos aguçados dentro dos sapatos e, mesmo no tempo mais frio, deito-me nu sobre a neve. E ainda, diariamente, o “shames” me dá quarenta chicotadas nas costas nuas, para completar minha penitência.
     Enquanto o jovem apresentava ao rabi Hilel o relatório de suas marcas de santidade, trouxeram ao pátio um cavalo branco, para beber água. O cavalo bebeu e depois rolou na neve, como os cavalos costumam fazer.
     – Olha! – exclamou rabi. – Aquele animal também está vestido de branco. Também só bebe água; tem pregos nas ferraduras e rola, nu, sobre a neve. Também, podes estar certo, recebe a sua ração diária de quarenta chicotadas nas costas. Agora, pergunto eu: Será que ele tornou-se um santo, ou continua sendo um cavalo?
Jefferson Magno Costa

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