sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O MONGE FIEL A DEUS

 QUE NÃO TEMIA NEM O GOVERNADOR NEM O PAPA

Jefferson Magno Costa


     Falando, certa vez, no púlpito da Catedral de Florença, Savonarola disse que em breve morreriam o Papa Inocêncio VIII e Lourenço de Médicis, e que a Itália seria invadida por Carlos VIII, da França. Essas profecias iriam ser confirmadas posteriormente, aumentando consideravelmente o seu prestígio diante do povo.

     Ao saber dessas previsões, o Governador Lourenço de Médicis, furioso, ordenou a alguns nobres de Florença que procurassem mostrar a Savonarola que suas profecias punham sua vida em perigo. O pregador escutou-os friamente, e em seguida mandou dizer a Lourenço que ele devia se arrepender dos seus pecados.
     Lourenço concluiu que não conseguiria impressionar o monge através de ameaças, e tratou de conquistar-lhe a simpatia. Savonarola era então Prior do Convento de São Marcos, e não se impressionou diante dos muitos favores que o governador subitamente passou a fazer àquela comunidade religiosa.
     Apercebendo-se da inutilidade de seus métodos, e vendo que Savonarola continuava a atacar sua vida tortuosa e desregrada, Lourenço resolveu fazer calar o grande pregador utilizando-se de sua própria arma: a oratória.
     Encarregou Frei Mariano de Gennazano, um dos maiores pegadores florentinos, de pregar alguns sermões contra o Prior do Convento de São Marcos. Foi a grande vitória da oratória sem artifícios sobre a oratória artificiosa. Savonarola impressionou o povo e venceu Frei Mariano fazendo uso de uma eloquência espontânea e simples. Tempos depois, Lourenço de Médicis mandou chamá-lo. Estava à morte. Ao vê-lo, disse o governador:
     "Mandei chamá-lo por ser o senhor o único monge honrado que conheço." Na conversa que tiveram sobre salvação, discordaram em alguns pontos, e Savonarola, depois de muito insistir, retirou-se, deixando o moribundo "a sós com Deus e com sua consciência".
     Após a morte de Lourenço, o não menos corrupto Pedro de Médicis ocupou o seu lugar. Savonarola redobrou sua campanha em prol da regeneração dos costumes. Sob os efeitos produzidos por suas pregações, ladrões e usuários procuravam regenerar-se, mulheres abandonavam o luxo exorbiante, e muitos fugiam à devassidão, almejando viver segundo os preceitos bíblicos.

ATAQUES CONTRA O CLERO E O PAPADO
     Sempre com a Santa Palavra nos lábios, o grande homem de Deus ia pregando com simplicidade, e mudando, espantosa e radicalmente, os costumes do povo italiano. Às vezes, quando queria demonstrar que também sabia pregar de maneira rebuscada como os demais pregadores, surgiam em suas pregações metáforas como esta:
     "Deixam o ouro pelo cobre, o cristal pelo vidro, as pérolas pelo barro, os que pelo barro do mundo, pelo vidro da vaidade e pelo cobre destes bens profanos e transitórios, desprezam o ouro maciço, o cristal puro e as pérolas do amor de Deus e dos bens eternos."
      Nem mesmo o clero escapou de sua sinceridade e coragem, que não conheciam limites. Savonarola atacou frontalmente os vícios dos religiosos de sua época: "Se vós soubésseis as coisas repugnantes que eu sei! - dizia ele diante da multidão que o ouvia, surpresa. E então, corajosamente, sentava a igreja dominante no banco dos réus e a julgava:
     "Vem cá, igreja infamada! Ouve o que te diz o Senhor. Dei-te formosas vestimentas, e tu exercestes com elas a idolatria. Com os vasos preciosos tens alimentado o teu orgulho, tens profanado o que antes era sagrado; a sensualidade te precipitou na vergonha. És pior que uma besta; és um monstro repugnante...Ergueste uma casa de imoralidade e te converteste, em toda parte, numa casa de perdição.
     "Tomaste assento no trono de Salomão e passaste a atrair o mundo às tuas portas. Quem tem dinheiro entra, e pode fazer tudo o que quer, porém quem não tem dinheiro mas deseja o bem, é desconsiderado e expulso."
     Esse julgamento chegou ao conhecimento do papa Alexandre VI, sucessor de Inocêncio VIII, e um dos maiores responsáveis pelas desordens e a vida pecaminosa dos padres. Já há algum tempo os sermões de Savonarola vinham incomodando o Papa, que procurou lançar mão de todos os meios possíveis para fazer o monge calar.
     Travou-se então uma luta ferrenha, que culminou na excomunhão, prisão, tortura e morte de Savonarola.
     Antes, sua sinceridade e guerra declarada à devassidão, desonestidade e hipocrisia já o haviam indisposto seriamente com alguns dos grandes senhores da Itália. Um dos casos mais sérios ocorreu durante uma de suas pregações em Bolonha, quando a mulher de Bentivoglio, um dos homens mais importantes dessa cidade, entrou na igreja provocadoramente, com o intuito de perturbar o pregador e fazê-lo perder o controle do sermão.
     Imediatamente, e sem medir consequências, Savonarola bradou do alto do púlpito:
     - Vejam aí, irmãos, eis o demônio que vem perturbar a Palavra de Deus.
     A frase ecoou por todo o recinto como uma chicotada. Imediatamente os guardas de João Bentivoglio empunharam as espadas e investiram contra o pregador, mas foram interceptados pela maioria dos que ouviam a pregação.
     Savonarola escapou milagrosamente de morrer naquele instante. Porém, apesar dos conselhos que lhe deram para que fugisse imediatamente de Bolonha, ele permaneceu na cidade até pronunciar ali o seu último sermão, quando, no mesmo lugar onde o haviam ameaçado de morte, falou desafiadoramente:
     "Partirei esta tarde para Florença, sem outra companhia além do meu bordão de peregrino. Alojar-me-ei em Pianora. Se alguém quer ajustar contas comigo, que venha antes de minha partida. Entretanto, eu não morrerei em Bolonha, mas em outro lugar".


PASSEATA EM FAVOR DO ARREPENDIMENTO E DA PURIFICAÇÃO DO POVO
     Ele sabia que os poderosos não o deixariam viver por muito tempo. Após sua morte, a Itália seguiria o seu caminho de corrupção e infâmias internas, mostrando, porém, ao mundo, uma face hipócrita de pureza e religiosidade. 

     Savonarola sabia que não poderia parar de pregar. Combateria o pecado até momentos antes de ser enforcado e queimado. E seu exemplo floresceria e geraria muitos frutos na Europa e no mundo.
      Não acreditando que seus auxiliares pudessem ajudá-lo a mudar os costumes do povo, Savonarola apelou para a sinceridade das crianças, que saíam com o sacerdote pelas ruas da cidade fazendo batidas sistemáticas, repreendendo os adultos em suas práticas pecaminosas, e levando para ser queimado tudo o que conseguissem achar em matéria de enfeites, cabelos postiços, livros e quadros indecentes.
      Conta-se que as crianças abordavam as senhoras nas ruas e diziam, cheios de convicção: "Da parte de Jesus Cristo, Rei de nossa cidade, nós te ordenamos a abandonar todas essas vaidades." Savonarola as incentivava a prosseguirem com a "Reforma dos costumes".
     Sobre imensas fogueiras - as fogueiras da vaidade, como costumavam chamá-las -, obras de arte pagã, jóias reproduzindo ídolos, espelhos com figuras indecorosas, livros e toda sorte de objetos considerados pecaminosos eram amontoados e queimados.
     Quando as tropas de Carlos VIII, rei da França, invadiram a Itália, mais uma de suas profecias se cumpriu. Isso contribuiu para que a inveja e o ódio do Papa Alexandre VI se acendesse contra Savonarola de maneira mais violenta que o fogo ateado sobre as "fogueiras da vaidade". Além do mais, as palavras chamejantes do grande pregador haviam continuamente atacado Roma e o "Sumo Pontífice", com a mesma energia que sempre combateram a devassidão da época:
     "O escândalo começa por Roma e corre por todo o continente. São piores que os turcos e os mouros... Os sacerdotes vão por dinheiro ao coro, às festividades e ao ofício; vendem as prebendas, vendem os sacramentos, negociam com as missas; em uma palavra: tudo fazem pelo dinheiro... Este veneno acumulou-se de tal maneira em Roma, que a França, a Alemanha e todo o mundo se contagiou; e chegou a tal ponto que é necessário prevenir-se contra Roma. Entre o povo circula uma frase que diz: '
'Se queres perder teu filho, faze dele um sacerdote!'"


 DECLARADO HEREGE PELO PAPA, E EXCOMUNGADO
     O Papa resolveu tomar providências enérgicas contra Savonarola. Primeiramente dirigiu-se ao governador de Florença, e solicitou que lhe fosse enviado a Roma o monge revolucionário.
     O governador florentino declarou que não lhe era possível atender semelhante pedido, "não só porque faríamos algo indigno de nossa República, como também estaríamos sendo injustos contra um homem que tem trazido tantos benefícios à Pátria. Além do mais, ainda que quiséssemos, não poderíamos fazê-lo sem que houvesse uma revolta popular com grave perigo para muitos, tal e tão grande é o prestígio que esse frade ganhou com sua integridade".
     Mas o Papa estava disposto a lutar e fazer calar, de uma vez por todas, o "chicote do Senhor". Do púlpito, Savonarola comentou o incidente:
     "Chegou de Roma um breve (decisão papal), é verdade. Nele, chamam-me de filho da perdição. Aos que me acusarem diante de vós, queridos irmãos, respondei assim: 'Aquele a quem tu chamas deste modo diz que não possui mancebos nem concubinas, mas apenas prega o Evangelho de Jesus Cristo.
     "Digam também que seus irmãos e irmãs espirituais, e todos os que escutavam a sua doutrina, não andam buscando esses tristes deleites, mas temem a Deus e vivem honestamente'".
     Ao tomar conhecimento desse comentário, o Papa anunciou que Jerônimo Savonarola estava excomungado da Igreja Romana, e em seguida utilizou-se de um meio que se mostraria eficaz para arrancá-lo das mãos protetoras do governo florentino: ameaçou confiscar os bens de todos os florentinos residentes em Roma, e boicotar as mercadorias destinadas a Florença. Nas palavras do historiador Alexandre Vicunã:
     "O efeito foi mágico. Tanto o embaixador florentino, junto à corte papal, como os comerciantes de Florença, residentes nos Estados Pontifícios, exigiram do Governo de seu país que concordasse com a exigência do Papa e entregasse, de uma vez por todas, o monge rebelde. Por um frade não valeria a pena sacrificar o comércio da República!"
     Savonarola foi preso e entregue ao Papa juntamente com seus dois fiéis companheiros, frei Silvestre e frei Domingos, também excomungados. No dia em que o prenderam, esta foi a sua oração:
     "Senhor, eu não peço tranquilidade, nem que cesse a tribulação; peço-te coragem, peço-te amor. Dá-me forças e graça para resistir à adversidade. Eu queria que teu amor triunfasse sobre a Terra. Vês que os malvados se fazem cada dia piores e mais incorrigíveis. É necessário que estendas agora a tua mão poderosa. Quanto a mim, só me restam as lágrimas."


 UM GIGANTE DE DEUS EXECUTADO NA FORCA E NA FOGUEIRA
     Na maior praça da cidade de Florença, uma grande multidão aguarda um espetáculo. É noite. O povo florentino está eufórico e impaciente. Sobre uma imensa fogueira levantada no centro da praça ergue-se uma gigantesca forca. Há três laços preparados.
     Naquele local de execução, dentro de alguns instantes, o grande pregador Jerônimo Savonarola e seus dois companheiros de sonhos e lutas serão enforcados e queimados. Homens, mulheres e crianças comprimem-se para assistir à morte de um dos maiores pregadores e reformadores da história da Igreja.
     Alguns meses antes, aquela mesma multidão vibrava sob o domínio da palavra veemente e cheia de autoridade daquele homem alto e magro, que acabara de chegar ali. Sim. O grande pregador acaba de chegar ao centro da praça.
     Nos seus braços e rosto distinguem-se visíveis marcas de tortura. A multidão silencia por alguns instantes para melhor contemplar sua figura trôpega e sofrida. Após quarenta e cinco dias de tortura e julgamento, ele está quase irreconhecível. Haviam-no maltratado brutalmente. O seu corpo emagrecido fora queimado com ferros em brasa. Esticaram seus braços, desconjuntaram suas pernas, dilataram-lhe seus músculos, partiram-lhe as veias, distenderam o seu corpo no alucinante suplício da roda.
     Os carrascos que conseguem contemplar de perto sua face pálida e arroxeada, coberta de cicatrizes que ainda sangram, sentem-se perturbados com o intenso brilho dos seus olhos. Sua serenidade impressiona. Só o fogo conseguirá apagar, de uma vez por todas, esse penetrante e sereno brilho.
     Subitamente a multidão começa a uivar e a aplaudir. Ouvem-se gritos estridentes, insultos. O povo delira! Os dois companheiros de Savonarola, frei Silvestre e frei Domingos, são obrigados a subir para o alto da fogueira. Ambos também sofreram dolorosos suplícios.
     Com movimentos enérgicos, o carrasco faz suas cabeças passarem por dentro dos laços da forca. A multidão grita furiosamente. Cercado pelos guardas, emocionado, Jerônimo Savonarola contempla seus companheiros de martírio e de jornada heróica, cujos corpos agora balançam no espaço!
     Brilhando serenamente no céu, a lua ilumina seus rostos pálidos e transfigurados. Em poucos instantes, frei Silvestre e frei Domingos estão mortos.
     Um sacerdote aproxima-se do grande pregador e diz: "Vês agora qual será o resultado de tua rebeldia?" Alongando demoradamente o olhar pela vastidão e altura do céu estrelado, Savonarola responde:
     "Muito mais sofreu Jesus por mim." E não diz mais nada. Instantes depois seu corpo é projetado no espaço. Finalmente haviam conseguido calar aquela voz que, poderosa e indignadamente, combatera o pecado.
     A grande fogueira começa a arder, envolvendo os três corpos. Seus vultos de labareda rompem-se sob o brilho da lua que erra no céu, sonâmbula, coroada de auréolas rubras. Naquela noite, aqueles três homens alcançaram a altíssima paz!


Jefferson Magno Costa

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