sábado, 28 de janeiro de 2012

ESCREVER É PRECISO

Jefferson Magno Costa

(Palestra proferida em 1998, em Lisboa, em um seminário para escritores e editores portugueses. Eu e o presidente da Editora Mundo Cristão, Mark Carpenter, fomos os preletores).

Ilustres editores e escritores, legítimos herdeiros do talento de Vieira e de Camões:  
     Na introdução à Obra Poética de Fernando pessoa, publicada no Brasil em 1960, lemos algumas palavras escritas pelo grande poeta português, que funcionam hoje como pórtico à sua obra.  A beleza e a concordância de sentido dessas palavras com o objetivo deste seminário nos levam a citá-las como abertura:
    Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
     “Navegar é preciso; viver não é preciso.”
     Quero para mim o espírito desta frase,
     transformada a forma para a casar com o que
     sou: Viver não é necessário; o que é necessário é
     criar.
     Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la
     penso. Só quero torná-la grande, ainda que para
     isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma)
    lenha desse fogo.
         Só quero torná-la de toda a humanidade;
    ainda que para isso tenha de a perder como
    minha.

     Hoje, as navegações por aqueles mares bravios e nunca dantes navegados se encerraram, e Fernando Pessoa cumpriu o seu propósito de direcionar sua vida para o ato único de criar a mais bela e profunda poesia da modernidade portuguesa.
E agora cabe a nós, escritores evangélicos portugueses e brasileiros, a conscientização de que nos resta cumprir o lema que justifica a nossa vocação de escritores: Escrever é preciso. Sim, mas escrever com arte, com clareza, com propriedade, com eficiência. Escrever como um ato de gratidão a Deus por tudo o que ele fez por nós, e também como um ato de patriotismo.

LÍNGUA PORTUGUESA, NOSSA PÁTRIA
     “A minha pátria é a língua portuguesa”, disse certa vez Fernando Pessoa. Foi pátria dele e é pátria nossa. Somos um só povo, o povo luso-brasileiro-africano dessa grande pátria que é a língua portuguesa.
     O poeta português Antônio Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pelo nosso idioma, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do português, ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:
       Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
         A portuguesa língua, e já onde for,
         Senhora vá de si, soberba e altiva;
         Se até aqui esteve baixa e sem louvor
         Culpa é dos que a exercitam,
         Esquecimento nosso e desamor.

     Escrever é preciso. A língua portuguesa necessita hoje de mais e mais embaixadores que a enobreçam, que a prestigiem e a divulguem pelo mundo inteiro através de obras-primas de interesse universal. Nós, escritores evangélicos de Portugal e do Brasil, estamos em dívida para com a nossa língua. É necessário que produzamos obras que ultrapassem as fronteiras de interesse dos leitores evangélicos, e alcancem o grande mar de interesse dos leitores não-evangélicos.
     Porém, jamais produziremos obras de total relevância se não nos conscientizarmos de que, além de embaixadores de Cristo, devemos nos tornar também embaixadores da língua que herdamos de nossos pais, como embaixadores dela têm sido os escritores Vitorino Nemésio, Vergilio Ferreira, José Saramago, Miguel Torga, Fernando Namora, Herberto Helder, José Gomes Ferreira, Augustina Bessa Luis, Eugenio de Andrade e tantos outros grandes nomes das letras contemporâneas portuguesas, como também foram embaixadores no passado Fernão Lopes, Azurara, João de Barros, Frei Luís de Souza, Frei Amador Arrais, Frei Heitor Pinto, Antônio Vieira, Manuel Bernardes, João de Lucena, Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, e dezenas de outros grandes mestres.
     Escrever é preciso. Aliás, saber escrever é mais necessário ainda. Devemos ter certeza de que estamos na atividade certa e desempenhando nossa verdadeira vocação, pois só assim poderemos apresentar a Deus os nossos talentos e esforços como uma perpétua ação de graças.
 A ARTE DE ESCREVER PODE SER APRENDIDA?
      Quanto às pessoas, presentes ou não neste seminário, que não têm certeza de que foram verdadeiramente vocacionadas para o ministério da palavra escrita, mas assim mesmo gostariam de servir a Deus escrevendo e publicando livros, cabe aqui uma pergunta: A arte de escrever pode ser aprendida?
     Sim – é a resposta –, mas dentro de certos limites. Pois há algo que não pode ser ensinado, que não se aprende em nenhuma escola ou universidade: o talento. Este, o estudo pode desenvolver, mas não criar.
     No ato de escrever há um lado inconsciente, que está diretamente ligado ao talento, à vocação, e outro consciente. Este último pode ser conquistado ou aperfeiçoado pelo estudo de técnicas que estão à altura de todas as inteligências, e pela leitura dos grandes mestres da palavra escrita.
     Portanto, não basta também só a vocação, o talento literário. É necessário estudar as técnicas, ler os melhores modelos e se exercitar todos os dias, escrevendo. Aprende-se a escrever escrevendo, assim como se aprende a nadar nadando, e não lendo unicamente livros que ensinam a nadar.

COM QUE OBJETIVO DEVEMOS ESCREVER?
     Além de escrevermos sem jamais esquecer o nosso papel de divulgadores das verdades evangélicas, devemos levar também em conta o que o grande escritor argentino Jorge Luis Borges falou sobre o objetivo de escrevermos. Disse ele que todo escritor deveria escrever para “proporcionar alegria ao leitor”. E o escritor também deveria sentir essa alegria ao escrever.
     Borges afirmava que a literatura é uma forma de alegria. Se lemos algum texto com dificuldade, o autor fracassou. Por isso ele achava que um escritor como James Joyce tinha fracassado, já que sua obra (especialmente o romance Ulisses) requer muito esforço para ser lida.
     Borges também dizia que tudo o que nos acontece de bom ou de ruim – inclusive humilhações, desastres e infelicidades – deve ser tratado como barro, como matéria-prima utilizada em nossos livros. Essas coisas nos foram dadas para ser transformadas.
     “Devemos fazer com que as circunstâncias adversas de nossa vida se tornem coisas eternas ou em vias de eternidade”, comentava Borges.   
     Isto tendo sido dito por um contista, ensaísta e poeta universalmente célebre e genial, aos 80 anos de idade, que ficara completamente cego aos 56, e que não teve o privilégio de conhecer a Cristo como nós o conhecemos, adquire um peso todo especial, não acham?
     Portanto, só conseguimos conquistar a atenção, o interesse e a alegria do leitor se escrevemos de forma bela e clara.

A BUSCA DA EXPRESSÃO IDEAL
       A expressão clara, insubstituível, bela: eis tudo o que devemos almejar e perseguir incansavelmente. É ela que distingue um autor medíocre de um grande autor. Moisés, Homero, Platão, Virgílio, Camões e Vieira estão acima dos outros escritores por suas expressões e imagens belas e claras.
     E nesta nossa luta diária em busca de claridade e beleza, muitas vezes nos surpreendemos ao constatar que a expressão que há muito buscávamos sem a encontrar, mas que finalmente a encontramos, era a mais simples e natural entre todas as que poderíamos ter escolhido. 
     Tão simples que deveria nos ter ocorrido imediatamente, sem qualquer esforço ou dispêndio de tempo. Mas o simples em literatura não significa que seja fácil de ser alcançado. É, na maioria das vezes, resultado de um esforço imenso e perseverante.
     Um livro, para ser publicado, tem que ser trabalhado, corrigido, polido, durante meses, durante anos, com paciência e cuidado. Existem atualmente no Brasil e em Portugal livros quase totalmente ilegíveis, que só podem ser lidos (e nem sei se entendidos) por uns poucos “iniciados”.
     Não é fácil ser claro, não é fácil ser simples. E não devemos confundir clareza e simplicidade com pobreza e mediocridade. O poeta Zé Gomes disse certa vez em uma entrevista que só atingia a simplicidade em seus poemas à custa de muito trabalho. É fácil ser obscuro. O difícil é ser claro.
     Um escritor nunca deve esperar que o leitor adivinhe aquilo que ele teve desejo de dizer mas não conseguiu por falta de habilidade no uso das palavras. O leitor não fará pelo escritor o que este não foi capaz de fazer por si próprio. E só será bem escrito aquilo que for bem pensado.
     Neste particular, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer distinguia três tipos de escritores: os que escrevem e depois pensam, os que pensam à medida que escrevem, e os que só escrevem depois de ter pensado. Mas eu descobri um quarto tipo de escritor: os que não pensam nunca.

NECESSIDADE DE CONHECERMOS A GRAMÁTICA
      O escritor brasileiro Mário de Andrade comentou que “para um artista em plena posse de sua capacidade, a gramática deixa de existir. Porém, o escritor que não conhecer a fundo e preliminarmente a gramática, jamais será um artista digno de sua profissão.”
     Porém, tanto em Portugal como no Brasil, os gramáticos são legião, e isto é um sintoma de pobreza intelectual. Quem não sabe fazer, ensina; quem sabe, faz. Falando assim estaremos nós a insinuar que o escritor deva ignorar a norma culta de sua língua? De maneira nenhuma. Ele tem que estudá-la permanentemente, com aquela persistência que o poeta francês François Coppé demonstrou ao responder a uma norte-americana que lhe perguntou se ele falava inglês: “Não, minha senhora... continuo a aprender francês.”  
      Todavia, na arte de aprender a escrever, o que conta não é o insípido convívio com gramáticos – homens cujo sangue, visto ao microscópio, dizia George Elliot, só revela vírgulas e parênteses. “O gramático vive do escritor, mas não o escritor do gramático”, comentou veementemente o escritor português Cruz Malpique.
“Definir impecavelmente a costura não é costurar. Ora, o gramático é geralmente um homem que sabe de cor a técnica da costura, mas é incapaz de dar um ponto sem picar os dedos. Não há, pois, que fugir disto: águias não saem das capoeiras, e a capoeira, no caso presente, é a gramática. Os grandes autores, eis o convívio recomendável para os escritores em formação. Eles é que são o dicionário vivo e a gramática eloquente. O mais é luar empalhado”.
     A norma deverá ser esta: aprender a gramática sem dar por isso, na língua viva dos escritores, e não inversamente.
(Término da primeira parte da palestra)

Jefferson Magno Costa

2 comentários:

  1. Uma ótima postagem , com conselhos maravilhosos ,preciosos para quem tem um sonho de escrever algum dia.
    Abraço Pastor Jeferson

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  2. Meu prezado irmão e amigo Valtair, espero que você esteja entre os que têm esse sonho, e que um dia eu possa ajudá-lo a realizá-lo. É o meu trabalho há 32 anos.
    Um abraço,
    Pr Jefferson

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