sábado, 12 de março de 2011

JESUS: SE ENTRE O SEU JULGAMENTO E A SUA CRUCIFICAÇÃO, A BUROCRACIA JUDAICA E ROMANA TIVESSE USADO PAPEL E TINTA PARA REGISTRAR TODAS AS AÇÕES DE SUA ESTRUTURA INEFICIENTE, MOROSA E INOPERANTE, TALVEZ ATÉ HOJE A HUMANIDADE AINDA ESTIVESSE AGUARDANDO PARA SER REDIMIDA


Jefferson Magno Costa
     Jesus foi preso à meia-noite, e crucificado ao meio-dia. E o que aconteceu nessas 12 horas?
     O Senhor foi conduzido a quatro tribunais muito distantes uns dos outros. A um deles foi conduzido duas vezes (o de Pilatos: Lc 23.1; 11).
     Jesus foi levado primeiramente à casa do sumo sacerdote, para ser julgado pelo tribunal judaico, que era composto pelos membros do Sinédrio (Mt 26.57). Naquele momento, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos formaram o primeiro concílio para achar motivos que incriminassem Jesus. Esse concílio teve como líder o sumo sacerdote Anás, que foi quem primeiro interrogou Jesus naquela madrugada (Jo 18.2,19).
     Em seguida, Anás levou Jesus, de mãos amarradas, à presença do seu genro, o sumo sacerdote Caifás (João 18.23). Muitas testemunhas falsas foram ouvidas, mas suas mentiras contra Jesus eram tão absurdas e contraditórias, que foram desprezadas (Mc 14.56).
     Finalmente duas testemunhas falaram algo que foi considerado consistente o suficiente para ser usado como prova e transformado em acusação formal contra Jesus (Mt 26.60,61). Porém, Caifás queria algo mais forte, e astutamente provocou Jesus para arrancar dele alguma declaração que pudesse ser usada como uma segunda acusação, a de blasfêmia, pois só assim podia tornar Jesus réu de morte (Mt 26.63-66).
     Após conseguir o que queria, Caifás permitiu que a corja que o acompanhava cuspisse no rosto do Senhor, e lhe desse socos e tapas (Mt 26.67). Cobriram o seu rosto, esbofetearam-no e pediram que Jesus profetizasse dizendo quem lhe batera (Mc 14.65; Mt 26.68).
    Isto durou a noite toda. Quando amanheceu, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo juntaram-se outra vez em concílio para planejarem uma maneira de incriminar Jesus também no tribunal da autoridade romana que representava o César em Jerusalém, o governador Pôncios Pilatos. Resolveram conduzir Jesus até o Pretório, a residência oficial do governador (Jo 18.28).
     Na condição de representante das leis do império romano, Pilatos era a autoridade máxima na cidade. Jesus foi interrogado por ele (Mt 27.11,19). Como político perspicaz treinado em seu país entre os assassinos, manipuladores exímios, abutres e lobos da corte romana, Pilatos logo percebeu que estava diante de um inocente (Lc 23.4), e que aquele bando de hipócritas de longas cabeleiras e barbas piolhentas haviam trazido o Filho de Deus para ser julgado por ele tão-somente por inveja de tudo o que Jesus ensinara e realizara entre o povo.
     Em um determinado momento do interrogatório, o governador ouviu um judeu mencionar a palavra “Galileia”, e concluiu que o homem que aquelas raposas enfurecidas lhe haviam trazido como réu de um crime que Pilatos não conseguia encontrar, era galileu (Lc 22.6,7).
    Sabendo que a Galileia pertencia à jurisdição do rei Herodes, e que este estava naqueles dias em Jerusalém, o governador enviou Jesus para ser também julgado por Herodes (Lc 23.7-9). Acostumado a julgar e condenar assassinos perigosos, mas vendo que Jesus era inocente e inofensivo, e entendo que não conseguiria levar aquele estranho galileu a realizar para ele um showzinho particular com direito a milagres, Herodes desprezou o Senhor, e junto com seus soldados escarneceu dele. Em seguida, vestindo-lhe uma roupa resplandecente, o enviou de volta a Pilatos (Lc 23.8-11).
     E finalmente Pilatos o entregou ao quarto tribunal, o da zombaria, formado pelos soldados e toda a corte de Herodes (Mt 27.27). Jesus tornou-se para eles naquele momento um grande motivo de chacota, risos e diversão. Despiram-no e o cobriram com uma capa escarlate; puseram em sua cabeça uma coroa de espinhos; colocaram em sua mão direita uma cana como cetro real; ajoelharam-se diante dele, e escarnecendo, diziam: Salve, Rei dos judeus.
Em seguida cuspiram nele, tiraram-lhe a cana da mão, e batiam com ela em sua cabeça coroada de espinhos. Depois de o escarnecerem, tiraram-lhe o manto de púrpura, açoitaram-no, vestiram-lhe suas roupas e o levaram para crucificar. Tudo isto aconteceu em um período de 12 horas.
     Resumindo os fatos que ocorreram nesse curto período, de acordo com a linguagem técnica da jurisprudência da época do nosso Salvador:
     As acusações contra Jesus foram apresentadas em duas partes; ouviram-se as testemunhas; foi escolhida a acusação incidente contra ele: blasfêmia; o perdão e a soltura de Barrabás foram solicitados em troca da condenação de Cristo; foram alegadas leis; deram-se vistas; houve réplicas e tréplicas; representaram duas comédias, uma de Cristo profeta com os olhos vendados, e outra de Cristo rei com cetro e coroa.
     Jesus foi três vezes despido, e três vezes vestido; cinco vezes interrogado; duas vezes sentenciado; duas vezes mostrado ao povo; ferido e afrontado muitas vezes com a mão, outras vezes com a cana, centenas de vezes com o açoite. Nessas 12 horas mobilizaram contra Jesus lanças, espadas, fachos, lanternas, cordas, colunas, chicotes, varas, correntes; uma roupa branca, outra de púrpura; canas, espinhos, cruz, cravos, fel, vinagre, mirra, esponja, título com letras em hebraico, grego e latim, não escritas, mas entalhadas, conforme vemos em títulos semelhantes daquele época guardados hoje em museus; também estiveram envolvidos dois ladrões que ficaram de um lado e do outro do Senhor; cruzes para os dois ladrões; Cirineu que ajudou o Senhor a levar a cruz.
     Jesus pregou três vezes: uma a Caifás, outra a Pilatos, e outra às filhas de Jerusalém. Finalmente, caindo e levantando-se, foi levado ao Calvário e crucificado nele. E como foi possível que todas essas coisas, tantas e tão diversas, puderam acontecer no curto período de 12 horas, tendo, além do mais, a metade delas acontecido durante a madrugada e de manhã cedo?
     Tudo isso só aconteceu, tudo isso só foi possível porque em todos esses tribunais, em todos esses conselhos, em todas essas resoluções e execuções, não entrou os dois principais instrumentos da burocracia de ontem e de hoje: o papel e a tinta.
     Se tudo o que aconteceu nessas 12 horas da vida de Jesus tivesse que ser feito com todas os atrasos, adiamentos, prorrogações, vagares, tardanças e delongas que envolvem a burocracia do papel e da tinta em vigor ontem e atualmente, até hoje a humanidade ainda hoje estaria esperando para ser redimida pelo sangue de Jesus derramado na cruz do Calvário.
     Só quatro palavras foram escritas durante esse período de 12 horas, que foram as do título colocado no alto da cruz de Jesus (Jo 19.19), e imediatamente houve protestos, embargos, requerimentos, altercações, descontentamentos e teimas. E se Pilatos não tivesse se posicionado com firmeza diante da reação dos judeus, e dito: “O que escrevi, escrevi” (Jo 19.22), o caso se transformaria em apelação para César, que estava em Roma, a 2.322 quilômetros de distância de Jerusalém, e haveria, só para resolver a questão criada por essas quatro palavras, disputas religiosas, políticas e jurídicas por vários anos.
     Portanto, não burocratizemos a nossa vida, e muito menos os assuntos relativos ao Reino de Deus, ou a tudo o que fazemos para Deus na casa de Deus.
     (Adapt. do Serm. da Sext. Fer. da Quar. Lisb. 1662. A.V.)
Jefferson Magno Costa

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