sábado, 5 de novembro de 2011

A QUASE IMPOSSÍVEL MISSÃO DOS APÓSTOLOS

Jefferson Magno Costa
     Realizar uma revolução completa nas ideias, nos costumes e nas crenças e práticas religiosas do povo não era, de fato, uma pequena missão. Na época em que o cristianismo começou a se estabelecer no mundo, a humanidade, mergulhada no sensualismo, encontrava-se infinitamente distanciada de Deus.
     A sociedade romana, composta pelos dominadores do mundo, atingira o mais baixo ponto na escala da degradação moral. Trocando a rede de pescadores pelo cajado de peregrinos, os apóstolos saíram pelo mundo, pregando o evangelho que viria a mudar a história da humanidade.
     Quando começaram a pregar, todos se admiraram do modo como eles falavam, pois os conheciam como homens rudes, vindos do meio do povo (Atos 4.13). Eles anunciavam que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Messias prometido, que morreu o ressuscitou, e multidões passaram a crer nessa pregação e a confessar a Cristo como Salvador (Atos 2.14-41).
     Todavia, humanamente falando, essa mensagem era uma verdadeira “loucura”. O apóstolo Paulo estava consciente disto: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1 Coríntios 1.23; 2.14).
     Devemos considerar também que os apóstolos, assim como todos os judeus, alimentavam sobre o Messias idéias contrárias a tudo o que Jesus demonstrara ser. Eles esperavam um rei poderoso, um conquistador triunfante que viesse libertar Israel do jugo do Império Romano, e elevá-lo acima de todas as nações.

     Porém, o Messias que passaram a anunciar era o pobre filho de um carpinteiro, que no período em que viveu entre eles não tinha sequer onde reclinar a cabeça (Mateus 8.20). 
     Deveriam ter surgido razões muito poderosas para mudar assim a opinião dos discípulos sobre o milenarmente esperado Messias, e levá-los a crer que Jesus representava finalmente o cumprimento de todas as profecias messiânicas. Sim, essas razões existem, e é nelas que se tem apoiado a Igreja, há quase 2000 anos!
     Observe-se também que os apóstolos não começaram a pregar movidos por uma empolgação irrefletida, filha da credulidade entusiasmada, supersticiosa e cega. Não. Eles haviam testemunhado tudo o que Cristo pregara e realizara, e tinham-se tornado, finalmente, testemunhas de sua ressurreição. 
     Um deles (Tomé), para se convencer de que Jesus Cristo ressurgira do meio dos mortos, confessou que necessitaria ver as marcas dos cravos nas mãos do Senhor, apalpar as feridas e certificar-se do ferimento que o soldado romano fizera com a lança no Seu corpo.
     Não havia nos apóstolos lugar para o entusiasmo fanático. Eles estavam com medo, e se reuniam de portas fechadas (João 20.19). Mas são esses mesmos apóstolos que, após se certificarem da vitória de Cristo sobre a morte, transformam-se em corajosos pregadores do Evangelho!
     No meio das praças, nas ruas e nas sinagogas, diante do povo e dos governadores, passaram a anunciar que o "crucificado do Gólgota" ressurgira dentre os mortos, e era o Filho de Deus! E aconteceu o que Renan descreve, em rápidas linhas, no seu livro Os Apóstolos:
     “Um rápido raio partindo da Palestina, iluminando quase simultaneamente as três grandes penínsulas da Ásia Menor, da Grécia, da Itália, seguido logo por um reflexo que abrasou quase todas as costas do Mediterrâneo, eis o que foi o aparecimento do Cristianismo.”
     Porém, temos de considerar que a propagação do Evangelho no mundo, a partir da pregação dos apóstolos, não pode ser humanamente explicada.      Diante das leis históricas e sociológicas, os obstáculos que o cristianismo teve de vencer para se espalhar no meio da humanidade não encontram uma explicação lógica. Temos que reconhecer nisto a maravilhosa intervenção de Deus!
     Havia dois tipos de obstáculos que a Igreja teria de enfrentar: Os obstáculos internos, provenientes da própria mensagem que os cristãos pregavam, e os obstáculos externos, criados pelas pessoas às quais a mensagem evangélica era anunciada.

OBSTÁCULOS INTERNOS À PREGAÇÃO DO EVANGELHO
    1o. obstáculo: Na opinião do mundo, o cristianismo era uma religião estrangeira, e de origem judaica. Conforme documentaram os escritores romanos Tácito (Histórias, 1.v. c.5;c.8,3 ) e Plínio, o Moço (História Natural, 13,9) os judeus eram, naquela época, objeto do desprezo e do ódio universal.
     Nenhuma nação estaria inclinada a mudar de mentalidade, comportamento e religião sob a influência de representantes (os apóstolos) de um povo que o mundo odiava.
      2o. obstáculo: Jesus Cristo, o fundador do cristianismo, tinha sido, na opinião de muitas pessoas daquela época, um simples judeu rejeitado por sua própria nação, e sua morte se dera da forma mais infamante para aquela época: em uma cruz, “escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1 Coríntios 1.23;2.14).
     3o. obstáculo: Em uma sociedade politeísta, a pregação da crença em um só Deus era uma espécie de provocação.
     4o obstáculo: O mundo pagão e politeísta não entendia o cristianismo no seu aspecto moral, por este condenar os vícios, exigir resistência às paixões e o abandono dos prazeres, ensinar a perdoar as injúrias, a amar os inimigos e a desprezar as honras e vaidades humanas.
     5o. obstáculo: O que, certamente, deve ter atraído o ódio e a perseguição de todas as outras religiões contra o cristianismo foi o fato de ele ter-se apresentado como a única religião verdadeira e revelada por Deus, o único caminho de salvação para a humanidade. Isto, mesmo sendo verdadeiro, foi interpretado como mais uma provocação.
       6o. obstáculo: Naquela época, a escravidão legalmente instituída, o ódio racial que separava entre si judeus, gregos, romanos e bárbaros, dificultou tremendamente o trabalho da Igreja, pois o Evangelho passou a proclamar a igualdade natural e a fraternidade de todos os componentes da família humana, convidando todos á filiação adotiva de Deus.
     Apesar de todos estes obstáculos, a Mensagem Evangélica triunfou no mundo! Uma nova família de fé viva e de costumes puros começou a ser formada dentro da sociedade natural e dissoluta pertencente ao velho mundo pagão. O Evangelho venceu todos os obstáculos, e finalmente a mensagem da Cruz tornou-se a esperança das nações, apesar de nem todo o mundo a ter abraçado.
     Esse triunfo ocorreu também com relação aos obstáculos externos, que passaremos a considerar a seguir.

OBSTÁCULOS EXTERNOS À PREGAÇÃO DO EVANGELHO
     1o. obstáculo: O primeiro obstáculo externo enfrentado pela Igreja no início de suas atividades evangelísticas foi a própria religião judaica. A lei de Moisés e as práticas do culto judaico eram profundamente veneradas pelos judeus. 
     Além do mais, eles esperavam um Messias temporal, político e nacionalista, que os libertasse do domínio dos odiados romanos. Por esse motivo, opuseram-se duramente à pregação evangélica, e passaram a considerar "traidores da lei e das tradições nacionais" a todos os que aceitavam a Cristo, que para eles não era o Messias, pois havia sido condenado pelos próprios sacerdotes e fariseus.
     2o. obstáculo: O paganismo foi o segundo maior obstáculo à propagação do cristianismo no mundo. Combinando o culto à divindades pagãs com todos os gozos da vida, e apresentando os seus deuses como personificações das mais baixas inclinações do ser humano para todos os vícios, as religiões pagãs viram nas severas exigências da moral cristã uma séria ameaça aos seus cultos libertinos e idólatras, cujas práticas influenciavam profundamente as reuniões familiares e sociais. 
     Tornar-se cristão significava, portanto, romper com tudo aquilo e isolar-se da vida social. Era correr o risco de ser expulso da própria família, quando esta permanecia pagã. Os escritores cristãos Tertuliano e Justino, o Mártir, registraram em suas obras a confirmação histórica das profecias de Jesus em Mateus 10.21, 34-38: filhos eram repudiados pelos pais e esposas abandonadas pelos maridos e denunciadas aos tribunais, após confessarem Cristo como Salvador.
     Para o povo em geral, o cristianismo não passava de uma “superstição execrável”, conforme o denominou o Governador romano Plínio, o Moço; “uma superstição nova e maléfica”, conforme os registros dos historiadores romanos Tácito e Suetônio.
     As multidões, nos circos, pediam a morte dos cristãos e regozijavam-se com os seus suplícios e morte. Além do mais, o Império Romano considerava sua religião como uma forma de segurança para a prosperidade nacional, e todos os povos entre os quais o Evangelho passou a ser pregado tinham as suas religiões como uma manifestação nacional, e quem negava os chamados “deuses pátrios” era considerado réu de sacrilégio e traidor da pátria.
     Por esse motivo os cristãos, por desprezarem os deuses romanos, eram olhados como ateus e levavam a culpa de qualquer calamidade pública. Sobre isto comentou o escritor cristão Tertuliano na sua Apologia em Favor dos Cristãos Contra os Gentios:
     “Se o rio Tigre transborda nas margens, se o Nilo não transborda nos campos, se no céu não aparecem nuvens, se a terra treme, se há fome, se há peste, dizem que foram os cristãos, e logo levanta-se o clamor: ‘Lancem os cristãos aos leões!”’
     3o. obstáculo: Os sacerdotes das religiões pagãs passaram a combater ferozmente o cristianismo, pois este, negando os falsos deuses e contribuindo para que os templos dos cultos pagãos se esvaziassem pouco a pouco, trazia um sério perigo à autoridade daqueles sacerdotes, além de diminuir drasticamente os seus lucros.
     Portanto, o cristianismo encontrou reunidas contra si todas as forças da sociedade humana, e todas as forças das hostes diabólicas. Sobre isto, o historiador J. Mors comenta:
     “A Igreja tinha contra si a superstição dos povos, a inveja dos sacerdotes pagãos, a sutileza dos filósofos, a eloquência dos retóricos, a astúcia dos políticos, a crueldade dos tiranos.”
     Tornar-se cristãos era, além de expor-se a muitos desentendimentos na família, candidatar-se ao martírio. Todas essas dificuldades e perigos funcionavam como sérios obstáculos à conversão. Mas assim mesmo a Mensagem Evangélica triunfou!

Jefferson Magno Costa

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