domingo, 29 de janeiro de 2012

ESCREVER É PRECISO (Conclusão da palestra)

Jefferson Magno Costa

A UTILIDADE DA LEITURA DE POESIA E DA LEITURA EM 
GERAL EM NOSSA FORMAÇÃO COMO ESCRITORES
       Portugal é a pátria universal da poesia. Quem diz isto são os ingleses, os alemães, os franceses, os norte-americanos. A grande romancista belga de expressão francesa Marguerite Younenar costumava vir a Portugal algumas vezes só para conversar com o maior poeta de sua admiração, Eugênio de Andrade.
     Mas será que a poesia tem alguma importância na aprendizagem da escrita em prosa? Sim. Através dela se enriquece e se torna mais variado o nosso tesouro de harmonia interior. As literaturas de todas as épocas e de todas as nações nos pertencem.
     Aliás, em matéria de leitura, seja de prosa ou de poesia, é preciso saber ler e assimilar convenientemente o que se lê. O convívio com os altos espíritos, através da leitura, é uma necessidade. Infelizmente a vida é demasiado curta para lermos todos os livros que merecem ser lidos.
     Por isso devemos ler aqueles autores que, por haverem alcançado uma grande beleza em sua expressão, são considerados como modelos ou clássicos.

     Eles têm a novidade da expressão em cada frase que escrevem. Eles nos ensinarão muitas maneiras de nos expressarmos, cabendo a nós eleger as que forem adequadas ao nosso temperamento ou ao nosso propósito. Um escritor é grande não porque escreveu muito, mas porque escreveu bem.
     Todos os manuais sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
     O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco, ou até seis vezes uma página ou um parágrafo de suas obras.      Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas.
     Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven ou um quadro de Michellangelo.
     Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém, entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 99% de transpiração e 1% de inspiração.

      O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do alto.
     Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável.
      É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco, de uma máquina de datilografia ou de um teclado de computador, que nasce o livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante.
     Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram entre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável “domador” de palavras. 

       Em um de seus poemas, O lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

     Convém ler devagar, tomando notas e sublinhando o que de mais importante encontrarmos nos livros. A leitura só é verdadeiramente proveitosa quando conseguimos torná-la fecunda através desse processo.

ESCREVENDO UM LIVRO

       A preparação de um livro passa por cinco fases:
1-    Escolha do tema, do assunto.
2-    Preparação do esboço.
3-    Pesquisa e meditação em cima de todo o material recolhido.
4-    Primeiro rascunho. O livro será escrito parágrafo após parágrafo, capítulo após capítulo.
5-    Por último, correção, que poderá conduzir à redação de vários outros rascunhos.
     O assunto tem que ser bem escolhido. Deve-se dar preferência a temas atuais, de auto-ajuda, polêmicos ou qualquer outro que interesse o leitor moderno.
     O esboço é de valor imenso e ajuda indispensável ao escritor, principalmente para os que ainda não adquiriram o difícil hábito de escrever bem. 

      O esboço põe claramente diante dos nossos olhos o plano que temos de executar. Mostra-nos, como num mapa, o caminho a ser percorrido. Apresenta-nos a planta do edifício que será levantado. Ele estabelecerá nossos limites de busca de material, e evitará de cairmos na armadilha de ficar lendo eternamente sobre o tema, sem nunca colocarmos um ponto final na pesquisa.
     Ao prepararmos um esboço, devemos evitar dois extremos: a escassez de divisões, ou o excesso de subdivisões. Devemos evitar o inútil e o dispensável. 

     Muitas subdivisões distraem a atenção do leitor do ponto principal, chamando sua atenção para outros assuntos.
     O processo de meditação, ou “o período de gestação”, é muitíssimo importante. O escritor norte-americano Angus Wilson comentou que é nesse momento que ele procura convencer a si mesmo da verdade do que ele quer dizer, pois não acredita que conseguirá convencer seus leitores se não conseguir convencer primeiro a si mesmo.
    O primeiro rascunho é geralmente escrito às pressas, a todo vapor. Talvez seja essa a melhor maneira de escrevê-lo.
     Só não devemos cometer o erro que cometeram dois ilustres padres espanhóis. Os franciscanos Rafael Rodriguez Mohedano e Pedro Rodriguez Mohedano começaram em 1766 uma História Literária da Espanha, uma obra tão grande que no décimo volume, publicado em 1791, os autores ainda não tinham acabado a introdução.

     A romancista Dorothy Canfield Fisher comparou certa vez a redação de um primeiro rascunho a uma descida de esqui por uma encosta íngreme, que ela não tinha a certeza de ser bastante hábil para poder realizar.
     “Sentada, certa manhã, à minha mesa –diz ela- dei a largada e, tomada de alarma e de uma agitação não muito agradável, senti-me ir. Segui, quase tão precipitadamente como fazem os esquiadores, por uma longa e alva encosta, escrevendo tão depressa como o meu lápis o permitia, indicando palavras inteiras com um traço e rabiscos, enchendo de garatujas página após página.”
     Há outros escritores, porém, que abrem caminho laboriosamente, revendo o que escreveram à medida que vão escrevendo. 

      William Styron comentou: “Parece que tenho alguma necessidade neurótica de melhorar cada parágrafo - até mesmo cada frase- à medida que prossigo.” Dorothy Parker declarou que levava seis meses para escrever um conto: “Imagino-o todo e, depois, escrevo frase por frase – em um primeiro rascunho. Não consigo escrever cinco palavras sem que modifique sete.”
     O’Connor não se põe a mudar palavras enquanto o primeiro rascunho não está terminado, mas depois reescreve tudo, conforme ele afirma, “infindavelmente, infindavelmente, infindavelmente”.

O EXEMPLO DO GRANDE ROMANCISTA PORTUGUÊS EÇA DE QUEIRÓS

      O sublime romancista português Eça de Queirós também levava aos últimos extremos o hábito de emendar, de corrigir. A transparência, a rara elegância, a admirável precisão de sua prosa, devem-se à laboriosa perseverança com que ele polia e repolia suas frases. A arte de escrever não é outra coisa senão a arte de emendar, de cortar palavras inúteis, de eliminar o que está ambíguo ou obscuro.
     De edição para edição, Eça de Queirós emendava quase sempre os seus romances, sempre no intuito de simplificar sua redação. Vejamos, como exemplo desse magistral trabalho, como ficou a descrição da figura do cônego Dias, no romance O Crime do Padre Amaro.
     Na primeira edição, de 1875, o perfil do personagem é assim traçado:
     “O cônego Dias não era simpático aos liberais de Leiria. Era um homem redondo e baixo, com um ventre saliente que lhe enchia a batina, as pernas curtas e esquias, e fortemente pousado nuns pés chatos, onde reluziam as fivelas: a cara era mole e cheia de um pálido baço, as olheiras papudas, e o beiço descaído e espesso -  e todo o seu aspecto com um cabelinho curto e grisalho, fazia pensar nas anedotas de frades lascivos, enfartados de pecados.”
     Em 1889, o retrato ficou eternizado nesta síntese breve:
     “O cônego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre enchia-lhe a batina, e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso, faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões.”
     Como podemos constatar, a simplicidade caminha paralela com a exatidão. O escritor português teve a preocupação de não dizer nem de mais nem de menos, mas apenas o necessário.

     Tanto os que dizem de menos como os que dizem de mais empobrecem a expressão.

É DEVER DO ESCRITOR SABER SE EXPRESSAR COM CLAREZA

      Portanto, os escritores que quiserem alcançar e conquistar seus leitores não deverão complicar os seus processos literários. Não podemos nos tornar escritores lidos pelo grande público se escrevermos livros de difícil compreensão. 
     Certos livros da atualidade exigem quatro ou cinco leituras para serem entendidos. O resultado é que ninguém os lê, pois hoje todo mundo tem pressa.
   O escritor português Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.”

     A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
     No seu famoso Discurso Sobre o Estilo, o Conde de Buffon afirmou que “Somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”

     O estilo funciona sobre a ideia como o esmalte funciona sobre o dente: protege-o contra a cárie e a corrosão do tempo, mantendo-o sempre eficiente e saudável.
     O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a correção com que suas páginas foram escritas. As ideias, como as pessoas, são julgadas pela aparência. Até os cães ladram para indivíduos maltrapilhos, esfarrapados. 

      Os pensamentos mais profundos ou mais elevados não atingirão ou sensibilizarão ninguém se forem expressos desalinhadamente, confusamente. 
     Só as obras que nasceram com a graça do estilo continuarão sendo lidas, mesmo quando os ossos dos seus autores já se tiverem transformado em cinzas. Tenho dito.

Jefferson Magno Costa

3 comentários:

  1. Olá queridos, estou passa para parabeniza-lo pelo bom conteúdo publicado na página!

    Já estou lhe seguindo, espero que tenhamos uma boa parceria na blogosfera, se possível me seguir de volta, ficarei agradecido.

    Um forte abraço meu caro, que Deus continue nos Abençoando!

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  2. Shalom!

    Amado Pr Jefferson, este blog é um oásis de conhecimento, erudição e meditação. O nobre amigo enriquece a blogosfera.

    Uma pequena sugestão: o confrade tem que escrever novos livros! Tem que disseminar o conhecimento angariado nas pesquisas.

    um abraço meu amigo, Pr Marcello

    P.s>> Me chame no rádio, gostaria de falar com o sr.

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  3. Ilustre confrade, obrigado pelas palavras de incentivo. Meu rádio teve um problema técnico, e perdi vários números, inclusive o seu. O irmão poderia passar-me o seu ID outra vez? Um abraço,

    Pr Jefferson

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